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Peleguismo e revolta

por Lucas Marcelino

Em todo o congresso, as agressões realizadas pela UJS durante o processo de eleição dos delegados foram mantidas. Além do insulto da presença do prefeito Kassab na abertura, houve uma série de atitudes que indignaram a direção e os militantes da UJR.

O anúncio da presença do Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi encarada como afronta aos estudantes. Kassab, junto ao governo do PSDB, é um dos maiores perseguidores dos professores, estudantes e funcionários da educação. Deixando creches e escolas ao abandono e precarizando o sistema de ensino na tentativa de privatizar a rede de escolas públicas, como já foi feito com a telefonia e o sistema de energia. Essa chacota armada pela UJS é explicável. Kassab cedeu uma verba em torno de R$2 milhões para a UJS organizar o congresso na cidade de São Paulo. Uma parte da verba foi usada para pagar o aluguel do Expo Center Norte e do Colégio Salesiano. Com certeza este valor não foi nem um pouco próximo dos dois milhões. A alimentação e o alojamento foram pagos por cada delegado que teve de bancar uma taxa em torno de R$50 a R$70 para participar do congresso. Logo percebe-se que uma grande parte da verba foi para o caixa da UJS, que já recebe ajuda do governo através do PCdoB. Além de financiar também outras forças como as juventudes do PT, PDT, PSB, PSOL, CUT, etc…

Não fosse somente isso, o que mais gerou indignação na oposição – formada apenas pela UJR – foi a repetida falta de democracia dentro da UBES e da organização do CONUBES. Sabedores da dificuldade enfrentada pela UJR para organizar a campanha e financiar a viagem dos delegados, feita através de doações de sindicatos e contribuição dos militantes, a UJS impõe uma série de barreiras para provocar a quebra da delegação opositora.

Ainda durante as campanhas nas escolas, eleições onde a UJR sai vitoriosa são impugnadas, delegados não são credenciados, diretores ligados a UJS evitam validar eleições e atas onde a UJR tem maioria entre os alunos. Mesmo assim, em várias escolas a UJR sai vencedora. Em algumas delas inclusive, militantes da UJS foram expulsos pelos próprios alunos durante as passagens em sala.

Já no congresso, os alojamentos onde ficam os estudantes durante esses quatro dias são muito desiguais. O alojamento da UJS e seus aliados ficava no pavilhão amarelo do Expo Center Norte, exatamente ao lado do pavilhão vermelho onde ocorreu a primeira etapa do congresso. Já o alojamento da UJR foi montado em um clube-escola na região de Pirituba, uma das mais pobres e de difícil acesso na cidade de São Paulo.

Dentro do alojamento a diferença é ainda mais gritante. Enquanto os delegados e militantes da UJR passam por uma intensificação da formação política, da motivação para o congresso onde ocorrem debates, palestras entre outras atividades; no alojamento da UJS o que é incentivado é a alienação. Os delegados, que já foram convocados apenas para garantir a vitória na eleição, passam por um processo de despolitização. A UJS organiza grandes festas regadas a quantidades enormes de bebidas, drogas e estímulo a prática sexual entre os delegados. Em todos os congressos é possível ver nos alojamentos da UJS os delegados ingeridos bebidas e drogas e na entrada e saída dos congressos o espaço reservado para a UJS é tomado pelo cheiro de maconha e pelas garrafas de bebidas alcoólicas, além dos delegados que passam o tempo todo dormindo, dançando ou fazendo aviões de papel.

Foto: União da Juventude Rebelião

Em um dos ônibus foi encontrado pela polícia, uma quantidade significante de drogas com um dos alunos que se dirigiam para o CONUBES:

O cúmulo da falta de democracia na organização aconteceu no sábado de manhã, quando o café da manhã – que estava incluso na taxa de credenciamento – não foi entregue no alojamento da UJR e os ônibus que trariam os delegados ficaram retidos e só chegaram com os delegados por volta dar 19h. Enquanto isso, os militantes da UJR que estavam no ginásio recolhiam dinheiro para viabilizar a alimentação. No domingo a quantidade de kits para o café da manhã liberados para a UJR foi de apenas seis caixas. Em poucos minutos já se ouviam militantes reclamando que não haviam comido.

Ao contrário do que a UJS planejava, as dificuldades só fortaleceram a vontade dos militantes em mudar os rumos da UBES. Se em número a oposição era menor, em empenho não havia comparação. Apenas a Kizomba (juventude ligada ao PT e voltada para o público negro) fazia algum barulho significante pelo lado da posição. Esse barulho não era capaz de confrontar com a bancada da oposição. Os militantes da UJR seguiam com suas palavras de ordem, erguendo bandeiras com a imagem de Che Guevara – símbolo da UJR e modelo de revolucionário para a juventude. E com os sofrimentos submetidos pela UJS, a ira cresceu e os últimos ônibus trouxeram novos gritos de guerra: “Eu passo fome, durmo no chão, mas não me junto com essa corja de ladrão”, “sou de luta e não me canso. Eu não sou pelego manso”, “Sou estudante, sou radical. Não sou capacho do governo federal”. O sentimento de revolta era crescente e quase explodiu no final do sábado quando iniciou-se um pequeno conflito, contido pelas diretorias das duas organizações. Os estudantes de Pernambuco e da Paraíba eram os mais exaltados por terem sofrido um golpe ao não serem credenciados, fato revertido na noite de sábado.

A UJS saiu vencedora de mais um congresso, mas cada vez mais ciente da força que cresce na oposição. Principalmente, porque os delegados da oposição são convencidos a participar do movimento estudantil pela vontade de produzir mudanças, pelo interesse em colaborar com uma sociedade mais justa. Anseio esse que não se apaga ao fim do CONUBES, que não se destrói pela alienação, que não se corrompe com festas e promessas envoltas em drogas e bebidas. A oposição é hoje o exemplo do que deve ser e o espelho do que foi, por muito tempo, o movimento estudantil brasileiro. A oposição mostra para quem já viveu e hoje acha que o ME está morto, que ele está cada vez mais vivo e inflamado. A oposição é hoje, a posição mais correta a se tomar. Lutar por uma educação pública de qualidade, por um país livre e soberano, por democracia e justiça, pelo Pré-sal, contra o código florestal, contra o pagamento da dívida externa. Ou, como diria Olga Benário, lutar pelo bom, pelo justo, e pelo melhor do mundo.

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Categorias: Atena, Educação e História

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