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O equívoco da notícia

Via José Faro

Não há engano nenhum: a ilustração da postagem é mesmo a foto do italiano Roberto Benigni, um dos atores do último Woody Allen – Para Roma, com amor. De todos os episódios do filme, o  estrelado por Benigni foi o que me chamou mais a atenção porque é nele que o diretor aponta, com toda a sutileza que o caracteriza, um dos traços mais sensíveis da cultura contemporânea: a banalidade que se institui como notícia. É essa a lógica que explica o aparentemente incompreensível processo que eleva o pequeno cidadão que Benigni representa à condição de estrela do jornalismo porque é a banalidade de seu cotidiano o que interessa aos jornalistas.

Como ele escova os dentes? O que come? O que veste? É essa pauta desprovida de qualquer relevância que forma o núcleo principal da sociedade midiática, ou os programas que estimulam nossovoyeurismo e curiosidade não fariam sucesso algum, ainda que de forma extremamente fugaz… Rapidamente, como se percebe no próprio filme, já é outro o atrativo que seduz não exatamente a opinião pública, mas todos os componentes que movimentam o jornalismo, em especial os repórteres.

Pois no dia seguinte me deparei com algumas cenas do Encontro com Fátima Bernardes, o novo programa que a Globo inventou. No filme de Woody Allen, a banalidade do cotidiano é o pretexto para a ironia sobre o contemporâneo; mas no programa da ex-apresentadora do Jornal Nacional a insistência com que as variedades curiosas do dia-a-dia, absolutamente – em sua grande maioria – desprovidas de relevância social, são alçadas à condição de fatos jornalísticos criam um tal constrangimento que nem mesmo os que participam do programa parecem estar à vontade com as bobagens que ouvem e veem.

Semestre passado ofereci pela 2a vez no PPGCom da UMESP a disciplinaNarrativas híbridas do cotidiano, voltada para a análise dessa categoria cada vez mais percebida como elemento que estrutura a vida social e o processo de cognição do real, em sua dupla dimensão: a informativa e a cultural. A comparação entre o espisódio protagonizado por Benigni no filme de Allen e esse equívoco que vem sendo cometido todos os dias pela Globo reforça uma das linhas de análise do curso, uma 3a natureza do corriqueiro: sua desimportância como fato noticioso. A prática do jornalismo é que precisa se dar conta disso… e a emissora com alguma urgência, ou o programa da pobre Fátima vai para o espaço…

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Categorias: Atena, Cinema, Metalinguagem

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um comentário em “O equívoco da notícia”

  1. João Carlos Agostini
    16 de julho de 2012 às 16:47 #

    Desde que os pós-modernos inventaram a tese que tudo é história – quando na verdade, tudo tem uma história, mas não necessariamente é história -, pois tudo é interpretação, não existe a história, apenas ficção textual, pudemos perceber o crescimento, basta ver o channel History, de que qualquer coisa pode ser alçada a condição de símbolo e ter valor. Vivemos na esfera do super-individualismo, que faz com que milhares, ou mesmo milhões de pessoas, tenham contas no facebook e/ou twitter para escrever sobre o nada do dia a dia delas, para que todos partilhem o mesmo nada, pois “tudo é história”, mesmo que insossa e sem valor.

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