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Purpurina em cinzas

Purpurina em cinzas

Érica Perazza


Todas as pessoas nascem livres
e iguais em dignidade e direitos.
São dotadas de razão e consciência
e devem agir em relação umas às outras
com espírito de fraternidade.
Declaração Universal Dos Direitos Humanos 

Desde pequena, sempre tive amigos de todos as tribos. Cada um com seu jeito, com sua religião, sua cor, opinião, defeito, limite, talento. A minha avó achava que eu era “anormal”, cresci e frequentei lugares que as pessoas não aceitavam muito bem o meu jeito espalhafatoso e hiperativo – o que hoje, é completamente “normal”. Eu achava que eu não pertencia à nenhum lugar. Só quando arrumei amigos gays, que me senti mais “eu”. Eles me abrigaram na margem da dos “esquisitos”, “diferentes” e das “bichas loucas”.

Falo alto, fico muito brava quando vejo algo injusto e coloco todos os meus argumentos para quem discorda de mim, tentar enxergar o outro lado da moeda. Longe de mim convencer alguém, compartilhar das mesmas ideias, o que importa é que ela compreenda que nem sempre o mundo está dividido entre “certo” e “errado”. Muitas vezes, no meio existe o “diferente” ou o “novo”. E normalmente, nossa sociedade tem medo, não aceita ou nem se quer respeita. E dá olhares tortos, aquelas risadinhas e comentários aos sussurros. Você sabe…

Por falta de conhecimento e de tolerância, desenvolvemos um pré-conceito e passamos a habitar o hall conservadorismo. Isso não leva a nada, muito pelo contrário, regredimos ao invés de evoluirmos – de evoluirmos como nação e como indivíduo. Aos tropeços, perdemos nossa identidade humana.

Quando penso que estamos cada vez mais perto do bom-senso e do senso coletivo, da liberdade de expressão, do amor ao próximo, do respeito às diferenças, um passo para trás é dado. E com ele, as células que antes formavam um organismo, segregam-se em partículas vazias.

Fiquei pasma quando ouvi a novidade:

No último dia 02 de agosto, a Câmara Municipal aprovou o projeto do vereador evangélico Carlos Apolinário (DEM) que cria o Dia do Orgulho Heterossexual em São Paulo. A data será celebrada anualmente no terceiro domingo de dezembro de cada ano, dia que passará a constar no Calendário Oficial da capital paulista.

Será que os políticos não têm mais o que fazer? Como sei lá, quem sabe leis que melhorem a qualidade de vida da população??? Realmente botar a mão na massa e construir escolas, aumentar vagas de alunos e professores, aprimorar o atendimento de idosos nos hospitais, criar alternativas para o trânsito caótico como a implementação e melhora no transporte público, diminuir os impostos absurdamente altos que só servem para alimentar vermes da corrupção. Que tal? Seria uma boa, heim?

Mas como me disse o jornalista indignado Eduardo Mate, 22, “Ao invés de fazer o trabalho deles [os políticos] e resolver os grandes problemas enfrentados pela cidade de São Paulo, prezam um projeto bizarro, que não acrescenta em nada a melhoria da vida das pessoas, a diminuição do preconceito, da violência, da segurança”. O líder do PPS, Claudio Fonseca ironizou: “Parece até uma nova classificação para um tipo de ser especial na cidade”.

O estudante de engenharia, Thiago Pistola, 24,  afirma que o dia do Orgulho Hétero “foi proposto dentro de um contexto religioso e discriminatório. Afinal, Apolinário disse que propôs esse dia para lembrar a sociedade da moral e dos bons constumes..Ou seja, fica subentendido que basta ser hétero para ser correto, e quem é gay não tem moral nem bons costumes algum”. Além de tamanho moralismo hipócrita e falso, o dia mistura convicções religiosas pessoais com política e mostra “ignorância, ao rebaixar caráter à condições sexuais, discriminação velada contra homossexuais”. Thiago teme que o dia seja aprovado realmente, pois acredita que. Esse será uma “marcha neonazista disfarçada”.

Se tem Dia do Orgulho Gay, por que não pode ter dia do hétero?
Sim, você pensou ou como eu escutou essa pergunta que justica e acaba valorizando o Dia do Orgulho Hétero. Afinal, direitos iguais, não? Pois é.
Mas então os casais gays deveriam ter o mesmo direito de casar e todos os seus direitos ( os mesmos dos héteros) que são negados pelo simples fato de terem atração pelo mesmo sexo.  Será que as pessoas não chegaram a um ponto em que confundem sexualidade com machismo e hipocrisia?

Dia do Orgulho Hétero
Me pergunto, será que no Dia do Orgulho Hétero nós héteros vamos apanhar com lâmpadas fosforescentes? Será que eles seremos discrimandos por nossa opção sexual? Será que vamos ser assassinados por demonstrações de afeto em público?

