Anúncios

Alunos digitais, professores analógicos ou todos no mesmo barco?

Via José Faro

Estadão de 3 de abril publica mais uma das inúmeras bobagens que se acumulam na imprensa sobre os desafios que os professores enfrentam com o avanço das tecnologias digitais na Educação (leia aqui em cópia pdf). Digo bobagens talvez com rigor excessivo, mas é a repetição do mesmo, de explicações mal alinhavadas e um rasteiro desconhecimento do assunto que acaba desqualificando a discussão pública e cuidadosa que o tema merece. Melhor seria dizer que a retórica está esvaziada de sentido…
Se eu pudesse sugerir a contextualização dessa pauta que fica insistindo no despreparo dos professores para enfrentar o desafio das tecnologias digitais, começaria recomendando que os educadores que se dispõem a falar sobre o problema (e os jornalistas que se dispõem a escrever sobre ele) levassem em conta o caráter não linear da sua absorção por toda a sociedade brasileira. Não é verdade que as escolas que proclamam projetos com base nas Tecnologias da Comunicação e da Informação (TICs) estejam elas próprias preparadas para dar conta de toda a sua complexidade, nem seus gestores, muito menos sua clientela de alunos e de pais de alunos, já que a característica fundamental desse processo é a sua assimetria sócio-cultural, no tempo e no espaço. Os professores estão despreparados e desarmados – tanto quanto os demais segmentos envolvidos no setor.
Em segundo lugar, parte desse divórcio entre a potencialidade pedagógica das TICs e sua operacionalidade cotidiana – na sala de aula e fora dela – se deve, segundo penso, à forma limitada e pouco inteligente (para que se diga o mínimo) com que as próprias escolas (as públicas, na dependência de projetos de inspiração governamental e normativa; e as privadas, na dependência de sua inserção no mercado da educação) recorreram à sua aplicação meramente quantitativa e gerencial. Confunde-se o uso das TICs com armazenamento de dados e com registros – o que não apenas empobrece a relação dos estudantes com as tecnologias digitais como também constrange os professores ao seu uso burocrático e de pouca densidade educativa e intelectual. Insisto em afirmar que se há um segmento que vem contribuindo radicalmente para que educação brasileira não tire proveito emancipador das TICs, esse segmento é o do gerenciamento do sistema como um todo. Nas mãos de seus planejadores todas as expectativas transformadoras do mundo digital retrocedem, regridem…
E por último: o sentido verticalizado e hierárquico com que as TICs são aplicadas aos projetos educacionais – traduzindo-se numa somatória de tarefas de pouco significado para a percepção docente, anula conceitos e investimentos. Com exceção dos cursos de Educação a Distância, onde os professores aparentemente se apropriam das filosofias que os orientam, não conheço uma só escola onde a arquitetura que sustenta o uso das técnicas decorreu de um processo de participação efetiva de seu corpo docente na sua concepção.
Repito aqui o que já disse em outro post: o ministro Mercadante precisa ouvir os professores.
Anúncios

Tags:, , , , , ,

Categorias: Atena, Educação e História

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: