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O Rappa: singularidade musical

Por Felipe Perazza

Quando contei a um amigo da empresa que iria no show dO Rappa, o cara olhou pro horizonte e disse com ar pomposo: “O Rappa… O show deles foi o melhor show que já fui na vida…” Na hora eu soube que ele não estava mentindo. Dá pra perceber quando alguém tem uma veneração sincera por uma boa banda ou boa música. E O Rappa é digno de tal constatação. Descobri isso na última sexta feira, no Credicard Hall.
Não foi o melhor show da minha vida, afinal já tive a honra de presenciar alguns espetáculos únicos de bandas que me são mais caras como Fernando Noronha, Paul McCartney e Jack Johnson. Mas pude constatar no show dO Rappa que, para quem tem na banda carioca sua música preferida, não há evento que se equipare.
Mesmo com uma hora de atraso, logo nos primeiros segundos em que a banda surgiu e tocava Reza Vela já não havia ninguém parado. Quem não queria pular acabou sendo levado por osmose a bons centímetros acima do chão numa energia coletiva que poucas vezes pude presenciar num espetáculo.
O próprio show dos Scorpions apenas uma semana antes era totalmente contrastado na minha memória. Enquanto os ouvintes da banda alemã permaneciam, em geral, tímidos, mas se soltavam gradualmente durante os números mais clássicos, no show dO Rappa poucos foram os momentos em que o público parou no lugar ou deixou de cantar junto com a banda. E já que estamos comparando, nem tudo são rosas na apresentação da banda brasileira. Se em eventos de rock internacional o público é mais preocupado com os vizinhos e com as drogas que consome, na apresentação do grupo de Marcelo Falcão não foram poucas as cotoveladas que recebi nos rins, pescoço e em outras partes igualmente doloridas. Também não foram raras as baforadas de maconha advindas de todos os lados, provenientes de pessoas que ainda não perceberam que são capazes de “viajar” apenas com a música.
Mas tirando esses poucos fatores, sobre os quais uma boa dose de paciência pode sobrepujar facilmente, o evento foi completamente memorável. E falando das partes boas (que são muitas) dá pra começar com a presença de palco de Falcão. O vocalista explode em carisma, enaltecendo a cidade de São Paulo, o público e seus colegas de banda como ninguém. Prova de que cariocas e paulistas podem se dar bem como bons e velhos amigos.
O público interagia e aplaudia a cada número, respondendo em alto volume canções clássicas da banda como O Que Sobrou do Céu, Pescador de Ilusões e Tribunal de Rua. Em momentos explosivos como Tumulto e Me Deixa a voz da platéia quase tornava inaudível o som da banda que por sua vez estava plugado na potência máxima, aquela de deixar todos com um apito gostoso no ouvido após o show.
Mas o ponto forte estava além do público e da banda. A cereja do bolo do Rappa foi, na verdade, o jogo de imagens nos telões. Elaborado por uma equipe altamente competente cada canção vinha com um pacote de lindas fotos, ilustrações e colagens que serviam não só pra embelezar o palco, mas também para complementar a apresentação da banda numa sincronia absurda com o som – sinestesia que poucas bandas experimentam com maestria, como o Pink Floyd, por exemplo.
No caso de Cristo e Oxalá, por exemplo, foram usadas inúmeros signos referentes à várias crenças que se alternavam com imagens religiosas enquanto a letra conduzia os ouvintes por uma viagem que unifica todas as filosofias espirituais em uma só. E como a temática da banda muitas vezes vai pro lado espiritual, um dos momentos mais épicos do evento foi a canção Hóstia. Nela, fotos de Santos em saturação estourada permeavam grafites que exibiam a palavra Hóstia junto com a letra profunda entoada por Falcão.
A participação especial de um grupo de garotas apresentadas como Raparigas deu um quê ainda mais bonito em canções como Homem Amarelo, Lado B Lado A e a versão de Hey Joe do Jimi Hendrix com os instrumentos de cordas tocados pela equipe.
Até o último minuto de um show de duas horas e meia ficou claro por quê O Rappa é uma das bandas nacionais mais respeitadas da atualidade. Não é só pela competência da banda como um todo. Não é só pelas letras de cunho social e religioso. Não é só pelo conceito visual artístico que domina qualquer material do grupo. Mas com certeza a mistura mística disso tudo, um reflexo do próprio estilo musical da banda, faz com que um espetáculo do O Rappa seja único.
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Categorias: Atena, Música

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