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Esquerda de direita?


por Lucas Marcelino

O congresso da UBES teve início dia 1º de dezembro e foi realizado no Expo Center Norte, em São Paulo, e a primeira impressão que se teve foi a desproporcionalidade. De um lado se via a UJS, que dirige atualmente a UBES que, apoiada pela maioria das outras organizações contava com mais de mil delegados e um número ainda maior de simpatizantes. Do outro lado, se via uma quantidade menor de delegados da oposição, cerca de duzentos e cinquenta e por volta de quinhentos militantes. Um lado – amarelo-e-branco – apoiava a chapa “Movimento estudantil unido pelo futuro do Brasil”. O outro lado – vermelho e carregando bandeiras de Che Guevara – a UJR defendendo a chapa Rebele-se na UBES.

Fotos: União da Juventude Rebelião

Mas o que se via em números não se refletia em preparo político e isso tem uma explicação muito simples: A UJS é a juventude do PCdoB, que por sua vez, é aliado do governo petista e recebe uma verba repassada para bancar sua chapa no ME. A UJR é a juventude do PCR (Partido Comunista Revolucionário), organização que surgiu de uma quebra dentro do PCdoB na década de sessenta e desligou-se do partido ao ver que este tomava rumos reacionários e se associava com a direita. Dessa forma o PCR sobrevive apenas de doações de sindicatos, entidades não partidárias e da contribuição dos militantes, que em sua maioria são ainda estudantes.

Essa diferença financeira aliada à forma de associação dos militantes faz com que o trabalho de recrutamento seja diferente. Na UJS pode-se tornar militante apenas se cadastrando por um site. Já na UJR, cada militante é indicado por sua posição política e passa por um processo de recrutamento, que depois se transforma em estudos sobre conjuntura política e comunismo.

Os dois primeiros dias foram preenchidos com atividades políticas e ciclos de debates. Debates que se intensificaram após a abertura do congresso ter sido realizada com a presença do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, um dos maiores inimigos dos professores e estudantes e que liberou uma verba em torno de R$2 milhões para a UJS organizar o congresso, gerando críticas de que a juventude do PCdoB havia se ligado à direita, assim como o partido já fez.

Foto: União da Juventude Rebelião

Os delegados e militantes da UJR, politizados em torno do Código Florestal, dos leilões do Pré-Sal e de 10% do PIB para a educação, partiram para o ataque nos debates e principalmente sobre meio-ambiente, o clima – literalmente – esquentou. A criação do novo código florestal, por parte do deputado Aldo Rebelo do PCdoB e o apoio declarado da UJS à deputada Kátia Abreu do DEM e defensora dos ruralistas, serviu de arma para as críticas realizadas pela UJR nos debates. Em um deles a agressão deixou de ser verbal, cadeiras voaram e até uma bomba explodiu em uma das salas, como mostra o curto vídeo abaixo:

Após os encontros, o terceiro dia – transferido para o Colégio Salesiano, em Santana – foi de votação das propostas para atuação da UBES, foram apresentadas duas propostas para cada tema, uma pela chapa da atual diretoria e outra pela chapa Rebele-se. A leitura das propostas foi um processo desgastante e durante esse período as duas bancadas se distraíam. No espaço reservado para a UJS, em frente a mesa diretora, os estudantes se revezavam entre batucadas sem ritmo, danças sem sentido e cochilos sobre as mochilas. Nas arquibancadas, dividas entre a UJR e algumas outras forças a favor da UJS o congresso parecia mais interessante.

Determinados a lutar até o fim pela tomada do poder na UBES e revoltados pelo descaso que sofreram com a falta de democracia por parte da organização da UJS, os militantes e delegados da UJR gritavam palavras de ordem contra o “peleguismo” da outra instituição. Apoiados pela bateria, sem comer e com uma quantidade menor de militantes – a UJS não enviou o café da manhã para o alojamento e retardou a chegada dos ônibus da UJR – aqueles que estavam presentes entoavam gritos de guerra como “Todo mundo sabe, a UJS ta no colo do Kassab”, “O que que aconteceu? A UJS abraçou a Kátia Abreu”, “Tá abraçada com a Kátia Abreu, o petróleo a ANP vendeu, UJS na UBES não dá mais”, “Quem não pula é ruralista”, “Pula sai do chão, quem é da Rebelião”, “O dinheiro do meu pai não é capim. Eu quero passe-livre para mim”, “Eu já sabia, na UBES não tem democracia”.

Foto: União da Juventude Rebelião

Após as chapas fazerem suas defesas em um pequeno palanque colocado quase dentro do espaço reservado aos delegados da UJS, a votação das propostas foi feita pelos delegados, que levantavam os crachás para mostrar sua escolha. O detalhe é que a UJS não havia entregado os crachás dos delegados da UJR e não havia permitido o credenciamento dos delegados da UJR que vieram de Pernambuco e da Paraíba. Após a votação aprovar as propostas da UJS o terceiro dia foi encerrado com mais um combate. Durante todo o terceiro dia, agressões foram trocadas entre as duas bancadas. Inicialmente, aviões de papel eram lançados em direção aos rivais, mas no final alguns membros da UJS, sem compromisso algum com o congresso, passaram a arremessar pedaços de madeira retirados dos mastros das bandeiras. Enquanto militantes mais experientes tentavam evitar o revide por parte dos delegados da UJR, começaram a voar também maçãs, que foram servidas no café – provando agressão da UJS, já que não houve café da manhã para a UJR – e até uma lata de tinta guache, que atingiu o candidato da UJR a presidência, Gladson Reis, que teve que ser contido por outros militantes para não devolver a agressão e dar um álibi para um confronto maior. No final a delegação da UJR foi contida e aguardou o jantar, enquanto os membros da UJS iam embora para o alojamento.

