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Pedagogia da distração versus seriedade acadêmica

Via José Faro

Ainda me lembro do mal-estar que provocou na assistência um dirigente universitário que falava para professores sobre seus métodos de gestão acadêmica. “Dirigente” é um eufemismo elegante; na verdade, tratava-se de um desses empresários aventureiros que jogou seu capital de forma pesada na alavancagem de uma empresa que viria, com o tempo, transformar-se num dos maiores empreendimentos privados do ensino superior. Pois bem: a certa altura da sua palestra, o homem transformou-se em verdadeira fera ao descrever sua política de contratações de docentes: “se o professor é show, eu contrato… não me importa que não tenha título disso ou daquilo; se sabe entreter o aluno, eu contrato…”. E a afirmação categórica ficou pairando sobre o clima meio assustado da plateia, na qual havia muita gente imaginando que a atividade didático-pedagógica era ditada pela transmissão do conhecimento e não pelo seu poder de distrair estudantes.
A lembrança desse fato me ocorre agora a propósito da imagem que a Folha usa para ilustrar a qualidade fundamental que o repórter imaginou para destacar o curso de Publicidade e Propaganda da ESPM como aquele que desbancou a hegemonia da USP nas graduações de diversas áreas (aqui). Felizmente, no corpo da matéria, a simplificação grosseira da foto não encontra respaldo na justificativa usada pelo coordenador do curso para explicar sua excelência. Segundo João Matta (o coordenador), a escola superou a lógica do “ensina quem faz”, que confinou a ESPM durante muito tempo a um praticismo meio bobo com o qual ainda muito aluno perde seu tempo em outras faculdades. Diz Matta: “… há uns dez anos, a escola percebeu que o mercado de trabalho precisava de gente com formação mais sólida, mais crítica e com mais contexto”, afirmação da qual o repórter conclui que “então ganharam mais espaço a antropologia, a história, a sociologia e a filosofia. E os professores, essencialmente atuantes em empresas, passaram a buscar formação acadêmica. Hoje, 70% têm mestrado ou doutorado”.O ranking que a Folha publicou nesta semana dando conta da avaliação feita sobre as universidades brasileiras (aqui) certamente tem muitas falhas e de diversos tipos. A primeira me parecer ser a de estimular uma certa propensão ao elogio apressado e superficial que a reunião de dados, de quantidades, de tabelas etc provoca nos espíritos menos exigentes. O ministro da Educação, por exemplo, nem bem haviam se passado 24 horas da publicação, derramou-se em observações que não ficam bem para quem ocupa o cargo que ele ocupa (vide Painel do leitor, 4/9/12). A segunda são as eventuais lacunas de consistência. O professor Rogério Cerqueira Leite, da Unicamp, criticou severamente a filosofia que orienta o método do ranqueamento; e certamente outras restrições vão aparecer sobre o assunto (vide Opinião, 4/9/12). Mas, acima de considerações de natureza técnica ou operacional, há um aspecto que me parece essencial: o ranking traduz o fato de que as melhores universidades não são as que brincam de fazer mercado ou educar para o tal empreendedorismo, mas aquelas que valorizam nível de ensino e pesquisa, reflexão e experimentação.Fui procurar nas diversas tabelas da Folha onde poderia estar a escola do sujeito que só contrata “professor show“, com aquela arrogância que o capital lhe permite. Ela está lá na parte de baixo do ranking, bem longe das que se destacam, de uma ou de outra forma, pela qualidade dos cursos e pela qualificação do corpo docente, embora continue brilhando pela exuberância financeira que possui. Bobagem… Posso estar enganado, mas se o material produzido pela Folha traduz tendências, acho que essas instituições que revelam a selvageria com que se esgotam na quase absoluta realização do lucro com o ensino superior não têm muito futuro…
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Categorias: Atena, Educação e História

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