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O importante era garantir a intocável propriedade privada

O Pinheirinho era um acampamento na periferia da cidade de São José dos Campos, interior de São Paulo, onde viviam cerca de nove mil sem-teto, desde 2004, em uma área com 1,3 milhão de metros quadrados, três vezes mais que a ocupada pelo Vaticano. O terreno pertencia ao especulador Naji Nahas – que nunca pagou IPTU à prefeitura. Com os cuidados e esforços dos moradores, transformou-se em bairro, com ruas, igrejas, lojas e escolas. Por lá, uma vida social intensa, relações humanas consolidadas, uma rotina estabelecida, dignidade resgatada com as próprias mãos – e tudo isso foi brutalmente destroçado pela ação ilegal (de acordo com a Ordem dos Advogados do Brasil) e truculenta da Polícia Militar, a mando da Justiça do estado de São Paulo, numa manhã de domingo, 22 de janeiro, de surpresa, quando os moradores ainda acordavam. Dois mil policiais seguiram à risca o que tem sido a marca da PM do governador Geraldo Alckmin, quando estão em pauta as questões e os movimentos sociais: pés na porta, fardas sem identificações, bombas de gás lacrimogênio, viaturas, helicópteros, ameaças com armas. Tiros. Para que não restem dúvidas: dois mil policiais foram envolvidos na operação de guerra. Os moradores do Pinheirinho foram todos expulsos do bairro. A maioria não teve sequer tempo para pegar roupas ou documentos. Estão agora confinados em escolas e igrejas – “abrigos” que merecem ser de fato ser chamados de guetos, quem sabe campos de concentração, impostos pela prefeitura de São José dos Campos. Há doentes sem qualquer assistência ou atendimento. Crianças que brincam perto de dejetos de animais e de restos de comida. Os pouquíssimos banheiros disponíveis não têm privada nem água encanada. Os sem-teto receberam pulseiras coloridas de identificação – os nazistas marcavam os judeus com números nos braços e estrelas de Davi no uniforme. Passam fome e frio – alimentos e roupas chegam por meio de doações solidárias. São vigiados dia e noite pela PM, com todos os passos controlados, sem poder circular ou sair dos “locais estabelecidos”. Deveras generosa, a prefeitura está ainda oferecendo passagens rodoviárias (até para o Piauí), com forte desejo de que partam rapidamente. A limpeza social foi feita. Muitos respiram aliviados. Dormem mais tranquilos. O Pinheirinho é agora um bairro-fantasma. As quase mil casas serão em breve demolidas. Com elas, cairão também os sonhos e histórias de vida de quase nove mil pessoas. A terra arrasada ficará por lá. Sem as casas, sem os moradores, mas finalmente de volta para seu “dono”. O importante foi garantir a posse da propriedade, ainda que ela não vá cumprir sua função social, como determina a própria Constituição do Brasil. Mas aí são outros quinhentos, não? O fundamental era fazer valer a lei (dos mais fortes, dos mais ricos, dos privilegiados, dos que têm amigos influentes…). No domingo, em almoço em um restaurante de São Paulo, o cineasta Tiago Marconi ouviu uma senhora dizer que “não quero saber se tinha grávida ou criança, quero saber quem tinha a escritura”. É assim que pensa parcela significativa da nossa sociedade. Por isso a PM pôde agir da maneira como agiu.
Entenderam?
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Categorias: Comportamento, Hades, Sudeste, Território Nacional

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