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O caminho sem curvas de Niemeyer pela justiça

Oscar Niemeyer se tornou o último grande arquiteto vivo nas últimas décadas. Capaz de revolucionar a arquitetura e construir um estilo próprio identificado com a criatividade e a inspiração no Brasil, ele era também a grande personalidade brasileira no mundo internacional das artes. Sua capacidade de transformar construções cheias de formas entranhas aos sábios da arquitetura, mas simples e adoradas pelas pessoas comuns se refletia também no antagonismo entre as curvas que o caracterizaram e a firmeza sem desvios e sem curvas que possuía na sua ideologia de liberdade e justiça. Mais uma vez assustando a grande burguesia e fascinando o povo.

“Nunca me calei. Nunca escondi minha posição de comunista. Os mais compreensíveis que me convocam como arquiteto sabem da minha posição ideológica. Pensam que sou um equivocado e eu penso a mesma coisa deles. Não permito que ideologia nenhuma interfira em minhas amizades.”

Niemeyer filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1945, após conhecer Luiz Carlos Prestes – líder da Intentona de 1935 que fracassou ao tentar instaurar um governo comunista no Brasil – que havia sido libertado após anos de prisão sob a Ditadura Vargas. Diferente de outros intelectuais e artistas que tentavam (e tentam) esconder suas posições políticas para não perder o status social, Niemeyer sempre foi fiel à sua crença na vitória e na verdade do comunismo.

Fui sempre um revoltado. Da família católica eu esquecera os velhos preconceitos, e o mundo parecia-me injusto, inaceitável. Entrei para o partido comunista, abraçado pelo pensamento de Marx que sigo até hoje”.

E permanecia sem preconceitos. Outra condição rara.

“As pessoas se espantam pelo fato de, mesmo sendo comunista, me interessar pelas igrejas. E a coisa é tão natural. Eu morava com meus avós, que eram religiosos. Tinha até missa na minha casa. E eu fui criado num clima assim. Esse passado junto da família me deixou com a ideia de que os católicos são bons, que querem melhorar a vida e fazer um mundo melhor”.

Logo após a anistia que libertou vários militantes comunistas, Niemeyer passou a emprestar sua casa no Rio de Janeiro para que fossem realizadas reuniões e depois passou a abrigar alguns desses militantes. Durante os anos da Ditadura Militar, mesmo sofrendo com a perseguição, o exílio e o bloqueio que reduziu o número de projetos no Brasil e o impediu de trabalhar nos EUA, ele continuava a afirmar sua crença no comunismo. Talvez a única que tivesse, pois também se declarava ateu.

“Eu não acredito em nada. A ciência explica tudo, ela traz a verdade. Ela nos mostra como tudo começou. Acho que agora não há uma razão para caminhar nessas fantasias”.

Mas como Niemeyer podia enfrentar a Ditadura, o risco de perder clientes e a possibilidade de ser difamado por um regime autoritário ou por uma imprensa sempre partidária dos mais ricos? Pode enfrentar porque sabia conciliar sua habilidade e seu prestígio com a sua ideologia. Foi isso que o impediu de ser preso diversas vezes quando retornava ao Brasil e era convocado para depoimentos na sede do DOPS (polícia política do regime militar). Quando questionado pelo delegado se era comunista, respondia que sim. Mas a Ditadura não ousava prendê-lo e mandava recado aos amigos e familiares para que ele “tomasse cuidado”.

Outra ousadia de Niemeyer foi continuar, por toda a vida, a defender o líder soviético Joseph Stálin. Quando da afiliação ao PCB, Stálin era chamado pelo povo soviético e por todos os comunistas de “o pai dos povos” pela sua atuação solidária e em defesa das nacionalidades soviéticas. Mas após sua morte, uma declaração do novo secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética – Nikita Khrushchev – apontando milhares de falsos crimes supostamente realizados por Stálin fez com que muitos dos partidos e militantes passassem a renegar o grande líder sucessor de Lênin no comando da URSS.

Poucos foram os que deram ouvidos somente a história e ignoraram as mentiras de Khrushchev (desmentidas em estudo histórico do português Mario Souza e que pode ser baixado no final da página Mentiras relativas à história da URSS), entre os céticos estava Niemeyer que tentou convencer Jorge Amado da armação anti-Stálin com a sua famosa frase: “Acontece que as mentiras que contam sobre o camarada Stálin são pura invenção capitalista”.

Niemeyer foi um grande arquiteto porque mantinha suas ideias construídas sobre o que estudou e o que achava mais importante para tornar a arquitetura algo que colaborasse para a justiça social. Foi assim também com suas ideias. E, sua confiança e a impossibilidade de dobrá-lo, era o que mais o tornava odioso perante os ricos que se rendiam a seus serviços e a mídia que sofria com sua astúcia nas entrevistas.

E personalidades que não se rendem ao capitalismo e ao dinheiro é o que mais irrita e perturba a grande burguesia brasileira e a mídia que a serve. Felizmente existiram e ainda existem os homens e mulheres imprescindíveis de Bertold Bretch:

“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.”

