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Congresso Clandestino

por Lucas Marcelino

Nos dias 1 a 4 de dezembro foi realizado o CONUBES (Congresso Nacional da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) na cidade de São Paulo. Com participação de cerca de cinco mil estudantes do ensino médio, técnico e pré-vestibular, o CONUBES elegeu a nova diretoria e as propostas que serão defendidas durante o próximo mandato de dois anos. Foram votados também o movimento #ocupebrasilia e a jornada de lutas de março de 2012.

39º Congresso da UBES/Foto de Pedro A. Gutman

Embora tudo isso tenha sido realizado e pareça que houve grande participação da comunidade estudantil brasileira, ficam algumas perguntas: Você sabe o que é a UBES e a UNE (União Nacional dos Estudantes)? Você sabia sobre o CONUBES? Você conhece e sabe por que existe o movimento estudantil? Você sabe quem são as lideranças políticas da UBES e da UNE?  A Pandora te explica!

O Movimento Estudantil
Pra entender para que servem a UNE e a UBES, é preciso antes conhecer o movimento estudantil, e, no Brasil, são poucas as pessoas e poucos os jovens e estudantes que já tiveram algum contato com o ME (movimento estudantil). Por isso vamos tratar um pouco de história e ideais.

O ME existe desde que foi criada a primeira faculdade. Seja na Europa ou no Brasil, os jovens que alcançavam esse nível de estudo nos séculos passados, geralmente membros da elite da sociedade, utilizavam o desenvolvimento intelectual e a capacidade de percepção do mundo e aliavam a isso o espírito rebelde e revolucionário subjetivamente incluso na juventude para questionar os governos e a condição de vida nas faculdades e na sociedade. Então foi assim que começou a se organizar o ME.

Grandes momentos da história do mundo tiveram a participação efetiva do ME. Na Europa, a grande revolução francesa teve uma enorme influência das idéias iluministas que surgiram nas universidades da França e da Inglaterra no século XIX. No Brasil, os movimentos pela independência do governo português, pela República, contra a Ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, contra a Ditadura dos militares na década de 60, pela campanha “O petróleo é nosso” que resultou na criação da Petrobras e pela redemocratização do país na década de 80 e 90 tiveram sempre à frente a organização e combatividade dos estudantes ligados ao ME. Inicialmente com a participação daqueles que iam estudar na Europa e voltavam transformados pelas idéias iluministas e depois pelos próprios universitários brasileiros, esses movimentos ganhavam proporções gigantescas e guiavam a sociedade na luta contra a repressão dos monopólios e do governo, seja ele, português, americano ou fascista-brasileiro.

Dentre esses estudantes se destacaram alguns nomes como Manoel Lisboa e Manoel Aleixo no nordeste, torturados e mortos pelo regime militar; Fernando Gabeira, Dilma Roussef e tantos outros políticos que lutaram contra a ditadura e hoje parecem ter esquecido seus ideais de liberdade. Além de tantos outros nomes conhecidos ou não, que atuaram na independência de Portugal, nas Diretas Já e em outros momentos históricos.

Esses jovens, esclarecidos pela sua capacidade intelectual e influenciados pela sua sensibilidade social, canalizaram toda a energia própria da juventude e se organizaram em grupos para reagir aos ataques desumanos realizados por governos autoritários.

E foi assim, que na década de 30 surgiu a UNE e em 1948 a UBES. Entidades que serviram (por um tempo) como representantes dos desejos dos estudantes de todo o país e que foram duramente atacadas pela Ditadura militar, quando a sede das instituições, que ficava no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi incendiada e todos os estudantes e instituições ligadas ao movimento estudantil, como os Centros Acadêmicos (CA’s), Diretórios Acadêmicos (DA’s) e Diretórios Centrais dos Estudantes (DCE’s), Grêmios Estudantis e organizações dos estudantes secundaristas, foram jogados na ilegalidade e seus líderes perseguidos, torturados e mortos. Diversas universidades, como a USP e a UNB foram invadidas pelos militares e, na invasão do restaurante estudantil no centro do Rio de Janeiro, o estudante secundarista Edson Luís Lima Souto foi assassinado, gerando revolta e comoção que levaram cinquenta mil pessoas à acompanharem o caixão até o enterro.

As lutas do ME durante a ditadura foram também contra a americanização do ensino com a parceria conhecida como MEC-Usaid – também rejeitada pelos estudantes de outras nações como Espanha, Itália e Japão. Durante todo o período de ilegalidade do ME brasileiro, as lutas passaram das necessidades dos estudantes para se tornarem públicas, especialmente contra a censura, a repressão, as torturas e pela democracia. Foi o momento mais forte do ME no Brasil, onde as passeatas reuniam milhares de pessoas e os estudantes doavam a vida pela democracia, seja se alistando em guerrilhas como a ALN de Marighella ou lutando em batalhas como a famosa “Batalha da Maria Antônia”, que leva o nome da rua, próxima à faculdade Mackenzie, onde estudantes ligados à esquerda da Faculdade de Direito do Largo São Francisco entraram em combate com estudantes da Faculdade Presbiteriana Mackenzie e um deles foi assassinado durante o combate. No Mackenzie, funcionava o grupo ultra-direitista conhecido pela sigla “CCC” (Comando de Caça aos Comunistas) que foi relembrado em um panfleto que circulou pela USP durante as últimas manifestações.

Como se vê, o ME brasileiro foi uma ferramenta importante de luta pela democracia brasileira, mas, infelizmente, esse perfil se alterou com o tempo. Com o fim da Ditadura e o retorno à legalidade, as instituições voltaram a ser reconhecidas como representantes dos estudantes. Foi assim que a UNE e a UBES se reestruturaram e neste congresso de 2012 se comemorou os 30 anos da reconstrução da UBES. Mas nem toda a reconstrução foi positiva. A falta de democracia e a influência partidária (leia-se PCdoB) sobre os membros da majoritária da UBES, ainda são empecilhos para a completa reestruturação e para a representação plena dos estudantes do Brasil em relação aos principais debates contemporâneos no nosso país. Isso sem contar o processo de eleição dos delegados que terão direito a voto nos congressos e o próprio congresso, onde a oposição é sempre mal-tratada e sofre com a tentativa de exclusão dos seus delegados.

Fora isso, ainda é preciso conviver com o chamado “peleguismo”. O peleguismo é a inércia propagada pela atual diretoria da UBES e da UNE que, interessada somente na verba do governo federal, mantém-se longe dos protestos e se afasta do papel questionador que sempre possuiu.

É sobre isso que trataremos na próxima parte desse especial sobre o Movimento Estudantil Brasileiro.

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Categorias: Educação e História, São Paulo, Território Nacional

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2 Comentários em “Congresso Clandestino”

  1. vanieverton
    13 de dezembro de 2011 às 8:19 #

    No texto cita-se Manoel Aleixo como dirigente estudantil, na verdade Manoel Aleixo era dirigente das ligas camponesas. Penso, que o outro nome seria Emanuel Bezerra. E, a passeata da morte do Edson Luis é a passeata dos 100 mil, não 50mil.

    • 13 de dezembro de 2011 às 19:11 #

      Obrigado pelo comentário!
      Vamos fazer a correção no texto.
      Realmente Manoel Aleixo foi um dos líderes das Ligas Camponesas no nordeste. O outro líder estudantil seria mesmo Emanuel Bezerra.
      Já a passeata que acompanhou o caixão do estudante Edson Luis, foi mesmo a passeata dos 50 mil.
      A passeata dos 100 mil foi realizada alguns meses depois, em 26 de junho de 1968.

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