Anúncios

O maior centro de espionagem do mundo‏

por Lucas Marcelino

De seita secreta para centro secreto

A cidade de Buffdale fica em um vale recluso no estado de Utah nos EUA. Há cerca de 160 anos foi o local escolhido por um grupo de fiéis que acreditaram ter recebido de Deus as palavras sagradas que davam continuação a linhagem dos profetas. Essa seita era o embrião da religião hoje chamada de Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos dias, ou simplesmente, os Mórmons. Se há quase dois séculos eles fugiram para poder desenvolver sua crença sem serem perseguidos, hoje a cidade tem uma nova função. Ali está sendo construído o maior centro de espionagem do mundo, Utah Data Center. Um verdadeiro templo da espionagem, onde serão capturados, armazenados e analisados uma enorme quantidade de palavras ou imagens que sejam consideradas suspeitas pela segurança americana.

 A pedido da “NSA” – Agência de Segurança Nacional – órgão de espionagem americano, estão sendo investidos dois bilhões de dólares na construção de uma fortaleza de tecnologia para espionar todas as informações circuladas pela internet. E-mails pessoais, comprovantes de compras ou mensagens ultra-secretas de governos, qualquer dado que seja interessante ao governo americano poderá ser rastreado e copiado.

Conhecimento total de informações

Em 2003, o governo do ex-presidente Bush criou o programa Total information awareness. Contudo, o projeto foi cancelado pelo congresso.  O cancelamento se deu pela polêmica devido à invasão de privacidade gerada pelo acesso irrestrito a informações pessoais na internet.

Agora que está sendo ressuscitado com a instalação do Utah Data Center, terá como função interceptar, armazenar, decifrar e analisar informações enviadas por satélite, por cabos subterrâneos internacionais secretos ou mesmo redes domésticas usadas por milhões de pessoas no mundo. Nada escapará de uma possível vigilância americana, nem mesmo mensagens de celular ou tickets de viagens usados pelos “suspeitos”.

Oficiais de inteligência que estiveram envolvidos com o projeto revelaram que a função principal é mais do que vigiar as informações transmitidas. Além de uma capacidade infinita de processamento e armazenagem de dados nos enormes computadores, haverá também um sistema avançado de decodificação. A intenção é poder quebrar qualquer código criptografado por mais avançado que seja, podendo assim compreender desde mensagens secretas de usuários comuns até informações sigilosas de segurança de qualquer país. Logo, segundo esses oficiais, “todo mundo é um alvo, qualquer pessoa que se comunique será um alvo”.

Criado após o ataque de Pearl Habor, na Segunda Guerra, para impedir outro ataque surpresa, a NSA sempre esteve aquém de outros serviços de inteligência internacionais e não evitou outros ataques terroristas e chegou a ser questionada a sua eficácia, mas após o 11 de setembro a NSA teve um aumento bilionário no seu orçamento para poder “garantir a segurança americana” espionando países e pessoas suspeitos.

Centro secreto

Em 6 de janeiro de 2011, numa manhã com um intenso nevoeiro, todas as pessoas receberam um alerta de que deveriam ficar em casa, aviões e jatos tiveram seus voos atrasados ou cancelados no aeroporto da cidade. No local uma comitiva dirigida pelo vice-diretor da NSA Chris Inglis, junto com o senador de Utah e outros membros do governo e das forças armadas americanas estavam presentes. Nesse dia, foi inaugurada a construção do centro de espionagem. Durante a coletiva, as perguntas dos repórteres eram respondidas com frases vazias ou com “Não tenho informações”. Em poucos tempo, o púlpito usado no lançamento foi trocado por cerca de 10000 trabalhadores, que foram orientados a não falar sobre a obra.

Entre as informações obtidas, é possível saber que está sendo construído um sistema anti-terrorismo de 10 milhões de dólares capaz de suportar o choque de um veículo de 15 toneladas a 50 km/h, além de um circuito fechado de câmeras, identificação biométrica, mecanismo de inspeção de veículos entre outras formas de segurança dignas de grandes filmes de Hollywood.

Dentro da fortaleza serão quatro espaços de 2500 metros quadrados com processadores e cabos subterrâneos. Além disso, haverão uma área técnica para operações e um sistema auto-suficiente com tanques de combustível capazes de alimentar geradores de energia por três dias e um sistema de abastecimento de água, esgoto e ar para manter os servidores sempre resfriados. Uma estação de energia elétrica também está sendo construída para fornecer os 65 megawatts necessários para funcionamento com um custo de 40 milhões de dólares por ano.

 Com o avanço da tecnologia, um pen-drive á capaz de armazenar vários gigabytes de informações. É quase impossível imaginar a quantidade que poderá ser armazenada no centro de espionagem, mas supõe-se que seja da ordem de 1024 bytes ou cerca de 500 quintilhões de páginas de texto. Quantidade tão grande que é a última escala já nomeada pelo homem. Essa quantidade é necessária,pois a cada ano aumenta a quantidade de dados analisados pelo serviço de espionagem americano que está instalado na maior parte dos países do mundo de forma virtual ou através de homens do serviço secreto.

Quem são os inimigos?

A intenção da NSA é monitorar dados da chamada “Web profunda”, ou seja, dados com senhas e criptografados transferidos entre serviços de segurança de vários países e que não estão à acesso da população comum. Mas além disso, a espionagem americana já vem monitorando pessoas comuns. Foram instaladas salas de escuta em várias operadoras de telecomunicação americanas. Essas empresas receberam imunidade judicial perante as acusações sofridas por participar do programa ilegal americano de escutas telefônicas ou interceptação de e-mails. O que não se sabe ainda é o tamanho deste programa e quantas pessoas ele atingiu.

William Binney, um dos mais importantes funcionários da NSA com mais de quatro décadas de experiência em criptografia de dados e responsável por grande parte dos métodos e da infra-estrutura ainda utilizados pela NSA e que deixou a agência após ela atuar de forma inconstitucional em 2001, revelou que a agência poderia ter instalado sistema de captação em pontos onde cabos internacionais de fibra ótica se encontram, respeitando a lei americana de segurança. Mas ela instalou pontos de interceptação em edifícios onde as informações virtuais são concentradas em vários pontos do país, tendo acesso a dados domésticos também. O projeto foi chamado de “Vento Estelar”.

Ainda segundo William Binney, que disse não poder continuar seu trabalho ao saber que estava violando a constituição, o volume de ligações telefônicas interceptadas chegou a 320 milhões por dia ou 80% do volume de interceptações realizadas no mundo. Este número só aumenta.

Uma empresa chamada Naurus, criou um software que hoje é controlado pela NSA. A partir dele, nomes, números e chamadas de telefone, listas de e-mail e endereços são monitorados. Qualquer mensagem com uma frase ou palavra-chave suspeita é interceptada e armazenada no banco de dados da agência e o usuário uma vez considerado suspeito fica para sempre no registro e qualquer comunicação virtual ou telefônica dessa pessoa é gravada e transferida para o serviço secreto americano. Tudo isso acontece com a participação da empresa AT&T que disponibilizou seu vasto registro de dados e transações financeiras para o governo.

Binney diz ainda que apresentou um projeto de avaliar o nível de proximidade entre os contatos e os suspeitos. Quanto mais longe, menor seu potencial e sua importância para as gravações, podendo alguns contatos serem considerados apenas conhecidos ou familiares, mas isso foi rejeitado e hoje a suspeita é de que seja tudo gravado pela agência. A partir daí, com essas informações, é possível criar um relatório sobre a vida de qualquer pessoa considerada suspeita. Adrienne Kane J., uma funcionária que trabalhou como interceptador de voz antes do 11 de setembro, disse que após o atentado todas as regras foram abandonadas e qualquer desculpa era dada para monitorar as atividades de qualquer cidadão, inclusive jornalistas em outros países.

Mas essa prática é antiga. Por várias vezes o governo já monitorou seus cidadãos com fins políticos. Seja quando Nixon espionou seus inimigos políticos no famoso caso de Watergate ou mesmo a espionagem dos manifestantes que se opuseram à guerra do Vietnã. Tudo isso foi feito contra a indicação de funcionários da NSA que sugeriram diversos sistemas de controle que permitiam deixar os cidadãos de fora. Ao invés disso, o governo preferiu manter o controle total para não precisar recorrer a tribunais para pedir uma autorização de escuta.

Binney foi mais um dos que acreditou na fraude chamada Obama. Por um tempo achou que o novo presidente fosse propor uma reforma no programa e chegou a enviar projetos para o governo, mas este não lhe deu ouvidos. Hoje ele afirma: “Estamos muito próximos de um estado totalitário”.

Como escapar?

 Existe apenas uma forma de fugir da espionagem virtual: um sistema de criptografia forte que pode ser criado por qualquer pessoa. Um desses é o chamado “Advanced Encryption Standard” ou “Padrão de criptografia avançado”. Segundo especialistas, um computador que tentasse decodificar um desses sistemas precisaria de tantas tentativas que duraria mais tempo do que a da criação do universo até hoje. Esse sistema é inclusive utilizado pela segurança americana.

A criação do Utah Data Center é necessária porque são necessários duas coisas para decodificar códigos: computadores super-rápidos e grande quantidade de mensagens para serem comparadas. Por isso, secretamente, o governo americano trabalhava na criação do computador mais rápido do mundo. Em 2004,  foi lançado um programa que visava ampliar em mil vezes a velocidade de processamento dos computadores mais rápidos. Somente em 2009 eles conseguiram um resultado satisfatório e tão importante que apenas o presidente, o vice-presidente e poucos diretores de inteligência americanos foram comunicados.

Com a possibilidade de decodificar mensagens antes impossíveis, com os avanços do novo centro de espionagem, eles pretendem conseguir informações que possam ajudar a decodificar as mensagens atuais. Hoje os EUA estão atrás do Japão, com o chamado “Computador K” e da China na velocidade de decodificação de dados. Isso motivou um grupo de senadores a pressionar o governo a autorizar um novo financiamento para a NSA que pretende construir mais dois edifícios para instalação de softwares que chegarão ao total de 26000 metros quadrados.

O escritor argentino Jorge Luis Borges imaginou em seu livro “A biblioteca de Babel” uma sociedade onde todo o conhecimento do mundo fosse armazenado, mas apenas uma palavra fosse compreendida. Podemos estar chegando perto, porém com uma intenção diferente e com apenas um dono para compreender tudo. E uma coincidência: a cidade utilizada para a produção do supercomputador é a mesma onde foi desenvolvido o projeto Manhattan, onde foi produzida a bomba atômica. Uma cidade conhecida como “cidade-secreta” onde na saída está escrito: “O que você vê aqui, o que você ouve aqui, o que você faz aqui, quando você sair daqui, deixe aqui”.

Não basta querer toda riqueza do mundo, o imperialismo americano quer agora todos os pensamentos e informações do mundo. É uma nova forma de impor seu poder sobre os povos com a velha desculpa da proteção ao seu país. Contra quem? Há o risco de só eles saberem…

Fonte: Wired

Anúncios

Tags:, , , , , , , , , , , , ,

Categorias: Caixa de Pandora, Ciência e Tecnologia, EUA, Internet

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: