Por um universo literário e brasileiro

Érica Perazza

Todo escritor encontra dificuldade em conseguir colocar em palavras seus sentimentos de forma que expresse também a sua personalidade e estética pessoal. Para Fernando Marques, professor universitário, jornalista, escritor e compositor, foram várias tentativas “meio desajeitadas” entre poemas e letras de música até encontrar sua peculiaridade. De uma forma ou de outra, ele utilizou dos mesmos recursos que outros escritores utilizam por meio do verso, da estrofe, das imagens, dos paralelismos…

Nascido no Rio de Janeiro em 1958, Fernando vive em Brasília desde 1974. Hoje com diversas obras publicadas – os livros Contos canhotos – Pizzarelli na danceteria e outras histórias (LGE, 2010); Retratos de mulher (Brasília: Varanda, 2001); (adaptação em verso e canções do drama Woyzeck, de Büchner; Perspectiva, 2003) e o livro-CD Últimos – comédia musical em dois atos (Perspectiva, 2008) – , ele já encontrou seu estilo próprio, mas continua em busca de espaço no universo literário.

Doutor em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (UnB) com tese sobre teatro, autor da comédia A quatro (encenada em Brasília no ano de 2008) e trabalhos publicados em jornais e revistas de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, Fernando Marques transita por diferentes caminhos. Mas os caminhos percorridos pela literatura brasileira não são tão diferentes.

Fernando se queixa que em nosso país muitos autores não possuem “visibilidade nacional e que por isso, se prefere divulgar um autor regional a divulgar um autor de outro local. Ou seja, criou-se um círculo limitador: não se promove o autor e o livro vindos de outros Estados (ainda que o livro tenha distribuição noutras capitais) porque ele não é ‘nacional’; e ele continuará ‘regional’ ou ‘local’ exatamente porque não há valorização do seu trabalho”.

Ainda, segundo Fernando, confunde-se o que vem de São Paulo e Rio com o que é ‘nacional’ ou tem vocação para sê-lo. “Com isso, as cidades, de modo geral, em que se produz e se consome literatura não dialogam entre si, não se comunicam; o jornal mineiro não divulga o livro brasiliense, assim como o jornal brasiliense ignora o livro feito em Fortaleza”, observa. Para ele o aspecto mais importante é que muitos editores têm um conceito prévio das obras, não verificam nem sumariamente a trajetória do autor quando põem de lado uma possível qualidade literária.

O que também ocorre “é que a grande maioria dos veículos está radicada no sudeste e logo há uma excessiva concentração de poder”, critica Fernando. “É necessário realizar uma circulação mais democrática e mais eficaz de informações e de produtos culturais entre as diversas metrópoles brasileiras. Ao constatarmos a vigência de posturas desse tipo, inclusive e talvez principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, as outras cidades tendem a acompanhá-las”. O escritor e jornalista ainda acredita que a concentração da produção cultural, não apenas de livros, mas também de discos, filmes, teatro, etc, acaba refletindo na mentalidade dos editores e pauteiros. “E na dos escritores também. Do outro lado do balcão, eles alimentam a expectativa de ver seu trabalho aparecer nas caixas de som e luz da imprensa. Por isso jornais e revistas de circulação nacional têm de pensar nacionalmente”.

Para descentralizar a produção cultural, “uma primeira saída seria distribuir de maneira verdadeiramente nacional as verbas estatais da cultura. O dinheiro que as grandes empresas destinam à cultura pode e deve ser melhor distribuído”, crê Fernando. Ainda os agentes culturais (que produzem e divulgam textos e livros) devem começar a interrogar a supremacia paulista, carioca, por exemplo. “É legítimo pretender crescer e fazer os livros alcançarem mais gente. É um direito que assiste a todo agente, a todo ator cultural numa sociedade capitalista”, afirma. E Fernando não deixa de ponderar, sugerir e questionar. “Claro que as soluções só terão eficácia acompanhadas de ações mais concretas como por exemplo: uma reunião de pequenas editoras articulada à organização de um circuito de livrarias de pequeno porte, que criasse alternativas para a circulação de livros e revistas – sem que se descartasse, naturalmente, o circuito já estabelecido, ainda que recentemente estabelecido, das redes de livrarias. As universidades também poderiam exercer esse papel, mais do que já vem fazendo. Além disso, se o próprio público, à medida que cresce e se informa, passar a exigir e a reconhecer qualidade onde quer que esteja, ao largo das modas e das incontornáveis panelas, o cenário mudará. Aos poucos”, convence-se Fernando.

Nós pensamos de forma limitada num país tão amplo. Pensamos e agimos separadamente como se fôssemos paulistas, cariocas, mineiros, gaúchos, baianos, brasilienses e não brasileiros. Devemos ter uma democracia cultural para não perdemos nossa identidade nacional aos poucos. Precisamos despertar e viajar pelo país através de versos, prosas, rimas, ritmos e atos.

Clique aqui para conhecer mais sobre Fernando Marques.

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Categorias: Caixa de Pandora, Literatura

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