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Afeganistão: onde a opressão à mulher é disfarçada de tradição

por Adriano Lira

Desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, um país sem saída para o mar na Ásia Central passou a aparecer no noticiário internacional dos jornais.  O pobre Afeganistão, onde supostamente estava escondido Osama bin Laden, um dos países com menos recursos e mais corrupção no mundo, viu a queda do regime islâmico radical dos talibãs e a ascensão de uma frágil democracia. Mas quase nada mudou: timidamente, os sanguinários talibãs estão de volta e as mulheres, alvo favorito do preconceito dos fundamentalistas, continuam sendo tratadas como lixo.

Muitos tratam com muita cautela assuntos que envolvem diferenças culturais. Obviamente, é importantíssimo analisar uma determinada situação com respeito, já que uma pessoa que não conhece tal realidade não tem conhecimento de causa para julgar. Confesso que toda essa cautela vai por água abaixo quando a tradição – que envolve costumes como o uso do véu – é superado pela violência contra mulheres. E minha indignação aumenta ainda mais quando vejo cenas como essa:

Essa foto é de Rahime, uma moça de 25 anos que, “cansada de viver”, decidiu atear fogo ao próprio corpo. Ela se casou aos 10 anos de idade, com um homem muito mais velho que ela. Não vou entrar na discussão da legitimidade de um casamento como esse – na minha opinião, esse não é o problema principal – o que deve se ressaltar é o alto grau de mulheres que já foram  agredidas no Afeganistão: Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), em 2009 nada menos que 87% delas sofreram violência física, sexual ou psicológica, sendo que 82% das agressões foram causados por membros da família. O casamento arranjado é uma tradição muçulmana, mas a violência, por mais arraigada que esteja na cultura de algum povo, deve ser eliminada.

A visão de uma mulher usando a burca: impossível saber o que está ao lado

Na época do talibã, grupo revolucionário que controlou o Afeganistão de 1996 a 2001, as coisas eram piores: mulheres acusadas de cometer adultério eram apedrejadas até a morte em estádios – às vezes, injustamente.  Elas não podiam sair de casa sem usar a burca (roupa que cobre todo o corpo, deixando apenas as mãos à mostra) e sem a companhia de algum parente homem – caso o fizessem, chibatadas eram aplicadas sem dó. Nessa época, as meninas eram proibidas de ir à escola e formas de entretenimento como a TV e aparelhos de som foram banidos. Como disse, as coisas eram piores naquele tempo, mas não melhoraram muito.

Para se ter uma ideia, o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, aprovou uma lei que obrigava as mulheres xiitas (a corrente do islamismo que é maioria no país) a fazerem sexo com seus maridos todas as vezes que eles quisessem.  57% das meninas se casam antes de completar 16 anos, a idade mínima permitida por lei para o matrimônio, e apenas 11% delas estão matriculadas regularmente em escolas do Ensino Fundamental; no Ensino Médio, esse percentual cai para míseros 4%. Os dados também são do levantamento de 2009 do Unifem.

Com a volta dos talibãs, que começam a assustar novamente as famílias afegãs e fazer as suas cagadas radicais, e a conivência da fraca democracia do país, o panorama para as mulheres do Afeganistão não é nada animador. Nascer em um país com um dos piores IDHs do mundo, onde 70% da população é desnutrida e a expectativa de vida é de meros  43 anos já é difícil. Nascer mulher em um lugar desse é ainda pior.

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Categorias: Caixa de Pandora, Internacional, Oriente Médio

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