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Mad Men

Via José Faro

Tentei assistir pela 2a vez em menos de um ano à série Mad Men. Acho que não preciso me estender sobre a essência dessa história que já faz algum tempo registra índices elevados de audiência na TV americana e, ao que parece, também na TV brasileira. Não tenho números que me digam com exatidão o alcance desse sucesso, mas em diversas oportunidades li matérias que falam sobre a trama que aglutina a vida dos personagens no dia-a-dia de uma agência de propaganda.
Nas duas ocasiões, o que me motivou foi a necessidade de aproximação com o universo da narrativa publicitária, um dos eixos da disciplina que, pelo 2o. ano consecutivo, ofereço no programa de pós-graduação da UMESP. No curso, a hipótese central das reflexões abrange também o campo do jornalismo e pode ser sintetizada na hibridação que caracteriza tanto as notícias quanto os anúncios: a dinâmica que as “histórias” mantém com a informação e com as marcas culturais do cotidiano da audiência. Quando me animei a assistir Mad Men, minha intenção era localizar na série alegorias, metáforas e enredos ficcionais que pudessem dar mais consistência ao que quero demonstrar aos alunos.
A primeira tentativa foi mal sucedida. Tal como agora, neste mês de julho, Mad Men me pareceu uma construção vazia de energia dramática, povoada de personagens que se movimentam de maneira imprecisa na trama toda. Penso que falta a todos eles um desafio maior que o das campanhas publicitárias ou que o de seus círculos particulares para que se instituam como heróis de um modo de vida que caracterizou todo o processo social dos Estados Unidos no pós-guerra: o da emergência da sociedade de consumo. Ao final de cada episódio, já quase me distanciando do objetivo inicial, a sensação era a de coisa já vista.
Assistir a Mad Men nesta 2a. tentativa foi mais proveitoso – embora eu mantenha essa avaliação feita acima. O que me pareceu essencial desta feita foi uma duplicidade de modos de vida que pude perceber no desenrolar dos acontecimentos dos habitantes da Serling Cooper Draper Pryce – duplicidade presente no conjunto de símbolos constitutivos da matéria-prima da sociedade industrial, todos eles com indícios bastante fortes do progresso tecnológico que rompeu com os padrões materiais de vida no final dos anos 50 e início dos anos 60, e – ao mesmo tempo – presente nos seus âmbitos privados de existência mas em contraposição às exigências de sociabilidade do consumo dada a forte persistência do conservadorismo familiar, de gênero e sexual que paradoxalmente marcava a mesma época.

Donald Draper, o herói da série, é a síntese desse mundo que se consubstancia exatamente onde essa contradição se torna mais aguda pois que a agência é o laboratório onde se processam simultaneamente as duas formas de vida, com seus encantos de vaidade, de deslumbramento com a beleza das formas, da irreverência que constituiu o mito da criação publicitária e a decorrente instabilidade das instituições nas quais o conservadorismo dos Estados Unidos depositou suas virtudes. No cotidiano dos personagens – todos eles premidos pelo estresse decorrente dessa contradição – nada é, ao final de cada episódio, como se apresentou no início, embora tudo continue da mesma forma. E é possível que o resultado material desse conflito – os discursos publicitários – tenham traduzido essa tensão, fato que confirmaria a hipótese que tem norteado meu curso.

Tenho ainda que me dispor a assistir Mad Men mais algumas vezes, eventualmente dissecando com calma redobrada os capítulos, a conformação dos personagens e os espaços que ocupam ao longo de toda a trama, mas me parece que a série provoca essa catarse junto ao público porque o remete à condição ambivalente que a sociedade industrial instaurou por todo canto e que tem nos Estados Unidos a sua feição mais bem (ou mal) acabada.

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Categorias: Atena, Cinema, Curiosidades

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