Anúncios

China: Máquina de medalhas

Por Thaís Teles

“Há muito tempo que ela não nos pertence”, disse o pai de Wu Minxia, atleta chinesa e que levou a medalha de ouro no salto sincronizado. Apesar de carregar traços da família e lembranças dos tempos em que convivia com os pais, a atleta, assim como demais esportistas chineses, deixam seus lares e brincadeiras ainda cedo para se dedicarem somente ao esporte. Longe de casa há muito tempo, Wu Minxia, só soube da morte dos avós maternos e da doença da mãe depois da conquista da tão sonhada medalha. O pai ainda complementa: “Aceitamos há muito tempo que ela não nos pertence. Sequer ouso pensar em coisas como desfrutar a felicidade familiar”

Uma situação curiosamente triste aconteceu com Lin Qingfeng, vencedor do levantamento de peso, e que só foi reconhecido pelo pai por causa do nome, uma vez que o contato entre o atleta com a família cessou há seis anos.

Segunda colocada no ranking das Olimpíadas, a China perdeu a liderança para os Estados Unidos e mantém um método rigoroso na produção de “máquinas de ganhar medalhas” desde 2002. O ambioso Projeto 119, cujo nome reflete a quantidade de medalhas de ouro a serem conquistadas (nos Jogos Olímpicos de Londres foram 38), é mantido pelo governo chinês, que dispensa quantidades grandiosas de dinheiro público para o patrocínio do treinamento pesado em crianças de até 5 anos. A rotina dos pequenos atletas tem raízes soviéticas e segue uma ideologia rígida, na qual, as crianças deixam de ser irmãos (as) e filhos (as) para se tornarem “armas do Estado”, na tentativa de tornar o ambicioso país uma potência econômica, política e esportiva, situação que garantiria ao país a hegemonia mundial.

Durante a 117ª edição dos Jogos Olímpicos, textos, comentários e imagens dos métodos insanos e extremamente rígidos passaram a ser veiculados e questionados pelo grande público. Até mesmo a versão inglês do jornal “Global Times”, do Partido Comunista” publicou uma série de fotos que retratam o abuso dos limites.

Esta realidade brutal, acaba transformando o sonho olímpico em um verdadeiro pesadelo e uma obrigação para com o país. De acordo com o comentarista esportivo, Guan Jun, em entrevista à revista “Caixin”, “o sistema tudo ou nada tira a atelgria dos atletas. O controle estatal tem provocado casos de abiso de poder e corrupção”. Ele afirma ainda que, paradoxalmente, a política chinesa não cria estímulos para esportes de massa e prática esportiva entre a sociedade.

Com receio de represálias, a censura chinesa proibiu a veiculação de reportagens negativas pela imprensa nacional e, em instrução recente, o Departamento de Propaganda determinou que “ao reportar sobre as Olimpíadas de Londres, não levantem o tema do ‘sistema nacional’ novamente. Com a exceção de comentários na imprensa especializada, não desafie o sistema nem faça especulações sobre ele”.

Os Jogos Olímpicos terminaram hoje, a China conquistou menos medalhas de ouro do que a edição anterior, em Pequim, e apenas uma dúvida se manifesta na mente de muitas pessoas: será que vale a pena tanto sacrífio? O que será que essas crianças diriam?

Anúncios

Tags:, , , , , ,

Categorias: Esportes, Hades

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: