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Fernanda Pires: uma flautista na Vila Madalena

Via Rafael Cunha

Quando as primeiras notas da flauta transversal começam a soar, os moradores da rua Belmiro Braga já sabem: é Fernanda Aparecida Pires que está ensaiando mais uma música. Essa paulistana de 34 anos, que participa do Projeto Guri, quer se tornar uma musicista profissional e provar que, apesar das dificuldades impostas pela Síndrome de Down, nunca é tarde para ir atrás de um sonho.

Fernanda frequenta o Guri duas vezes por semana e além da flauta transversal, tem aulas de coral e de teoria musical. Quem a acompanha hoje não imagina que a relação com a instituição já enfrentou alguns problemas. Há dois anos, após uma mudança na gestão do Projeto Guri, Fernanda foi impedida de continuar a participar das atividades sob alegação de que a casa não poderia receber pessoas com mais de 18 anos. Decisão que causou certa estranheza, pois a gestão anterior havia liberado sua participação. Depois de muita pressão da família, de amigos e até da imprensa, o Guri abriu uma exceção. “Eu me sinto bem quando estou lá”, afirma ela.

Nos dias em que não vai ao Guri, Fernanda se dedica à pintura. O irmão, que mora em Presidente Prudente, interior de São Paulo, é responsável por comercializar as obras. No início, quando saía vendendo sozinha sua arte pelas ruas da Vila, pôde conhecer vários moradores do bairro, entre eles, o jornalista Gilberto Dimenstein. Foi assim que alguns de seus desenhos foram parar na Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos. “Quando eu soube disso fiquei surpreso! O que aconteceu foi que o Dimenstein comprou uns desenhos e deu de presente para a ex-primeira dama Laura Bush, quando ela visitou o Brasil em 2007”, lembra Sérgio, pai de Fernanda.

Caçula da família, Fernanda vive com os pais e a irmã na mesma casa desde que nasceu. Uma residência espaçosa e aconchegante que guarda muitas memórias do passado de Sérgio, pois foi lá que ele também passou a maior parte de sua vida. “Eu nasci na Vila Madalena, na rua Original, e me mudei com quatro meses para a Belmiro. Aqui era interior, na Inácio Pereira da Rocha não passava carro e tinham somente pontes para pedestres, com 1,5 metro de largura. A gente criava cabra, coelho. Posso dizer que tive uma infância maravilhosa”, afirma.

Sérgio está atualmente aposentado e é quem comanda a casa, já que, por problemas de saúde, a esposa evita se movimentar. A filha mais velha sofreu uma lesão cerebral quando teve filhos e passou a ser dependente para realizar atividades cotidianas. Quem ajuda Sérgio é Fernanda, que muitas vezes dá banho na irmã.

Nas horas vagas, ela gosta de assistir televisão. É fã da novela Carrossel e do Programa Silvio Santos. Além disso, é são-paulina fanática. Sua pasta de partituras, por exemplo, é repleta de adesivos do time.

Segurança

Para Fernanda, a falta de segurança é o único empecilho para que saia mais de casa.  Seu pai relata que ela já foi assaltada duas vezes e prefere que esteja acompanhada. “Há muito tempo a Vila Madalena perdeu a tranquilidade que tinha. Hoje é um bairro perigoso”, diz Sérgio.

A Síndrome de Down nunca foi motivo para que ela não saísse na rua. “Não me lembro de ter sofrido preconceito aqui no bairro”, afirma. Sérgio acredita que a pessoas estão mais familiarizadas com os portadores da Síndrome e já sabem que não é uma doença.

“As escolas daqui do bairro, por exemplo, recebem essas pessoas. O problema é que eles querem que um Down tenha o mesmo desenvolvimento escolar que uma pessoa que não tem a Síndrome e isso é muito difícil acontecer. Acho que tem que ter um segundo professor na sala de aula que atenda especialmente os alunos com Síndrome de Down”, complementa.

Fernanda frequentou a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) durante 30 anos e foi lá que desenvolveu o amor pela música. Enquanto não se torna musicista profissional, Fernanda nutre outro desejo: trabalhar fora de casa. “Eu queria muito trabalhar fora, ter um emprego, mas precisa ser um trabalho onde eu fique sentava porque meus pés incham”, afirma ela sobre este que ainda é um dos maiores desafios de inclusão para o Brasil.

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Categorias: Atena, Curiosidades, Exposições

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