Anúncios

Crianças soldados

“(…) Se você cometer um erro, eles vão chicoteá-lo 70 ou até 120 vezes”,
relato de uma criança-soldado na República Democrática do Congo.

Em grande parte da história de guerras da humanidade, há relatos de utilização de crianças como soldados. Contudo, foi apenas a partir da Segunda Guerra Mundial que elas começaram a desempenhar um papel diferente em momentos distintos da Guerra. Todas as crianças russas, por exemplo, assim que completassem 11 anos de idade já poderiam servir ao Exército Vermelho, Muitas eram colocadas nas fileiras linhas de frente. Já na Alemanha, quando seu poder combativo já tinha se exaurido, coube aos velhos e as crianças uma das principais defesas de Berlim. Hitler, em uma das suas últimas aparições oficiais, entregou medalhas para jovens soldados.

Cada vez mais há crianças envolvidas em conflitos armados. Mais de meio milhão de menores de 18 anos participam de forças armadas, forças paramilitares e forças não estatais. Muitas são recrutadas por grupos de guerrilheiros, terroristas, grupos de jihad e gangues e tornam-se combatente, espiãs, informantes ou mensageiras. Elas não carregam livros ou brinquedos, carregam fuzis AK-47. E ao invés de irem para a escola, aprendem a atirar e a matar. Países como Sri Lanka, Congo, Costa do Marfim, Colômbia e Afeganistão o uso de crianças como soldados é generalizada.

A Convenção dos Direitos da Criança, de 1989, estabeleceu 15 anos como a idade mínima para participar-se de uma guerra. Apenas no ano de 2000, a Assembleia Geral adotou o “Protocolo Opcional à Convenção dos Direitos da Criança”, elevando para 18 anos a idade para participação legal na guerra.

A UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) define como “crianças soldados” qualquer criança — menino ou menina— menor de 18 anos que tome parte, em qualquer condição, de qualquer espécie de grupo ou força armada, regular ou irregular. Isto inclui cozinheiros, carregadores, mensageiros e quem quer que acompanhe esses grupos em outra condição que não a de membro da família, mas não se limita a essas funções. Inclui meninas e meninos recrutados para serviços sexuais forçados e/ou casamento forçado. A definição, baseada nos “princípios da Cidade do Cabo”, de 1997, não se restringe a crianças armadas ou que tenham portado armas.

Em toda a Ásia, África e América Latina, crianças a partir de seis anos de idade são forçadas a viver como soldados. Pelo menos 63 governos permitem o recrutamento de menores de idade em tempo de paz. Além disso, muitas são usadas em ataques suicidas. Em 2002, na invasão ao Afeganistão, o exército americano sofreu sua primeira baixa quando o sargento de primeira classe (SFC) Nathan R. Chapman, foi morto por uma criança. A força americana também enfrentou crianças soldados no Iraque, algumas com 10 anos de idade. Pelo menos cinco combatentes menores de idade suspeitos de serem membros da al-Qaeda ou do Talibã foram para uma prisão militar dos Estados Unidos, na Baía de Guantánamo.

Reprodução

Segundo o estudo “Child Soldiers Global Report” de 2008 realizado pela Coalition to Stop the Use of Child Soldiers, a Birmânia (Myanmar), no Sul da Ásia, é o país que há mais tempo e em maior escala possui crianças-soldados. Conforme um relatório elaborado pelos Estados Unidos, os piores violadores estão o Exército de Resistência do Senhor (LRA), em Uganda; os Tigres da Libertação de Tamil Eelam (LTTE), no Sri Lanka; as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia FARC); as forças de segurança do governo da Birmânia e tanto as forças governamentais quanto os grupos armados na República Democrática do Congo. Em alguns países além de forçarem crianças a tornarem-se soldados, muitas foram usadas como escudos humanos, tanto por forças estatais quanto por forças não estatais.

O “Child Soldiers Global Report” também menciona o Brasil e o recrutamento e uso de menores de idade por facções criminosas. Existem centenas de crianças brasileiras envolvidas em conflitos armados no Rio de Janeiro. Muitas possuem apenas sete anos de idade, mas já portam armas e drogas.

Causas


Fome, o impacto da pandemia da AIDS e o excesso populacional de órfãos expostos à moléstia são alguns dos motivos para que haja oportunidade de empregar crianças – à força ou não. Nas Filipinas, por exemplo, muitas ingressam em grupos guerrilheiros para fugir da pobreza.

