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Autonomia até o fim

Por Thaís Teles

Viver com dor ou morrer feliz? Por mais que a certeza da vida seja a morte, o assunto ainda é tabu para grande maioria das pessoas, assim como no passado o sexo era um tema “probido”. Superar um bloqueio social a respeito de determinados assuntos, só é possível a partir do esclerecimento prático a respeito da questão.

É claro que ninguém quer perder uma pessoa querida e, muitas vezes, a tentativa de prologar a existência de alguém que sofre de doenças terminais nada mais é do que contribuir para que continue apenas sobrevivendo a métodos dolorosos. Fundamentado na realidade de tubos, dores e remédios com efeitos colaterais que o método paliativo ganhou força com os procedimentos da britânica Cicely Saunders, em 1977, quando começou a trabalhar com pacientes sem possibilidades de cura. Ao invés de longos tratamentos sacrificantes, a médica tinha como ponto de partida o respeito pela vida e qualidade dos últimos dias dos indivíduos que chegavam aos seus cuidados. Quando profissionais da saúde declaravam que “não há mais nada o que fazer”, ela refutava: “ainda há muito a fazer”, uma vez que o fio da vida continuava se desenrolando.

A metodologia foi difundida em outros países, mas a prática ainda é pouco explorada. Um dos motivos pelo prevalecimento deste quadro está na convicção médica de que tudo é possível, até mesmo o sofrimento sem limites. A busca pela cura é algo a ser perseguido até certo ponto, porém, para um profissional da área da saúde é inaceitável perder um paciente,  realidade a ser discutida uma vez ainda não foi elaborada a forma da vida eterna e lutar por uma situação irreversível é o mesmo que iludir.

Forças internacionais manifestam em razão da inserção dos métodos paliativos na Declaração Universal dos Direitos Humano, que aos poucos passam a se intensificar, assim como a disponibilidade de tais cuidados passaram a ser disponibilizados nos principais hospitais brasileiros, ainda de maneira tímida. Porém, é através destes pequenos vestígios e opções de escolha que o trabalho passa a se difundir e muitas pessoas optam por morrer com dignidade.

A cada sessão de injeções acompanhada de suspiros doloridos, remédios e mais remédios correm pelas veias enquanto quantidades milionárias se acumulam nos cofres de indústrias farmacêuticas. Elas não são as vilãs, mas contribuem para que seja feita a remenda rotineira de reverter o irreversível. A fim de afastar o temor da morte, há pessoas que prefeririam falecer dormindo, mas por que não sorrindo, cultivando ao longo de pequenos momentos uma paz ilimitada, que só é possível ser alcançada quando rodeados de quem amamos e totalmente lúcidos para absorver a vida com absoluta intensidade? Não há remédio pra isso a não ser se deixar viver.

Um marco na humanização e grande aliado da medicina paliativa foi, em 2010, o estabelecimento do Testamento Vital pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Trata-se de um documento que o paciente, em total lucidez, expressa quais procedimentos  quer ser submetido diante de uma doença incurável, ou seja, sua autonomia perante sua condição humana fica registrada e é respeitada. Em países da Europa e nos Estados Unidos, o  Documento de Vontades Antecipadas está em vigor na legislação, porém, a diversificação de crenças e opiniões que dividem a população dificultam a inserção do documento na Constituição Brasileira.

De qualquer maneira, os primeiros passos foram dados e quando o debate existe é sinal que uma parcela ansiosa por melhorias humanitárias está empenhada não em convencer, mas sim esclarecer a população sobre a dignidade em todos os sentidos, principalmente no adeus à vida.

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Categorias: Artemis, Saúde

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