Sou hétero e já fui incontáveis vezes discriminada por defender os direitos dos homossexuais – que são tão humanos como todos os outros. Não são “anormais”. São tão (ou mais) capazes de amar, perdoar, de ter compaixão. Porém, são obrigados a se trancarem em armários, porque o amor deles é ousado, maldito, oprimido, clandestino.

Uso as aspas de Pedro Serrano, advogado especialista em Direito Constitucional, que resumem perfeitamente a polêmica: “O conteúdo é perverso. O forte não precisa de orgulho em qualquer circunstância, ele precisa de humildade. O fraco é que precisa de orgulho para se firmar entre a maioria. Na minha avaliação, o orgulho hétero é um não à tolerância com a minoria. É uma mensagem de guerra.”

Deus criou o macho e a fêmea
Ser gay é “putaria, boiolisse, viadagem, sacanegem, pecado, etc”. O que acontece nas casas noturnas, carnavais, micaretas, casas de suíngue, prostíbulos frequentados por héteros? Meditações? Encontros literários? Antes de generalizar, aprecie a paisagem do seu umbigo. Os comentários que surgem que Deus criou o macho e a fêmea e que era para preservar a espécie humana são absudos e não fazem sentido. Deus criou nós seres humanos para buscarmos a felicidade e atuarmos conforme as leis da bondade, caridade e amor. O meu Deus jamais deixaria de amar e querer um filho só porque ele é gay.  Não é preciso ler a Bíblia para acreditar em Deus. A fé está além das páginas de um livro. Todavia, é necessário construir seu caráter para ser um ser humano com dignidade.

“Deus é amor e que Jesus disse ‘Amai-vos uns aos outros’. O homossexual ama tanta quanto ou bem mais que um hétero. Amar não é pecado, tanto faz o sexo a religião a cor da pele”, observa Ionah Dos Santos.

Thiago Pistola lembra que está na Bíblia (velho testamento) que “se seu filho for rebelde e contra a palavra do senhor,você deve matá-lo, sem falar de outras atrocidades. Esse pessoal que fala tanto de Bíblia deveria ler mais e estudá-la antes”.

Deus teria vergonha de você
Aceite as pessoas como são. Religião não tem nada a ver com a opção sexual. Adianta ir para igreja, rezar e ser hipócrita, preconceituoso? Deus teria vergonha de você. Respeite o próximo, não pela sua religião, mas pelo seu caráter. Seja humano. Não pratique heresia.  Antes de discriminar qualquer um é melhor buscar conhecimento. Preconceito é crime. E censura também. Deixe as pessoas serem quem elas quiserem. Além de garantir seu pedaço no céu, você não vai para cadeia.

“A comunidade gay tem privilégios”
A maior babaquice que eu já ouvi. A luta dos homossexuais nunca teve nenhuma vantagem. Quantos sabem que a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças somente em 1993?

Os gays são sempre estereotipados e banalizados. Para a Associação LGBT, a criação do Dia do Orgulho Hétero é vista como um desmerecimento a luta social dos homossexuais. O dia “ocorre justamente para reafirmar a necessidade do enfrentamento da discriminação, agressão e violência comprovada às pessoas homossexuais”. E argumenta que “os heterossexuais não são vítimas de agressões verbais e físicas, de violência, não são assassinados em virtude de sua orientação sexual”.

Estaríamos virando nazistas?
O Nazismo acredita que a raça ariana era uma raça superior e discrimina negros, homossexuais e claro, judeus. Cor da pele, religião e sexualidade. Nada disso forma o caráter de alguém. Forma?

Por que as pessoas perdem seu tempo criando sentimentos segregracionistas e leis que separam muito mais as pessoas do que união? Por que elas se indignam com um homem que segura a mão de outro, com um casal de mulheres que se amam e têm todo o direito de demonstrarem seu afeto? Por que elas não se indignam com quem estupra uma menina de 13 anos que ainda engravida de um ser doentio como esse? Por que queimam índios vivos ou mendigos que têm o mesmo direito à vida como todos? Por que enchem a cara e pegam o carro, colocando não só a sua existência em risco, mas as de outros cidadãos?

Não. Hoje vivemos num mundo em que o amor é proibido. Não se pode nem mais torcer para o outro time, se não leva porrada.

Homens, mulheres, crianças, idosos, deficientes físicos são desrespeitados todos os momentos. A violência e a falta de educação fica à espreita para escolher suas próximas vítimas. Quando vai ter o dia em que poderemos ser livres para sermos nós mesmos? Não podemos deixar que nossos cores virem cinzas. 

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Categorias: Comportamento, Crônicas do Olimpo

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2 Comentários em “Purpurina em cinzas”

  1. Fernanda Gamba
    4 de agosto de 2011 às 11:30 #

    Fora que, vamos combinar… orgulho hétero passa mais a impressão de que a pessoa se segura tanto pra “não dar o que quer”, mas tanto, que sente orgulho por resistir…

  2. mari
    10 de agosto de 2011 às 7:24 #

    colocações mais que perfeitas…. e sim estamos virando um país nazista que bate na mulher e estupra as filhas

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