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Escola: a mais nova operária

Por Lucas Marcelino

Baseado no ritmo atual de funcionamento do planeta, oriundo da globalização da informação e dos conteúdos gerados ao redor do mundo, a necessidade de ampliar o conhecimento e adequar-se a outros povos é um dos pontos mais importantes na avaliação do desenvolvimento de um país. Seja pelo ritmo cada vez mais acelerado no modo de produzir, pela incorporação de novas tecnologias nas empresas de diversos setores ou pela necessidade de desenvolvimento autônomo na busca por melhores cargos, o trabalhador atual precisa estar cada vez mais preparado para sobreviver no mercado de trabalho.

Seguindo essa linha de pensamento, diversos educadores, políticos, filósofos, entre outros estudiosos da educação, defendem veementemente uma atuação mais forte da escola na preparação dos alunos para o mercado de trabalho, essencialmente, no ensino médio. Mas fica a pergunta: Essa é mais uma daquelas ondas de pensamento que se criam, e muitos aderem, pura e simplesmente, para estarem “atualizados” e “no centro das atenções”. Ou realmente o currículo escolar brasileiro é deficitário quando se fala em preparação de mão-de-obra escolarizada?

Embora o que faremos seja algo primordial, muitos desses estudiosos não o fazem: análise crítica da questão em si, associada ao contexto social atual. Ou, um breve estudo dialético da questão.

Complexidade do trabalho

Com o crescente avanço da tecnologia, tendemos a crer que as profissões propõem atividades cada vez mais complexas. Mas um texto do professor Jarbas Novelino Barato – Doutor em educação pela Unicamp – apresenta outra forma de enxergar o mercado de trabalho atual e o papel da escola para com ele.

Imaginemos um pedreiro que assentava azulejos há algumas décadas atrás. Havia a necessidade de possuir algumas habilidades que iam, desde preparar a massa para fixação até a marcação e o corte das peças antes de fixá-las. Existia ainda uma empecia de truque, que poucos profissionais do ramo conhecem atualmente: antes de serem pregados, os azulejos “dormiam” em tanques com água. Só assim eles mantinham-se presos à massa e à parede. Hoje, com as argamassas industrializadas e com as máquinas de corte apropriadas, assentar um azulejo se tornou muito mais simples e um trabalho com muito menos conteúdo, já que os materiais chegam prontos, ou quase, para uso.

Outro exemplo se dá nas redes de fast food. Comparados com os restaurantes tradicionais, as ocupações em uma lanchonete mostram um decréscimo de conteúdo técnico e intelectual. A diferença entre a atividade de um cozinheiro e de um trabalhador que monta lanches, quando se analisa o conhecimento profissional necessário para cada um, é extrema. E esse decréscimo não é algo raro. O sociólogo espanhol Alberto Moncada, analisou o trabalho na Europa e chegou à conclusão de que, apenas dez por cento das atividades profissionais eram atividades psicologicamente compensadoras. Ou seja, nove em dez trabalhadores executam tarefas repetitivas e pouco, ou nada, desafiadoras intelectualmente.

Mas se o conteúdo intelectual das profissões diminui a cada dia, por que cobramos tanto que o ensino médio seja voltado para a preparação do aluno para o mercado de trabalho?

Nas últimas décadas, tornou-se comum ver anúncios de empregos exigindo “segundo grau completo” para ocupações como garis, caixas de supermercado, motoristas, etc. Será que essas profissões exigem mesmo tal nível de conhecimento? Por que tantas outras profissões também viram o nível de escolaridade exigido subir tanto ao ponto de cobrarem um curso superior?

Segundo o texto do professor Novelino, esse aumento se deve a alguns fatores simples de serem reconhecidos. O primeiro é a utilização, por parte do mercado de trabalho, da escolaridade como fator de exclusão. Assim quando a oferta de mão-de-obra é grande (nos momentos de desemprego, por exemplo) aumenta-se a exigência de escolaridade, eliminando assim, grande parte dos concorrentes. O segundo é a tentativa de dificultar a entrada de novos profissionais no mercado, por parte das associações e dos profissionais mais antigos de algum setor. Como no caso dos cozinheiros, que viu surgirem faculdades para formação de profissionais que, faz pouco tempo, podiam ser até analfabetos. O terceiro ponto é relativo à valorização social de uma profissão. Cargos como gerência, chefia, ou profissões que se tornaram atrativas ao decorrer dos anos, viram a cobrança da escolaridade aumentar. Mesmo que essas ocupações sejam (em alguns casos) pouco desafiadoras do ponto de vista técnico e intelectual, o ingresso nesse meio depende de grande preparo educacional.

E a educação com isso?

Até agora, vimos uma grande contradição entre a exigência de escolaridade e a real necessidade de conhecimento e de conteúdo das profissões. Isso mostra que não há uma relação clara entre educação e trabalho. Embora ela exista, não é possível precisar como ela funciona. Mas se essa relação não é clara, a escola não deveria tomar um papel ativo, de vanguarda, frente o mercado de trabalho? Não só poderia como deveria. E ela mostra isso com os estudos das ciências.

 As ciências, de um modo geral, têm a capacidade de alterar as formas de produção e a forma de visualização do mundo. No século XIX, o governo alemão resolveu investir em pesquisa e laboratórios nas universidades. Em pouco tempo, desvendaram como ocorriam velhas formas de tintura e curtimento. A partir disso, foi possível diminuir o tempo e aumentar o controle dos processos, criar produtos artificiais, etc. Assim foi desenvolvida uma nova forma de produção e uma nova visão do mundo.

Esse exemplo mostra que, no caso das ciências, é possível encontrar certa congruência entre o currículo escolar e a evolução das profissões. Uma vez que renovados os conteúdos profissionais é necessário atualizar o currículo escolar, de forma sucessiva. O que gerará novas descobertas científicas.

Qual tipo de formação?

O ensino médio vem sofrendo essa pressão, justamente por ser visto como preparatório para o vestibular. Mas os anos de abandono da educação, de uma forma geral, também contribuíram para essa avaliação negativa. A falta de profissionais qualificados não se deve apenas à formação voltada para a área acadêmica, mas também pela falta de formação em qualquer sentido. Muitos alunos obtêm a capacidade de conseguir notas necessárias em provas e exames, mas continuam a pensar como antes de entrar na escola. O mais difícil é fazer o aluno ver o mundo de forma diferente. E nesse quesito o trabalho também tem sua parcela de responsabilidade e culpa.

A independência que o mercado de trabalho busca das escolas, durante a formação de um profissional, mostra que ele está pouco disposto a ver nascer uma grande geração de trabalhadores qualificados. Existem aprendizados e formas de aprender, que só são possíveis quando o trabalhador já está dentro do mercado, tendo contato com a profissão. Outros trabalhadores, por mais capacitados que estejam, não alcançam a profissão desejada, demonstrando que o ensino não é o grande culpado por essa falha de relacionamento entre o trabalho e a educação.

É preciso analisar mais a fundo essa questão, levando em consideração diversos outros pontos que não estão nessa matéria. Mas, além de tudo, é necessário reconhecer e fortalecer o papel da escola dentro da relação entre trabalho e escola, garantindo antes de qualquer coisa a capacidade de análise e autocrítica que o mercado tanto precisa e não obteve no seu tempo de estudo.

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Categorias: Atena, Educação e História

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