Anúncios

Resgates

Via José Faro

Estive às voltas nos últimos dias com a leitura do livro Homens em tempos sombrios, uma coletânea de artigos escritos por Hannah Arendt (Cia das Letras, 1987, 249 pgs) em torno de biografias de personalidades marcantes do século XX. Uma delas é a de Ângelo Giuseppe Roncalli, o Papa João XXIII, que a autora, nas palavras ditas a ela por uma camareira romana, foi um “verdadeiro cristão”, capaz de surpreender aqueles que pensaram que sua eleição, na ausência de um nome que assegurasse a manutenção intocada do estamento burocrático do Vaticano, fosse apenas um ato “provisório e transitório, sem maiores consequências”.
Não foi o que aconteceu: João XXIII não apenas abriu uma intensa discussão sobre os rumos do catolicismo ao convocar o Concílio Vaticano II – cujas teses em torno do comprometimento social da Igreja ainda hoje estão no centro das opções programáticas da instituição – como ele próprio personificou o despojamento que responderia por sua aproximação simbólica, e até ideológica, com vastos setores sociais de seu tempo. Para aqueles que gostam se entender as motivações da Teologia da Libertação, por exemplo, é indispensável a compreensão dessas duas variáveis: o Concílio e a personalidade de João XXIII. Sem elas, figuras como Dom Helder Câmara não teriam adquirido a dimensão política que tiveram nos anos 60 e 70.
O comentário vem a propósito da chegada ao Brasil do Papa Francisco para participar da Jornada Mundial da Juventude. O evento é todo ele carregado de significado tanto do ponto de vista das expectativas que o pontificado do novo Papa desperta desde sua insólita eleição, quanto do ponto de vista das condições políticas em que Francisco encontra o país que vai recebê-lo, já que nos dois casos as mensagens que serão dirigidas à esfera da gigantesca audiência de sua visita dificilmente deixarão de ser apropriadas pelo sentimento de esgotamento e de renovação que, simultaneamente, tomam conta da existência política contemporânea, no Brasil e fora dele.
Evidentemente não é o caso de se imaginar que Francisco e a instituição que ele representa possam ser vistos como forças orgânicas capazes de empolgar transformações estruturais, mas é possível vê-los como bandeiras de um momento de inflexão que, ao lado de tantos outros movimentos de tendência semelhante, ofereçam perspectivas de resgate das utopias sociais…
Nesse sentido, vejo como muito positivo o fato de que, em terras brasileiras – que Hobsbawm identificou como o cenário da maior tragédia social da História Contemporânea – o Papa possa apontar o dedo para a farsa em que se transformaram a política e a economia, a gestão do Estado, o respeito aos direitos humanos, a mercantilização da Saúde e da Educação, a cultura individualista e arrivista da sociedade de consumo, os simulacros dos discursos da representação sindical e todos os outros conflitos que nos tiram o sono quando paramos para pensar no mundo em que vivemos.
Se o resultado final da visita do Papa ao Brasil e da realização da Jornada Mundial da Juventude provocar um estado de envergonhamento geral com os monstrengos que se alimentam dessas mazelas, penso que haverá alguma recuperação das matrizes que João XXIII tentou imprimir no período em que foi o chefe da Igreja Católica.
Anúncios

Tags:, , , ,

Categorias: Atena, Educação e História

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: