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Roger Waters derruba todos os muros no Morumbi!

Por Felipe Perazza

Falar de Roger Waters ou do Pink Floyd em geral sempre exige uma certa dose de contextualização. E isso serve para qualquer trabalho da banda, desde clipes, até encartes de discos e, com certeza dos shows.
The Wall é a nova turnê do ex-baixista da lendária banda de rock progressivo. Como o nome sugere, Waters dedica-se desta vez à apresentar ao público uma versão ao vivo e a cores de um dos trabalhos mais importantes do grupo. The Wall foi lançado em 1979, época marcada pelos últimos anos da banda em sua fase clássica, quando as desavenças já se iniciavam e Roger Waters usava a música do conjunto cada vez mais como um projeto pessoal, e não como um grupo, de fato. Na cabeça do músico, a banda era apenas uma forma de dar vazão ao que ele queria exprimir, comportamento que foi fatal para o futuro da banda com ele na posição de baixista.
Exprimir o que se passava na cabeça de Roger Waters não era nada fácil, daí mais uma vez o mérito de David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright em captar o sentimento pessimista e destrutivo presente no cérebro do músico. Sua mente perturbada, cheia de traumas, medos e críticas gerou em The Wall um disco pesado, dolorido e surreal, usando da figura do muro para demonstrar seu isolamento do mundo, despejando ácido no sistema capitalista e de ensino, acusados por Waters de formar marionetes cheias de repressão e falta de esperança e não pessoas de verdade que amam, que sentem. Além destes, o principal alvo das canções é a guerra, mais um trauma de Waters que perdeu seu pai durante a Segunda Guerra Mundial.
Para o filme The Wall, lançado em 1982, a mente genial e sombria de Waters contou com poderosos aliados, sobretudo  Gerald Scarfe que ficou responsável pelas animações do longa. Ilustrador renomado, Scafe teve em The Wall a difícil tarefa de mostrar visualmente o que estava sendo cantado e tocado pelo grupo, além de dar às cenas seu toque pessoal de cartunista crítico.
E tudo isso – tudo mesmo – está presente na mega-produção que é o show de Roger Waters.
Munido com um aparato técnico de primeira capaz de criar um muro gigantesco de dezenas de metros de altura e algumas centenas de comprimento no palco, o paredão ainda serve como telão para trechos de filmes e animações, e cenas antológicas que misturam o Roger Waters real que estamos vendo ao vivo, com cenários e cenas surreais. Diante disso Waters entrega simplesmente o show mais impressionante da história do rock.
E pensando bem, um espetáculo sobre um disco conceitual do Pink Floyd não poderia jamais ser realizado de outra forma. Parece que Waters esperou mais de 30 anos para justamente ter disponível toda tecnologia que seria necessária para construir um muro tão grande quanto sua mente permitiu anos antes. Os módulos do muro serviram como janelas para o material surreal do disco: cenas de guerras, sangue, morte, rostos tristes e o sentimento de medo que se confinavam cada vez mais na parede que se erguia de verdade. Criticando o capitalismo selvagem de peito aberto, foram projetadas referências a Coca-Cola, Shell e Mercedez, além de frases provocativas que faziam o público gritar cada vez mais.
No hino Another Brick in the Wall, crítica às escolas repressoras, um enorme personagem professor presente no filme dominou o palco vermelho, para depois ser expulso pelas crianças do Instituto Baccareli que faziam o coro – ato semelhante ao longa, quando os alunos se revoltam e se livram dos professores e da própria escola.
Simpático, Waters falou em português e apresentou sua versão acústica de Mother, bela canção sobre a relação com uma mãe opressora. Young Lust, o tema das garotas de programa também foi apresentado com imagens sensuais de belas mulheres e do ambiente pesado em que vivem, levando os presentes para esse universo tão distante e ao mesmo tempo tão próximo de todos.
Após um intervalo necessário graças a tamanha produção o lado B do disco teve sua apresentação, igualmente bela e marcante. Com mais imagens mostrando o terror que são as guerras, Bring the Boys Back Home causou emoção e arrepios visíveis, para então dar lugar ao momento de êxtase em Confortably Numb, onde o murou se quebrou momentaneamente junto com o torpor porporcionado pela bela levada da música.
O clímax chega com o hard rock Run Like Hell, com Waters mais uma vez encarnando o líder ditador que criará o exército dos martelos, prontos para espalhar o terror e a destruição por onde passam. Explosões, gritos e lágrimas dominam cada milimetro do imenso muro-telão que finalmente explode e desmorona de verdade com a canção final Outside the Wall. Assim como no disco e no filme, a obra fecha trazendo esperança: a derrubada dos muros e a possibilidade de encontrarmos a paz e a felicidade na liberdade.
Descrever tamanha obra-prima da música e da arte surreal vista ao vivo é pouco. Assim como o surrealismo e o rock progressivo que pretendiam fazer as pessoas mais sentirem do que somente verem ou ouvirem, Roger Waters entrega um espetáculo único, poderoso e que, como uma boa obra de arte, ecoará na mente de todos eternamente.
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Categorias: Atena, Música

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