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A música que poderia salvar Roberto Carlos

Por Lucas Marcelino

“O importante é fazer, é estar feito, estar registrado. O próprio Fernando Pessoa, em vida, ninguém lia. E hoje Fernando Pessoa é o que nós sabemos”.

Depois de passar os últimos anos lançando músicas de qualidade inversamente proporcional ao tempo de carreira, ampliando o conhecimento marítimo e litorâneo em cruzeiros e conquistando os corações das mesmas telespectadoras dos últimos anos de especial na Rede Globo, o “Rei” Roberto Carlos parece estar fadado a um final mais chato que o desse cara horrível que ele anda cantando por aí.

 Mas existe uma música que poderia salvar a sua carreira. Assim como já aconteceu outras vezes, talvez seja hora dele buscar em outros autores aquele sucesso que poderia mostrar um novo lado para o público – que diferentemente da Rede Globo, não aguenta as mesmas músicas dos últimos trinta anos tocadas em arranjos minimamente alterados ou em versões “ao vivo” com as parcerias mais estranhas possíveis.

 Nos anos 70, o “Rei” ainda era jovem – talvez por isso a crítica tivesse menos respeito e mais coragem – e depois de uma década tocando quatro acordes e fazendo pinta (ou fama) de mau, ele passou a ser cobrado por mais criatividade e passou-se a duvidar da sua capacidade musical perante as grandes novidades da música brasileira regadas à sanfona do nordeste, à guitarra psicodélica do sudeste e ao soul importado para o Rio por Tim Maia e Cassiano.

 E foi o Tim que salvou a pele dele, menos para ajudá-lo do que pra salvar a sua própria pele.

Precisando de dinheiro para sustentar suas emoções exageradas, Tim resolveu apresentar um funk da pesada intitulado “Não vou ficar”. Ele não entendia nada de teoria musical, criava tudo de cabeça e foi assim que chegou um dia ao apartamento do Roberto e tocou a música, explicando todos os arranjos que ele havia planejado. O Robertão – que pode ser tudo que diz na música sobre esse cara, mas não é besta – aceitou gravar na hora e em troca de uns miúdos sobre os direitos autorais para o Tim ele reconquistou a crítica e o público e levou sua carreira para o segundo melhor momento (perdendo apenas para os anos 60), mas com muito mais qualidade nas músicas e com muito mais “pegada”, distanciando os novos sucessos daquele modelo beatnik e se aproximando do estilo romântico. Um estilo bem equilibrado ainda nos anos 70 com músicas como “Último Romântico”, “Todos estão surdos”, “Como dois e dois”, “A distância”, entre outras.

Depois disso o que chegou foi a decadência. Pois mesmo que digamos que ele é rei e que as mulheres continuam se apaixonando, isso só acontece com o Chico Buarque. As manias, as perdas dos seus amores e a acomodação o levaram ao resmungo próprio da idade. Mas há uma música, escrita nos anos 70 que poderia resgatar a credibilidade e dar nova potência ao velho calhambeque para subir a serra novamente.

A mesma cidade do Rei Roberto, Cachoeiro do Itapemirim, deu ao Brasil um outro grande artista, de fama oposta a do primeiro. Conhecido como o Maldito dos Malditos, Sérgio Sampaio foi o artista que alcançou o maior sucesso entre os considerados “malditos” – grupo que contava com compositores inovadores demais para a época como Jards Macalé, Walter Franco e Luiz Melodia – com o hino “Eu quero botar meu bloco na rua”.

Sampaio era fã do Roberto desde jovem, quando só queria ser locutor de rádio. Depois do sucesso com o “Bloco” começaram as comparações entre os conterrâneos que, exceto pelo romantismo presente em ambas as obras, era completamente absurda. Mas segundo a história Roberto realmente pediu uma música para o Sampaio que não conseguia escrever, até chegar na bela canção intitulada “Meu pobre blues”. Sérgio explicou uma vez como compôs:

“Eu queria fazer uma música para o Roberto cantar. Eu não conseguia fazer, eu pegava o instrumento e tal e nada. Eu falei “Meu Deus, eu sou tão burro assim, eu não consigo fazer uma música para o Roberto?”. Eu não conseguia. Aí eu fui tomar banho, e lá no banheiro me veio uma idéia de fazer uma canção dizendo para o Roberto que eu era incapaz de fazer uma canção para ele. Ele era meu ídolo e eu era fã dele, e eu era incapaz de fazer uma canção para ele. E aí na hora que eu fui desenvolver esse tema, ele saiu por esse lado aí.”

 A própria música parece não ter sido escrita para ser gravada pelo Roberto. Sérgio sonhava em ouvir a voz dele cantando uma música sua, mas a letra era muito crítica, uma verdadeira crônica sobre a condição musical do mais famoso cantor brasileiro de todos os tempos. Havia o sonho de ser gravado, mas havia a coragem de alguém que não se vende para alcançar o sucesso.

 “Blues tão rico/Só que já não esconde/Que o meu pobre coração/Está ficando um tanto quanto aflito/Pois deve estar pintando o tempo/Em que você começa a gravar/No seu próximo disco/Eu queria tanto ouvi-lo cantar/Eu não preciso de sucesso/Eu só queria ouvi-lo cantar
Meu pobre blues… e nada mais…”

 

Roberto não gravou. Foi parar onde parou. Sérgio morreu como previa: sem ser descoberto a tempo de ver o reconhecimento da sua obra. E o Brasil perdeu a chance de ver reunidos o mais famoso e o mais controverso artistas das últimas décadas.

Ainda há tempo. Vários artistas regravaram músicas do Sérgio no tributo “Balaio do Sampaio” no mesmo modelo do “Baú do Raul”. O cantor maranhense Zeca Baleiro encontrou uma fita com canções perdidas que o Sérgio havia enviado para ele e fez os arranjos que deram corpo ao disco “Cruel”. Zizi Possi gravou “Meu pobre blues”, Erasmo gravou “Feminino coração de Deus” que virou sucesso, Luiz Melodia gravou “Cruel” e também fez sucesso. Sérgio Sampaio vai renascendo e talvez merecesse que o Rei aceitasse a música que pediu há tantos anos. Ou talvez ele devesse renascer e aproveitar a honra de gravar uma música do Sampaio. Um cara muito mais interessante que esse que ele fica cantando por aí.

Aqui duas gravações de “Meu pobre blues” feitas pelo Sérgio Sampaio:

 Ao vivo:

Em compacto lançado em 1974:

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Categorias: Atena, Música

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um comentário em “A música que poderia salvar Roberto Carlos”

  1. bia
    19 de janeiro de 2013 às 23:06 #

    criticam artistas brasileiros e idolatram porcarias americanas

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