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Herois de uma era

Por Thaís Teles

Para o sucesso não há fórmulas  nem explicação. Ele acontece em decorrência de diversos fatores que culminam na consolidação de algo histórico e que marca a vida de muitas pessoas. Como explicar um lapso de inspiração que surge como a ponta de um iceberg, capaz de moldar uma obra prima e mobiliza centenas de pessoas em prol de uma causa ou de roubar a admiração de todo esse conglomerado de mentes pensantes e pulsantes que viajam no ritmo de letras, imagens, sons? Simplesmente não há uma resposta, apenas exemplos concretos de como essa realidade pode ser vitalícia e envolver gerações durante um bom período.

A atemporalidade se faz presente no mundo literário. É incontável a quantidade de indivíduos que viajaram pelas páginas do “Pequeno Príncipe”,  sentiram a atmosfera de desespero e pena ao se deparar com os testemunhos de Anne Frank e as brutalidade da Segunda Guerra Mundial, ou ainda que na rotina do jovem Holden Caulfield, em “O Apanhador no Campo de Centeio”.

Este último, publicado em 1951, é considerado por muitos o “livro que inventou uma geração”. Construído em forma de crônica, o livro retrata o cotidiano de um jovem rebelde de 17 anos vindo de uma família rica e que em decorrência do mal rendimento escolar, retorna à casa dos pais antes do previsto e ao longo do caminho reflete sobre as experiências que passou e se prepara para levar o grande esporro da família. Percebe-se que a trama é simples e não tem nada demais, porém, o que a torna a voz de uma geração e um grande marco literário é o fato de que esta foi a primeira vez na norte-americana que o universo  dos jovens foi estudado a fundo e exposto de maneira absolutamente natural, sem nenhuma pretensão ou didatismo. Toda a loucura dessa fase dourada foi expressa de maneira verdadeira e isto a torna uma mudança paradgmática.

Acontece, porém, que esse fenômeno tão intenso de plenitute heroica no comportamento dos personagens vem aos poucos se modificando. O bruxo mais famoso dos últimos dez anos toma conta das livrarias e salas de cinema, há sites especializados em analizar a saga de Harry Potter com profundidade e riqueza, da mesma forma como a obra de Joanne K. Rowling serviu de inspiração para que a trama fosse retratada em outras linguagens artísticas, são bandas, peças musicais e uma série de movimentos culturais nascidos a partir do feitiço de Harry Potter. Além disso, mais de 400 milhões de leitores espalhados pelo mundo se renderam às magias do aprendiz de bruxo imaginadas pela jovem autora traduzidas para 67 idiomas, inclusive quirguiz, groenlandês e latim. A obra é um fenômeno mundial e não apenas as crianças o veneram, muitos adultos embarcaram nas aventuras de Harry.

A força de sua história é algo de difícil entendimento para aqueles que a apreciam de longe ou possuem alguma restrição para se deixar levar pelo enredo. No entanto, uma obra dedicada a retratar a influência que a saga de Harry causou na sociedade pode ser a porta de entrada para os leigos. Escrito por Melissa Anelli, “Harry e seus fãs” relata dos batidores do fenômeno que a saga do pequeno bruxo causou dentro de uma década, de acordo com a sinopse, “Melissa apresenta informações exclusivas e detalhadas da febre literária que tomou o mundo de assalto, há mais de uma década. Ela própria descobriu Harry na faculdade, durante dias de dúvidas sobre o que fazer com sua vida, sobre qual carreira seguir. A saga veio como uma resposta disfarçada e a aproximou de milhares de pessoas que, como ela, compartilharam, em sites e fóruns de discussão, a emoção de acompanhar as aventuras do bruxinho“. Nas páginas, a autora coleciona depoimentos de pessoas que, assim como ela, encontraram respostas para sua vida através da história de um personagem, e faz ainda uma análise da disseminação dessa mania mundial ocorrida com a massificação da internet. Em suma, Anelli se propõe e unir fragmentos contidianos fundamentados na ficção a fim de entender que a magia do impossível tem potencial para mudar a vida de muitas pessoas e tornar a realidade mais interessante.

Enquanto Harry Potter é um garoto inteligente e cheio de habilidades, Holden é um jovem porblemático cheio de dilemas. A disparidade comportalmental de ambos é gigantesca, mas será que a contemporaneidade absorveira com tanta ênfase um enredo como a de “O apanhador no campo de centeio”? Muitos são céticos quando essa questão é levantada, enquanto outros acreditam que cada obra possui um potencial, porém, é verdadeiro acreditar que os dois são símbolos de uma juventude e retratam a contemporaneidade dentro de suas propostas. Um jovem da década de 50, ver que a realidade de Caulfield era similar à sua, que suas inquetações mentais e a vontade camuflada de gritar para  mundo inteiro que os padrões daquela época eram caretas e chatos, que aquela juventude pós-guerra era capaz de muita coisa e queria experimentar intensamente a vitalidade correndo nas veias, isso era o máximo o auge da compatibilidade e identificação juvenil. Paradoxalmente, a complexidade contemporânea e as exigências cotidianas são tamanhas e estão preestabelecidas pela máquina que o homem aos poucos se tornou, perdendo o controle absoluto de suas vontades e razões que, muitas vezes, são premeditadas pela grande mídia ou o corporativismo que determina o destino de muitas vidas. Nesse ponto que a mágica da obra de Harry Potter surge a fim de dar ao leitor a chance de viajar e sonhar, de crer que sua capacidade está em sua mente, talvez aí esteja o grande segredo para a aceitação de centenas de adultos, que se esqueceram de como é bom sentir que pode tudo e que sonhos primários são essenciais.

O segredo do sucesso literário está, em suma, no poder de identificação e na realidade pessoal que a trama retrata.

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Categorias: Atena, Cinema, Literatura

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