Outros imprescindíveis

Frida Kahlo – A mais importante pintora mexicana, entrou para o Partido Comunista Mexicano em 1928 e conheceu o pintor (também comunista) Diego Rivera. Frida teve um caso com Trotsky – o maior inimigo político de Stálin que depois foi morto com uma picareta pelo homem que o alojava no México e a quem ele traiu com sua mulher. Esse crime também foi contabilizado no saldo de Stálin pela imprensa burguesa. Frida que sabia do caráter de Trotsky não acreditou na imprensa e pintou diversos quadros homenageando Stálin.

Bertold Bretch – Dramaturgo e poeta alemão é também considerado um dos maiores autores de teatro. Marxista, fugiu da Alemanha com a ascensão do nazismo. Criou o chamado “Teatro Épico” e passou a usá-lo para fazer crítica social. Muitas de suas obras são encenadas até hoje, entre elas estão O casamento do pequeno burguês, A ópera dos três vinténs, A boa alma de Setsuan.

Pablo Neruda – O maior poeta chileno e Prêmio Nobel de literatura foi um grande militante comunista. Atuou no movimento estudantil, foi eleito senador pelo Partido Comunista Chileno e antes havia sido cônsul do Chile. Sofreu com a Guerra Civil Espanhola que o tirou o cargo consular e com a censura de imprensa no Chile. Mas nunca abandonou a militância e apoiou Salvador Allende para a presidência até a eleição do amigo. Em 1945 leu para 100 mil pessoas no Estádio do Pacaembu em homenagem a Luiz Carlos Prestes. Morreu envenenado a mando do Ditador Pinochet, mas suas poesias ficaram como arma de luta.

Victor Jara – Um dos maiores cantores chilenos, fundou e participou do movimento Nueva Cáncion Chilena junto a Violeta Parra, aos grupos Quilapayún e Inti-Illimani. Também foi importante diretor de teatro encenando por todo o mundo. Foi membro do Comitê Central das Juventudes Comunistas do Chile. Foi preso pelo Ditador Pinochet e morreu no Estádio Monumental quando o mesmo foi transformado em campo de concentração e onde foram mortas cerca de 10 mil pessoas. Teve ainda suas mãos esmagadas pelos militares antes de morrer devido seu trabalho de conscientização através da música. Entre suas principais músicas estão Plegaria a um labrador e El derecho de vivir em paz.

Jorge Amado – Um dos maiores escritores brasileiros e um dos mais lidos em todo o mundo, Jorge Amado foi ardoroso militante do PCB até a traição realizada no XX Congresso do PCUS onde foram lidos os supostos crimes de Stálin. Durante sua militância chegou a ser eleito deputado em São Paulo pelo PCB, mas perdeu o mandato quando o partido foi levado à ilegalidade. Sua obra possui grande cunho político, onde destacam-se Seara Vermelha, Mundo da Paz e a trilogia Subterrâneos da Liberdade. Jorge Amado ainda afirmou depois de muitos anos: Stálin foi meu último ídolo.

A lista é interminável: Pablo Picasso (pintor), José Saramago (escritor), Violeta Parra (cantora), Máximo Górki (escritor), Candido Portinari (pintor), Graciliano Ramos (escritor), Miguel Hernández (poeta), Maiakovski (poeta), Vianinha (dramaturgo), Dias Gomes (dramaturgo), etc…

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2 Comentários em “O caminho sem curvas de Niemeyer pela justiça”

  1. Sergio
    19 de dezembro de 2012 às 23:01 #

    O texto ” Mentiras relativas à história da URSS” nega o holodomor como sendo causado pela fome imposta pelo governo. E atribui as mortes as doenças por falta de alimento. Nem o governo da Ucrania se atreve a dizer essas idiotices. Ridículo! Patético! É como dizer que os judeus morreram no holocausto porque decidiram se matar coletivamente. Idiota!

  2. Lucas Marcelino
    11 de janeiro de 2013 às 11:04 #

    Não Sergio. O holocausto é um fato concreto, comprovado historicamente, do qual não temos nada a diminuir em importância na história da humanidade e do povo judeu.
    Já o Holodomor (sem negar a realidade da morte dessas pessoas) foi criado como propaganda contra o regime soviético para tentar igualar, ou até, beirando o absurdo, superar o holocausto em núemnro de morte e em grau de violência.
    O texto “Mentiras relativas à história da URSS”, é baseado em fatos e documentos históricos que tiveram sua revelação ansiosamente aguardados pelos jornalistas contrários ao socialismo, até verem que comprovavam o contrário do que esperavam.
    Recomendo a leitura do livro “Khrushchev lied!” (ou “Khrushchev mentiu!”) de um historiador americano sobre o discurso que incriminava Stálin e o regime socialista soviético deste e de outros crimes
    Jornalismo histórico deve se basear em verdades e documentos históricos, não em verdades jornalísticas.

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