O quarto dia foi reservado apenas para a plenária final, onde ocorre a votação para a nova direção da UBES. As delegações chegaram timidamente e foram ocupando seus lugares. Do lado da UJS, o clima era de festa – como em todo o congresso – e de desinteresse e vontade de voltar para casa. Muitos militantes dançavam ou dormiam. Na arquibancada da UJR já surgiam as primeiras palavras de ordem e com a chegada dos ônibus com os delegados os protestos se intensificaram. Antes da plenária final e após o café da manhã que nem todos militantes da UJR tiveram (só seis caixas com um kit de suco, pão com mortadela e maçã foram liberados para a UJR, tendo a diretoria que arcar com mais cerca de 300 lanches) a direção da UJR reuniu os militantes e delegados na parte externa, atrás do ginásio, onde o candidato Gladson Reis e outros membros da direção fizeram uma intervenção com um megafone para injetar as últimas doses de ânimo e reiterar o compromisso de cada delegado com sua formação política e a melhoria da educação, que deveriam ser mostradas durante a plenária final e no momento da votação.

Os delegados e militantes da UJS, cansados pelos quatro dias de balada nos alojamentos e a grande quantidade de droga ingerida, aguardavam apenas a hora da votação para libertarem-se daquele “trabalho” e voltarem para casa. Do lado da UJR, com os ânimos exaltados e instigados por palavras e discursos de luta pelos seus direitos, os militantes entraram no ginásio e invadiram as arquibancadas puxados pela bateria, entoando o canto alusivo ao crescimento e empenho da UJR desde sua criação em 1995: “Desde 95 ninguém segura a gente, por isso peço à bateria pra puxar o ‘Sai da frente’. Sai, sai da frente. Sai que a UJR é chapa quente”.

Foram realizadas as inscrições das chapas, onde apenas duas (“Movimento estudantil unido…” e “Rebele-se na UBES”) se inscreveram, mostrando a determinação de todas as forças ditas de esquerda, se associarem a UJS em busca de uma participação na diretoria da UBES. Com apenas duas chapas a eleição foi realizada de forma separada, com uma urna para cada chapa, afim de evitar novos conflitos. Após algumas horas de espera pela apuração dos votos, enquanto o almoço era servido e os delegados descansavam, foi anunciado o resultado que determinou a vitória da UJS e a eleição de uma estudante de Pernambuco para a presidência da UBES.

Para a UJR, mesmo derrotada, a conquista da 1º vice-presidência para Gladson Reis foi um pouco comemorada. Avaliando todas as armações da UJS e as dificuldades enfrentadas durante a campanha e para financiar a delegação com o compromisso de não se vender para nenhum patrocinador, o crescimento obtido em comparação com o último congresso foi satisfatório. E ao mostrar que existe uma oposição capaz de se organizar e calar um ginásio apenas com a paixão de cada militante, a UJR abre novas perspectivas para o movimento estudantil brasileiro e mostra que, não só Copa do mundo e Olimpíadas trazem orgulho para o povo. Mas que participar da construção do país ainda faz parte do espírito da juventude. Aguardem, pois o Gigante do ME está desperto.

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Categorias: Atena, Educação e História

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4 Comentários em “Esquerda de direita?”

  1. Rafael Negreiros (IFPE, Campus Recife)
    19 de janeiro de 2012 às 23:02 #

    Eu Tenho Orgulho De Fazer Parte Dessa Juventude…
    E Me Sinto Ainda Mais Orgulhoso Em Garantir A Mim Mesmo Que Nunca Vão Me Comprar…
    Devo Isso A UJR E Ao PCR…

    “Manoel Lisboa De Moura, Presente! Agora E Sempre!”

  2. Lindebergue
    21 de janeiro de 2012 às 7:08 #

    que agente da UJR tem uma formação politica muito superior ficou provado, esses 2 anos vai ser de muita luta e vamos sim tomar a UBES e colocar no rumo da luta.
    eu passo fome, durmo no chão, mas não me junto com essa coja de ladrão…
    Lindebergue Oliveira- Militante da UJR e UESPE

  3. sanny nascimento
    22 de janeiro de 2012 às 16:56 #

    E assim mesmo galera derrotas apos derrotas ate a vitoria final..
    vamos tomar a UBES e fazer dela uma organização de luta .. que não apoia Cassabe nem Katia breu..
    uma organização que apoia os estudantes uma organização em defesa da educação

    sanny nascimento militante partido comunista revoluçionario-pcr-alagoas

    *UBES UBES é pra lutar e´ pra lutar**

  4. giovanny garcia
    23 de janeiro de 2012 às 10:13 #

    Grande Rafael ” mussão” pois tenho mesmop pensamento que você meu amigo sega de se calar para esses politicos imundos que so pensam em enrricar nao ver a pobresa do norte do pais. e como disse o filosofo voutaire: POSSO NÃO CONCORDAR COM TODAS AS PALAVRAS QUE VOCÊ DIS MAS LUTAREI ATE A MORTE O DIREITO DE DIZELAS. UJR ATE A MORTE!

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