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Os evangélicos, o zero e o infinito…

Via José Faro

Fui levado a ler o romance O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, por indicação de um amigo em meados dos anos 70. A sugestão certamente teve o objetivo de me fazer compreender o fosso entre a insignificância do indivíduo, sua natureza ondulante e psicologicamente devassável, e o infinito das formulações utópicas contra a qual se opõe o fragmento da fragilidade. Escrevendo sobre os processos de Moscou, Koestler expôs toda a sua contrariedade com a aventura estalinista e com os rumos que a Revolução Russa havia tomado, mas me parece fora de dúvida que o romance está longe de ser uma referência à fatualidade da História, embora também o seja, mas é antes um ensaio de pretensões mais amplas. Sobre a obra eu recomendo a leitura de dois bons e pequenos textos disponíveis na rede: O Zero e o Infinito, do blog de Flávio P. Oliveira; e um trecho da própria contra-capa do livro. É o suficiente, me parece, para despertar o interesse sobre um livro importante na literatura contemporânea e escrito por um autor de densa atividade política na Europa antes e depois da II Guerra.

O que me leva a anotar aqui O Zero e o Infinito, no entanto, não é qualquer referência literária ou data em que se comemore alguma coisa sobre o livro (ou sobre o autor do livro), mas a própria metáfora do seu título que remete ao embate sutil e insidioso que o crescimento das seitas neopentecostais vai promovendo contra os pressupostos do Estado laico, republicano e plural que pensamos estar construindo desde o fim da ditadura militar. A presença desse inexpressivo e medíocre deputado Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara não é mais que um episódio revelador do quanto os espaços de dignidade da sociedade brasileira já se retraíram em consequência da presença obscurantista desses grupos na cena da esfera pública; dramática mesmo é a espessa camada de intolerância moral e religiosa que vai tomando conta e atemorizando o cotidiano dos cidadãos: o zero e o infinito.

Recomendo a leitura de três registros sobre esse processo – em tudo semelhante à construção de situações autoritárias que tendem a crescer em meio ao vazio de projetos políticos e à progressiva perda de substância analítica e reflexiva da mídia e da escola. O primeiro é a matéria de Eliane Brum – A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico – publicada na revista Época. O segundo é o editorial do Estadão de 31 de março – Pior que o caso do pastor. O terceiro é o artigo de Janio de Freitas, também publicado na Folha – O poder à vista. Torço para estar enganado, mas acho que não estou: as manifestações dos grupos evangélicos na direção da cena institucional – o poder de que fala Janio de Freitas – tem perfil estratégico e vêm sendo fortemente facilitadas pela crise de representação das estruturas políticas convencionais, espaços ocupados por segmentos que não têm qualquer compromisso com a democracia.

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Categorias: Território Nacional

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