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A ilha literária de Fernando Morais

Autor fala sobre seus livros e  diz que responde à tudo, inclusive à provocações

 

Por Érica Perazza

Jornalista há cerca de 50 anos, sempre gostou de ler e escrever. Na década de 60, começou a trabalhar como office boy numa pequena revista em Belo Horizonte, quando teve que cobrir a ausência de um jornalista.”Virei jornalista por acaso”, conta Fernando Morais. “O editor perguntou se eu topava entrevistar a menina que ia disputar miss BH e eu topei. Foi minha primeira matéria”.

Para ele o setor mais sedutor do jornalismo é a reportagem. “E como minha tentação em trabalhar com os maiores craques da imprensa brasileira foi maior do que minha paixão pela minha namorada na época, eu vim para são Paulo”, continua o escritor que faturou o prêmio Esso com 23 anos e que cobriu muito crime e “assuntos” totalmente irrelevantes. 

Nos anos 70, Fernando Morais foi para Amazônia, “um planeta completamente desconhecido dentro do Brasil”, na mesma década em que foi lançada “A Ilha”, uma reportagem sobre Cuba. O dono da Revista Visão não gostou do resultado. “Ele brigou comigo e acabei sendo demitido primeira vez na vida. E aí, fui trabalhar na Veja, não na Veja de hoje, não me confundam!”,  Como era a época de plena ditadura militar, “até para me proteger dos militares, eu precisava publicar o livro, porque começaram a desconfiar [os militares]. Na sessão de tortura, viviam perguntando para as vítimas o que eu tinha ido fazer lá”. Enfim, o livro foi publicado e obteve grande sucesso. Foi então que como  começou a dar um bom dinheiro ao jornalista, ele cogitou em se especializar em  livro-reportagens. Então, larguei meu último emprego com carteira assinada e passei a trabalhar exclusivamente com isso. Fui meio empurrado na verdade. Afinal, eu não tinha espaço na imprensa e liberdade para escrever e publicar minhas reportagens. E eu queria ser lido – pelo maior número de pessoas. Mas a imprensa parou de ser interessar pela grande reportagem. O leitor viciado pela internet não quer ler textos longos”, observa. “O grau de liberdade que se tem em livros é gratificaste”, enfatiza.

“Olga”, de 1985, disputada maior tiragem com “A Ilha”. O livro narra a trajetória de Olga Benário, que foi recrutada pelo governo soviético proteger Luís Carlos Prestes, líder comunista. O sucesso das obras revela que “sim, há interesse na grande reportagem. Claro que você não pode escrever um livro de 10 mil páginas e ficar 15 anos nele porque se não você morre de fome. Se eu ficar 6 meses sem trabalhar, não tenho dinheiro para supermercado. Mas vivo bem, vou comprar um avião um dia”, brinca.

“É por isso que eu estimulo os jovens jornalistas a pensarem numa carreira paralela e num tema para realizarem grandes reportagens. Tente, arranje, experimente. O Brasil é ótimo, o que falta é gente para escrever sobre ele”. E Fernando Morais faz questão de reiterar que livro não é para agradar ninguém, sobretudo biografia. “Chatô [Assis Chateubriand] queria me bater porque eu escrevi algo que ele não gostou”, lembra o escritor. “Chatô era um pouco anjo, um pouco monstro. Ele criou o MASP, o único museu da América Latina que tem Rembrandt. Porém, ao mesmo tempo que ele deixou para a sociedade um tesouro desses, usou a mídia do jeito que bem entendia. Mas é inegável. Ele era o homem mais poderoso do século passado”, afirma.

Responsável também pela biografia de Paulo Coelho, “O Mago”, Fernando Morais passou por um grande conflito ético. O escritor Paulo Coelho estava abrindo a vida dele, logo “eu não ia me censurar e censurar o livro, da mesma forma que ele também não tinha me censurado”.

Atualmente, Fernando Morais está lançando o livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”. O Clube de Leitura Penguin-Companhia promoveu um encontro literário com o autor na PUC-SP e ele contou detalhes sobre os bastidores do seu mais novo livro.  A reportagem trata da Rede Vespa, um grupo criado na década de 90 na Cuba para se infiltrar nos Estados Unidos e espionar alguns dos quase 50 grupos anticastristas sediados na Flórida. A operação tinha como objetivo colher informações com o intuito de evitar ataques terroristas ao território cubano. O país assumiu apenas em 2001 sobre os agentes inteligentes. Fernando Morais que sabia sobre eles desde 1998, tentou por anos conseguir uma autorização para ter acesso a documentos guardados em segredo de Estado. Ainda, o autor realizou quarenta entrevistas, sendo 17 em Cuba  e 22 nos Estados Unidos. Entre elas, umas das entrevistas mais impressionantes da sua carreira. Depois da relutância dos cubanos, Morais encontrou-se com um jovem mercenário.

Antes de ligar o gravador, Morais perguntou se o preso estava concedendo a entrevista porque queria mesmo ou porque estava sendo obrigado. “Eu não tinha o direito de impor a alguém que estava condenado de morte. Além disso, não há nada mais forte do que a honestidade. Seja com quem for que você estiver entrevistando, seja honesto”. E foi assim que seu entrevistado lhe contou tudo minuciosamente. Achei que ia render uma meia hora, duas páginas no máximo, mas rendeu o dia e dois capítulos do livro. No fim da conversa, eu já estava muito impactado e perguntei-lhe como um sujeito com você aceita matar gente que você nunca viu na vida? E ele me disse ‘Eu era alienado, achava que tinha um Muro de Berlim em Havana. Eu queria parecer com o Sylvester Stalone. Mas ele terminava o filme com a Sharon Stone, e eu vou terminar em frente do pelotão’. As organizações de extrema direita descritas no livro não continuam mais tão atuantes. Segundo Fernando Morais, “as novas gerações parecem mais interessadas em ouvir salsa do que em colocar bombas”.

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Categorias: Literatura

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