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Varandas gourmet e o mal-estar dos paulistanos

Por José Faro

Andei relendo  alguns capítulos do livro de Marcelo Coelho, Crítica cultural: teoria e prática, um dos melhores trabalhos que conheço sobre os dilemas e desafios que a cobertura da imprensa enfrenta na área cultural. Já pela 2a vez me chama a atenção a síntese que o autor faz do texto de Umberto Eco, A estrutura do mau gosto, em especial a ênfase dada ao conceito de “estilema deslocado”, sugestão que Eco oferece à indicação de elementos pinçados de uma obra complexa e “incrustrados” como “referência excitante” numa “mensagem simples”, constituindo-se no célebre kitsch. Diz o autor italiano, citado por Coelho: “kitsch é a obra que, para justificar sua função de estimuladora de efeitos, pavoneia-se com os espólios de outras experiências, e vende-se como arte, sem reservas”.

Umberto Eco, sempre nas referências feitas por Marcelo Coelho, não se cansa de exemplificar o quer dizer e penso que os casos citados no âmbito da arte em várias épocas servem como suporte para que o conceito de kitsch, que já foi modismo nos estudos de Comunicação, se aplique a quase todos os demais segmentos do consumo cultural onde é possível perceber o que o jornalista da Folha diz ser a essência do fenômeno: a ilusão ambivalente que provoca porque joga “dois jogos ao mesmo tempo” – os valores do prestígio cultural dos modelos que copia e as necessidades da massificação para as quais são copiados. Na verdade, entendo que é possível classificá-los como produtos esquizofrênicos porque submetem a função ao estilo, e acabam por esvaziar um e outro. No final das contas, são monstrengos estéticos que servem para concretizar o efeito demonstração do baixo refinamento estético, ainda que inocente como quer Coelho, mas oportunista como sabem os que comercializam esses padrões.

Aí é que está… Leio agorinha, no caderno Cidades/Metrópole, do Estadão, a notícia segundo a qual aquele espigão chamado Villa Europa (observem o kitsch sorrateiro nos dois “eles” do nome do prédio), de 31 andares, que causou polêmica depois do embargo da obra em 1999, mas já “regularizado” e certamente concluído, ganhou dois vizinhos do mesmo tamanho (31 andares cada um) e com a mesma pompa e exuberância que só o “novo” capital é capaz de gostar e construir. No total, são três monumentos ao mau gosto que se erguem agressivos numa das margens do Rio Pinheiros, uma região que foi ganhando alguma beleza de paisagem nos últimos anos.
São lançamentos que proliferam na cidade, não tanto pelo tamanho, mas pela voracidade com que se impõem aos direitos de suas vizinhanças e dos cidadãos em geral, invariavelmente capazes de seduzir o arrivismo de sua clientela: afinal, é preciso dissociar a riqueza da simplicidade e fazê-la – a riqueza – manifestação de poder e de acinte; o bom gosto e o comedimento da arquitetura que se danem! Como essas coisas, no entanto, nunca ficam restritas aos nichos onde ocorrem, a consequência se espalha pela cidade toda e não é difícil observar lançamentos imobiliários (será uma “bolha”?) onde o estilema deslocado de Eco se faz presente em qualquer folheto, às vezes de forma até anedótica. Como é que um cidadão que habita um espaço de 38m2  pode imaginar que disporá de um “espaço gourmet” individual para que seu espírito de aproxime do imaginário de um churrasco em campo aberto? Para que isso tenha êxito é necessária uma violência cultural extraordinária e uma convivência de dar medo com o mal-estar cotidiano… Essa é a cidade em que vivemos.
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Categorias: Atena, Coliseu Paulista

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