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A face podre da Moda

Por Joice Melo

“Art. 2.º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.”

“Escravo da beleza”. É assim que chamamos aqueles que não conseguem se desligar da ditadura do corpo perfeito, e da beleza eterna. Porém, essa expressão ultimamente vem tomando outros rumos.

Sabemos que no Brasil existia o trabalho escravo e que negros sofriam nas mãos dos seus senhores, no entanto, em 1888 a Princesa Isabel, conseguiu que esses escravos fossem libertos, mediante a assinatura da Lei Áurea em 13 de Maio de 1888. Depois disso, todos os antigos escravos passaram a ser respeitados e livres para viver suas vidas. Bem…Essa é a história que todos nós gostaríamos de ouvir, porém depois de assinado esse documento, os escravos não tinham para onde ir e mesmo assim trabalhavam de graça para seus senhores, sendo mais explorados e maltratados, e atualmente não é diferente, estamos falando em vários aspectos, trabalhar demais e ganhar bem menos do que se é merecido é trabalho escravo, ser destratado e humilhado por causa de sua condição social e ou aparência é um tipo de escravidão.

Porém nosso foco está ligado ao Mundo da Moda. Sim, esse glamuroso mundo de desfiles, festas, estilistas famosos, corpos perfeitos dinheiro e mulheres bonitas têm seu lado obscuro e o pior, “escravo”.

Você sabe de onde vem ou quem fez a calça caríssima ou o vestido chiquérrimo que você está usando? É ai que entra a frase do primeiro momento, “escravo da beleza”, pessoas vivem em condições subumanas, em regime de escravidão só pra produzir as roupas da moda! Muitas indústrias ligadas a esse ramo se aproveitando da fragilidade, simplicidade e necessidade de pessoas que estão em situação ilegal no país, na sua maioria bolivianos e peruanos que saem do seu lugar de origem em busca do “sonho brasileiro”, e quando conseguem algo é pra “trabalhar” em longas jornadas diárias, sem dignidade alguma, somente para conseguir pagar o transporte para o Brasil, o que chega ao equivalente de R$ 274,00 a R$ 460,00 sendo que, o salário mínimo no país é de R$545,00.

Existem atualmente no Brasil, organizações que fazem as vezes de “Princesa Isabel”, trabalhando pela libertação de pessoas que vivem em péssimas condições e punir as indústrias que promovem tais condições de trabalho, tirando de circulação seus produtos. No dia 18 de Março de 2011, o IOS (Instituto Observatório Social) lançou uma plataforma nacional que terá o papel de fiscalizar e monitorar empresas que adotam esse tipo de má prática trabalhista e tornar públicas iniciativas realizadas em todo o país contra a escravidão. Essa foi uma iniciativa da sociedade civil cujo objetivo é implantar ferramentas que impeçam que os setores empresariais comercializem quaisquer produtos que sejam de origem escrava.

O Comitê de Coordenação e Monitoramento do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo é composto pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, pelo Instituto Observatório Social, pela ONG Repórter Brasil e pela Organização Internacional do Trabalho. A C&A, empresa de varejo têxtil foi a primeira a assinar o pacto Nacional Pela Erradicação do Trabalho escravo no Brasil e assumir os 10 compromissos em sua gestão, porém citaremos apenas alguns:

Compromissos do Pacto Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil

1. Definir restrições comerciais àquelas empresas e/ou pessoas identificadas na cadeia produtiva que se utilizem de condições degradantes de trabalho associadas a práticas que caracterizam escravidão.
2. Apoiar ações de reintegração social e produtiva dos trabalhadores que ainda se encontrem em relações de trabalho degradantes ou indignas, garantindo a eles oportunidades de superação da sua situação de exclusão social, em parceria com as diferentes esferas de governo e organizações sem fins lucrativos.
3. Apoiar ações de informação aos trabalhadores vulneráveis ao aliciamento de mão de obra escrava, assim como campanhas de prevenção contra a escravidão destinadas à sociedade.

Mesmo com tantas medidas tomadas contra a escravidão, ainda existem empresas do ramo de moda, que mantêm seus trabalhadores em regime de trabalho involuntário, como é o caso da Zara, do grupo espanhol Inditex, que foi flagrada por investigação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego oferecendo condições de trabalho parcas a pessoas que trabalhavam em duas de suas oficinas, localizadas no Centro e na Zona Norte de São Paulo. O grupo era de 15 pessoas incluindo uma adolescente de 14 anos. Em outra operação em Americana, interior de São Paulo, mais 52 pessoas foram encontradas sob condições semelhantes. O local encontrado era totalmente deplorável e ilegal, incluindo trabalho infantil, jornadas de até de 16 horas diárias, e privação da liberdade, ou seja, os “trabalhadores” tinham de pedir permissão para deixar o local e levar os filhos ao médico.

As oficinas não levantavam nenhuma suspeita principalmente porque todas pareciam casas comuns. Tinham poucas janelas, que eram cobertas com tecidos escuros, a fim de que ninguém de fora observasse o que se passava no interior. O ambiente era apertado, sujo e oferecia riscos por causa da perigosa combinação de fiações elétricas irregulares e tecidos espalhados pelo chão, além ausência de janelas. e com crianças circulando entre as máquinas sem alguma liberdade de nem ao menos brincar como se deve e depois de toda essa jornada, as pessoas ainda tinham de tomar banho frio porque os chuveiros eram desligados por causa da sobrecarga de fios utilizados. Referente a tudo o que foi encontrado, a empresa do grupo Inditex afirmou que era uma “terceirização não autorizada”, e que eles não suspeitavam de nada e que as contratações foram feitas por uma empresa intermediária contratada pela marca.

Outra empresa que também foi encontrada pelos fiscais da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP) no mês de marco 2011, nas mesmas condições mantendo funcionários em regime escravo é a Magazine Pernambucanas, o grupo encontrado costurava blusas da coleção outono-inverno da Argonaut (marca tradicional do Magazine), no local havia dois adolescentes com 16 e 17 anos e uma mulher com deficiência cognitiva, além das mesmas péssimas condições de moradia, trabalho, higiene e da jornada diária exaustiva de mais de 60 horas semanais, com recebimento de salário de R$ 400,00. Além claro de muitas outras empresas de variados ramos que matem essa mesma prática, só que ainda não foram “descobertas” pela mídia.

Existe um filme chamado “Gomorrah” (2008), que fala sobre o assunto. O longa, inspirado no livro homônimo do Jornalista Roberto Saviano, mostra a ação da máfia de seu país, e por isso, vive sob proteção do governo. O personagem Pasquale é um alfaiate que passa a treinar operários chineses concorrentes da máfia dominante, o que não seria muito diferente de nossa realidade hoje, em que, muitas vezes a moda passa longe de ser um meio de mostrar culturas diversas, de ensinar e ser influenciável de uma maneira sustentável, e respeitável e passa a ser uma máfia que dita beleza, comportamento e cria narcisistas e consumidores que visam apenas o luxo e satisfação própria sem pensar de onde aquele produto veio e pra onde ele vai. E, daí vem a pergunta: “o que pode ser feito a respeito?” O jornalista e ativista social Leonardo Sakamoto, diz: “Quando você compra, deposita seu voto na empresa, na forma como aquela mercadoria foi produzida. É uma ferramenta que pode até ser mais forte do que o voto eleitoral, porque você tá ‘votando’ todo dia. O ato de compra é um ato político”.

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Categorias: Atena, Moda

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3 Comentários em “A face podre da Moda”

  1. Gian
    26 de setembro de 2011 às 9:41 #

    Excelente artigo. Muito boa a iniciativa de divulgar os facínoras e as organizações que combatem esses super-abusos. Infelizmente, como no caso da espanhola Zara, que tem suas roupas feitas por essas empresas escravocratas, mostra as razões dessa vilania. As pessoas entrevistadas sobre a atitude da Zara ou não se interessaram em saber nada sobre o tema, ou questionaram se assim não fosse onde eles iriam compra as roupas, na “C&A”, ou disseram que nada tinham que haver com isso. Assim se explica porque podem existir empresas agindo dessa forma, a classe média alta pensa no consumo, na sua pseudo beleza e na moda, nada mais.

    • 1 de outubro de 2011 às 15:04 #

      Obrigada Gian, realmente fiquei e fico muito revoltada com essas coisas… infelizmente não eh só a moda que comete essas loucuras, mas muitas outras empresas que se formos citar levaria um bom tempo!!! Porém quem pode acabar com essa podridão toda somos nós consumidores que antes de comprar certo produto, nos perguntarmos de onde aquilo vem e de que forma foi feito!!! Há muito o que mudar… e começa pela gente!!
      Abraços.

      @joywonderland

  2. 5 de outubro de 2011 às 16:28 #

    Ei, dêem uma ouvida na música “Ela Cortou Curtinho” do Grupo Nem Secos, que fala da ditadura da beleza e sobre cada um poder ser como quer:

    http://www.myspace.com/nemsecos/music/songs/ela-cortou-curtinho-84352577

    Valeu, um abração.

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