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Estadão perde o tom e o rumo…

Via José Faro

Volta e meia me lembro do exemplo que dei aos meus alunos, já há alguns anos, sobre o capital simbólico do qual um jornal desfruta e com o qual faz valer sua marca no mercado. Na época, chamou minha atenção o relatório que a S/A O Estado de S. Paulo apresentou à assembleia de seus acionistas com introdução inteiramente voltada para uma narrativa construída em torno dos feitos históricos do jornal: à ideia de tradição centenária do veículo juntavam-se outras virtudes, entre elas o alegado compromisso coerente com sua linha editorial, a disposição de enfrentar o arbítrio do autoritarismo de Vargas e da ditadura militar pós-64, a inserção cultural e cívica que os Mesquita nunca se cansaram de propagandear… A intenção do exemplo que eu dava aos alunos  era a de permitir que observassem as consequências de uma prática que põe à frente do sucesso empresarial a coerência doutrinária, ainda que esse encaixe sofra inúmeros e frequentes arranhões.

 Mesmo assim, observei então – e observo agora – que o discurso que registra esse valor cobra algum tributo de sua construção, geralmente um tributo positivo já que os compromissos de natureza institucional que o estruturam dizem mais respeito à legitimação do veículo do que ao seu perfil empresarial. No final das contas, o êxito de natureza econômica, publicitária etc aparece como decorrência de uma certa coerência que assegura a fidelidade de fatias do público consumidor do jornal, sua clientela e razão de ser da receita publicitária que consegue.
Dito assim, de forma simplificada, corro o risco de tornar obscura essa relação intangível entre duas esferas simultâneas de existência de um jornal e que sinalizam para a sua prática hegemônica no âmbito da manipulação do noticiário e das articulações políticas que inevitavelmente decorrem dela. Mas para os objetivos deste post penso que a análise não é grosseira; ao contrário: indica uma especificidade bastante aguda quando se trata de analisar os produtos da indústria cultural. Pois é essa especificidade que parece estar sendo deixada de lado – ou sequer considerada – quando se avalia com cautela e sob diversos ângulos a notícia sobre o novo projeto do mesmo Estadão (leia aqui em cópia pdf).
Em primeiro lugar chama atenção o caráter constrangido e envergonhado com que a informação foi dada: um canto na parte de baixo de uma página par no caderno de Economia, como se a recomendação em torno das mudanças fosse a do tratamento low profile, sem muito oba-oba porque parece que a reforma prenuncia um abalo sério na personalidade do jornal. Perda de substância noticiosa alegadamente produzida em razão de uma nova ótica de funcionalidade dos hábitos do leitor (o que é, por enquanto, uma ficção), ajuntamento de cadernos e pausterização de editorias, reforço da cultura do digital sobre o impresso. Enfim, parece que o veículo acelerou sua disposição em aceitar como inevitável não o deu declínio, mas o seu desaparecimento…

Em segundo lugar, essa história da compatibilidade invertida entre os dois perfis simultâneos com os quais abri o post: credibilidade jornalística e sucesso empresarial. Digo invertida pois no balanço que me serviu de exemplo para os estudantes, a primeira se sobrepõe à segunda – como estratégia; agora, a segunda se sobrepõe à primeira, também como estratégia mas a partir de um outro pressuposto: não há fidelidade a ser consolidada porque o tudo ou nada pela sobrevivência econômica parece ter colocado a coerência editorial – e as virtudes que construíram as marcas do jornal – num distante 2o. lugar. Nessa linha de raciocínio que parece comandar hoje as decisões macro dessas empresas duvido muito que o jornalismo, tal como o conhecemos, sobreviva.
Dia desses li o texto Retomadas, de Perry Anderson, publicado pela editora Record na antologia da New Left Review organizada pelo professor Emir Sader. Anderson faz um balanço da revista e procura explicar aos leitores as complicadas razões de seu sucesso tantas foram as vicissitudes que o pensamento livre enfrentou no pós-guerra. Lá pelas tantas, me parece que a NLR encontrou seu êxito numa fórmula muito parecida com a de outros veículos: “intersecção da inovação estética com a filosofia e a política”, “vitalidade” herdeira de seu projeto original, tanto a defesa de princípios “quanto a capacidade destes [periódicos] em decifrar o curso dos acontecimentos no mundo”. E mais um pouco: como “a perda de visão editorial decreta a derrota intelectual”, é preciso evitá-la a todo custo, porque “jornais políticos não têm escolha a não ser manterem-se honestos consigo mesmos, e precisam almejar estender sua vida concreta para além das condições e da geração das pessoas que os trouxeram à vida”.

Pois esses ingredientes de uma publicação séria e comprometida é tudo o que as reformas dos grandes jornais brasileiros não têm. E o exemplo dado agora pelo Estadão parece confirmar a regra, lamentavelmente.

Sobre o mesmo assunto, sugiro a leitura dos textos publicados no Observatório da Imprensa:

Sem tempo para leitura, Sylvia Debossan Moretzsohn
* Cabeças de papel, Luiz Egypto
A montanha pariu o rato, Luciano Martins Costa

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Categorias: Editoriais, Metalinguagem

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