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A rua invade a galeria

Por Juliane  Freitas

O Mube estava impregnado com cheiro de tinta na última semana quando a Pandora o visitou para esta reportagem. Latinhas de todas as cores passeavam nas mãos de artistas ainda mais coloridos para compor, assim mesmo, em cima da hora, as obras que serão expostas ao grande público a partir desta terça-feira, 22, na II Bienal Graffiti Fine Art do Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo.

São 51 os grafiteiros de todo o mundo, que aceitaram o desafio de criar do zero uma exposição de arte de rua dentro da galeria. O que pode parecer inconcebível para alguns artistas nada mais que reforça o verdadeiro diferencial desses pintores, cujo maior talento é a rápida e espontânea criatividade.

Organizado por Renata Junqueira e pelo também grafiteiro Binho Ribeiro, o evento chega à sua segunda edição mais maduro, contemplado pelo avanço do entendimento do movimento como uma demonstração genuína de arte. “A primeira bienal foi um marco para a cultura no mundo todo. O grafite passou a receber o mesmo tratamento de outros tipos de arte”.

Para o curador, a magia da exposição é a colaboração entre os artistas e o intercâmbio de estilos. Ele garante que buscou artistas pelo valor sua obra e não por status. “Não presto atenção se o artista é famoso. O importante é que ele seja verdadeiro e o que ele realmente produz”.

Entre os convidados está o nova-iorquino Daze, que participa pela primeira vez de uma exibição em museu. “Estou honrado de estar aqui e gosto de ver essa arte, que nasceu em Nova York, espalhada por outros cantos do mundo”. O artista elogia o estilo dos brasileiros, único e bem diferente do americano. Para ele, não é possível identificar com facilidade as influências do grafite local. Essa diversidade, no entanto, está longe de intimidar o grafiteiro. “O interessante é compartilhar, conhecer gente e fazer arte”, conclui.

Também não incomoda os artistas o desvencilhamento de seu painel de origem, a rua. “As pessoas sempre questionam se não é estranho colocar a street art no museu”, diz Binho, “mas é como um leão no zoológico. Ele não deixa de ser um leão, ele pode ser apreciado”. A vivência de rua, porém, é essencial. “Se o grafiteiro não estiver na rua ele se perde”.

Foi justamente a ideia de divulgar o estilo nos museus que atraiu o peruano Danny Figueroa Wers. Ele soube da primeira bienal, de 2011, pela internet, e quando conheceu Binho Ribeiro em um evento, em Munique, na Alemanha, perguntou o que poderia fazer para participar de uma próxima edição. “Comecei no grafite, mas acabei descobrindo que também gosto de outros tipos de pintura, então acho que na rua ou na galeria, isso faz parte do meu desenvolvimento como artista”.

reprodução

O que muda é o processo de concepção da obra, voltada para outro objetivo, o da contemplação. “É o mesmo jeito e a mesma escola, mas é verdadeiramente diferente. Na rua é muito instintivo. No estúdio você pensa no futuro e se as pessoas vão gostar”, opina o francês Kongo, que segue a linha de pensamento de Daze. “Aqui você pode estudar o que vai fazer e é algo que ficará para a posteridade. Na rua você é baseado no momento. É muito mais físico e menos cerebral”.

Apesar de ainda não terem destino definido, as obras prontas, que estão sendo pintadas na parede de um dos salões do Mube, devem deixar um valor simbólico, que importa para Nuno Skor.”A ideia é trazer o que há de melhor do que a gente faz na rua para o museu, então estão reunidos alguns os melhores pintores do mundo e só essa colaboração já vale. É uma coisa que já existe, faz parte do espírito do grafite”.

A democratização do estilo e seu reconhecimento têm gerados bons frutos para os artistas. “É cada vez mais comum surgirem trabalhos comerciais através do que a gente faz na rua e hoje nós estamos ganhando a vida por meio disso”, revela Skorface, que pinta ao lado de Magrela, Nunca, Daniel Mellin, Eco, Eder Muniz, Minhau (que promete uma instalação de cerca de 4 metros) e outras dezenas de artistas.

No Mube, as obras podem ser vistas gratuitamente de 22 de janeiro a 18 de fevereiro. O museu fica na Avenida Europa, nº 218, em Pinheiros, na capital paulistana, e abre de terça a domingo, das 10 às 19h.  Nas ruas, a arte está disponível todos os dias. Olhe atentamente e aprecie sem moderação.

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Categorias: Atena, Exposições

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