Outra forma de recrutamento é o sequestro. Logo, são manipuladas para participarem de uma violência brutal dirigida às vezes contra suas próprias comunidades e famílias. Quem não concorda, pode sofrer espancamento e/ou estupro, seguido de morte. Desde janeiro de 2013, no Mali, islamistas têm recrutado um número substancial de meninos de povoados e aldeias, particularmente aqueles onde os moradores há muito tempo praticam uma forma muito conservadora do Islã.  Essas crianças estão sendo treinadas em três lugares dentro da cidade de Gao, onde foram alvos de bombardeio aéreo pelas forças armadas francesas no dia 12 de janeiro. Não se sabe ao certo se os pequenos soldados estavam no local durante o bombardeio.

Reprodução

À medida que o conflito vai destruindo a sociedade, milhares de crianças e adolescentes são obrigados a deixar a escola e suas casas. Em meio à guerra e abandono, muitas creem que o ingresso nos grupos armados é a sua única hipótese de sobrevivência. Outras ainda, ao integrar grupos militares procuram apenas escapar à pobreza ou vingar membros da família mortos por facções opostas.
A contra gosto, muitas crianças e adolescentes que não aderiram exércitos nacionais ou forças de guerrilha de bom grado, 
são levados para campos de treinamento intensivo, onde são muitas vezes drogados e forçados a assassinar amigos, conhecidos e até mesmo membros da família. Sequestrados, comprados e até mesmo entregues por suas próprias famílias, essas crianças combatentes alimentam a guerra e o terror em locais como Palestina, Colômbia e Afeganistão.

Com o passar do tempo, as crianças, durante ou após os conflitos, sofrem de ansiedade, distúrbios do sono e pesadelos, falta de apetite e dificuldades de aprendizagem. Além disso, é possível que ocorram atrasos em seu desenvolvimento.  Outras adquirem um comportamento mais agressivo. É assim que se transformam em cyborgs (como eles mesmo se denominam), pois já não têm qualquer vínculo com qualquer outra pessoa ou qualquer sentimento humano. Sendo assim, em muitos casos, as crianças-soldados são extremamente perigosas, combatentes experientes e com grande habilidade, que cresceram conhecendo apenas o jogo da guerra.

Por que crianças?


Segundo o autor de Innocents Lost: When Child Soldiers Go To War, Jimmie Briggs,  soldados infantis são usados frequentemente em vez de adultos, porque são imaturos e menos inibidos. A consciente moral não é tão desenvolvida como uma pessoa mais velha e por isso você pode transformar uma criança em um soldado muito facilmente. Além de tornarem-se combatentes eficazes porque são facilmente influenciadas, as crianças não têm a experiência de medo da mesma forma que os adultos e não despertam tantas suspeitas por parte das forças dos Estados Unidos. As crianças-soldados são ideais porque não protestam, não esperam ser pagos e se os mandam que matem, eles matam. E quando recebem salário, os pequenos combatentes ganham entre U$ 200 e U$ 300 para colocarem bombas, e são glorificadas na internet tanto por sunitas quanto xiitas, por exemplo.

Reprodução - Abid Katib /Getty Images
A propensão ao trabalho militar infantil é ainda facilitada pela proliferação de armas baratas e de fácil uso, por estruturas estatais enfraquecidas na regiâo de conflito. Claro que a pode-se somar também existência de chefes guerreiros e de “áreas sem lei”.
As crianças soldados assumem riscos, têm um sentido de mortalidade diminuído. Frequentemente, esses fatores são reforçados pelo uso de álcool ou de drogas. As crianças podem tornar-se máquinas mortíferas. Por outro lado, o número e poder de fogo contra elas costumam ser maciços, pois são consideradas descartáveis.

Thomas Hammes, autor de The Sling and the Stone: On War in the 21st Century, acredita que o uso de crianças-soldados é uma tática para atacar psicologicamente os adversários.  Isto é, as forças militares quando são confrontadas com crianças empunhando espingardas automáticas, devem decidir se irão alvejar civis menores de idade ou cessar-fogo.

Anúncios

Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categorias: Caixa de Pandora, Internacional

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

um comentário em “Crianças soldados”

  1. Manuel Nunes
    28 de maio de 2014 às 23:23 #

    Gosto,do conteúdo muito bom, relatando os factos duma forma sóbria, tocado este comentário, para além de diversas zonas do planeta os aspectos de desumanização como
    os cabecilhas e governos lidam com estas crianças de ambos oe sexos e até recorrendo ao uso de dogras, para os tornarem mais inconscientes e obterem daí melhores resultados.GRATO.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: