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Por um triz…

Via José Faro

Foi em meados dos anos 70 que a FAU da USP exibiu, pela 1a vez em São Paulo, a série Civilização, produzida pela BBC e dirigida pelo historiador britânico Kenneth Clark. O trabalho constituia-se num conjunto de 13 documentários sobre a História da Arte que, algum tempo depois, foi exibido pela TV Cultura e editado pela Martins Fontes. As sessões que se realizavam semanalmente na FAU reuniam uma variedade muito grande de interessados em questões culturais, em especial nós, estudantes comunistas do PCB, querendo compreender a dinâmica das ideias numa sociedade de classes, e a interpretação da arte feita por Clark era, nesse sentido, um prato cheio.
Logo no primeiro filme, que dá título a este post, o historiador apresentava sua tese: o fato que salvou a cultura ocidental da barbárie dos povos germânicos, ao final do Império Romano, foi o cristianismo católico, cujas manifestações de espiritualidade institucionalizada na Igreja – e, depois, herdadas pelo protestantismo – favoreceram o desenvolvimento da arte tal como a conhecemos depois da Idade Média. Em apoio às suas afirmações, Clark exibia a delicadeza e a afetação das formas do Renascimento e do Barroco, na pintura e na escultura; sua suavidade e leveza, além do forte apelo à introspecção da música de Bach. Por um triz, não fossem essas forças culturais e toda a arte teria sucumbido ao embrutecimento estético dos povos que ocuparam a Europa ocidental.
Apolo e Dafne, de BerniniEssa interpretação culturalista da História, evidentemente precisa ser vista com cautela porque são muito complexas as forças que atuam nas várias formações sociais e, em especial, na sua produção estética, mas pessoalmente – depois de ter assistido à série em outras oportunidades e de ter participado das discussões que ela provocava – nunca mais deixei de levar em conta as razões de Clark em todos os cursos de História ministrei. Penso que há uma forte razoabilidade na relação que pode ser estabelecida entre o refinamento das formas de Bernini e de outros artistas, um certo exagero que buscava “completar o que a natureza deixara incompleto” (Wolgang Iser), e o apelo à harmonia entre um estado de existência anímico e o mundo, neste caso pelo caminho de uma escultura.
O comentário vem a propósito de uma sensação ruim que me assalta todas as vezes que, por algum motivo, esbarro (ou tropeço) em qualquer culto evangélico, desses que povoam, em quase todos os horários, a programação da Tv e de outras mídias. Atento para o comércio de audiências que se estabeleceu com base na ingenuidade popular, percebo que o despojamento com o qual seus chefes constroem sua pregação – a negação das imagens e a busca desesperada por alguma construção simbólica que lhes amplie a popularidade -, parece se estruturar em torno de algum tipo de embrutecimento – intolerância, fanatismo, irracionalidade e feiúra.Significa dizer que a negação da arte como instrumento de leitura e de tradução do pensamento – teológico ou não – pode representar uma ruptura com a tradição humanista que o o cristianismo ajudou a construir e a emergência de um conjunto de crenças meramente salvacionistas e messiânicas em torno das quais não é preciso muito mais que sentimentos primordiais e primitivos.Se isso é verdade, como estou convencido de que seja, a sociedade contemporânea pode estar na fronteira de um novo limite entre uma e outra cultura, dilema que, por um triz, foi superado pela religião como força civilizatória; ao contrário do que ocorre agora com a explosão das seitas evangélicas. A rigor, trata-se de um momento de viragem na história sobre o qual, no entanto, discute-se muito pouco, apesar do arcabouço político e quase para-estatal que vai sendo construído em toda a parte – no Brasil, em especial, com peso decisivo nas decisões de interesse público.

Obs: Outras imagens sobre a história de Apolo e Dafne podem ser encontradas no blog Arqueología en mí jardín.  A referência a esse exemplo justifica-se: é com base na escultura de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) que Kenneth Clark teoriza sobre as características da arte barroca enquanto tradutora da nova sensibilidade surgida com o Renascimento. A íntegra da lenda encontra-se aqui.

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Categorias: Atena, Educação e História

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