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Grécia: Vivemos à luz de uma estrela morta

Via  José Faro

Séculos de decadência, falência do Estado, perda do sentido moral. São esses alguns dos sintomas da crise grega apontados, com indisfarçável tristeza, pelo dramaturgo Dimitris Dimitriádis em entrevista concedida a Fabienne Darge, do Le Monde.
No final dos trechos da matéria, sugiro algumas leituras que podem nos ajudar a entender toda a dimensão econômica e política que a tragédia da globalização financeira criou.
 Em 1978, escreveu o texto “Morro como país”. Fala-se nele no desaparecimento de uma nação que acaba sem nome nem história. O que sente que está a acontecer na Grécia?
Dimitris Dimitriadis: É obviamente uma sensação muito estranha. Escrevi o “Morro…” há trinta e cinco anos: o país acabava de sair da ditadura dos coronéis, era um período cheio de esperança, de promessas e de prosperidade. Foi uma situação pessoal de absoluta solidão que me levou a escrever esse texto, que assumiu a forma de uma parábola: falo de um país que morre porque não aceita o seu próprio fim, nem consegue aceitar o outro. Um país que se sente sitiado durante 1000 anos, que não aceita aquilo a que chama o inimigo, que não vê que o “inimigo” é a sua perspetiva de futuro. O que caracteriza a Grécia é uma espécie de estagnação, de imobilismo mental: fica-se agarrado aos hábitos, tanto psicológicos como sociais; vive-se com base numa tradição morta, que ninguém sonha em renovar.
É um problema gravíssimo: este país que é a Grécia, histórico por excelência, está preso no mecanismo da história. E assim chegámos a um beco sem saída: tudo de que se fala, essa grande herança grega de que nos valemos, petrificou-se sob a forma de ideias feitas, estereótipos. Isto não é novo: há muito tempo que, na Grécia, vivemos à luz de uma estrela morta. O que senti há 35 anos tornou-se hoje mais agudo: a “crise” não será resolvida sem uma verdadeira tomada de consciência histórica, que passa pelo reconhecimento de que algo morreu, para que possa ter lugar um novo nascimento. Como no verso de T. S. Eliot: “No meu fim está o meu começo.” Falta-nos ainda aceitar o fim.
A crise é, então, principalmente histórica, não política nem econômica?
Sim, embora eu não negue as dimensões económica e política. Deve ser repetido incessantemente que o sistema político em que vivemos, na Grécia, que data da ocupação otomana (e tem, portanto, vários séculos), é totalmente clientelista. Os grandes terratenentes do passado foram substituídos por partidos políticos, mas têm a mesma relação com as pessoas. O Estado pertence ao partido, que o utiliza e explora os recursos públicos para manter o seu sistema de clientela.
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Categorias: Europa, Hermes

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