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Robert Johnson: O pai da música moderna

Se o diabo é o pai do rock, ele enviou Robert Johnson como profeta. E daí surgiu a música como conhecemos hoje.

Por Lucas Marcelino

Robert Lee (Johnson era nome artístico) nasceu no Mississipi em 1911, região americana onde havia, na época, forte exploração racial renegando os negros para o trabalho escravo,por isso seus pais e posteriormente o próprio viveram como lavradores em uma fazenda de algodão.

Aos 16 anos, Robert Johnson resolveu fugir da escravidão e sobreviver da música, tocando gaita e violão. Para seguir o sonho tocava em qualquer lugar que pudesse – da rua até prostíbulos e inferninhos.

Johnson aprendeu a tocar gaita e violão com seu irmão Charles. Com o tempo passou a conviver com seu ídolo Son House, que o esnobava por achá-lo sem talento. Robert voltou para sua terra natal e após alguns anos reencontrou Son House e Willie Brown que se assustaram com o desenvolvimento de sua técnica. Com esse grupo surgiu o chamado country blues – ou Delta Blues, por serem da região do Delta Mississipi.

Esse estilo se tornou a base para toda a música moderna contemporânea. Seja o Jazz, Rock n’ roll, R&B, Funk e seus derivados como o Samba, todos sofreram influências melódicas ou harmônicas do estilo criado no Mississipi.

Quando tinha vinte anos, Johnson criou uma forma de fazer seu violão chorar usando um gargalo quebrado de uma garrafa deslizando pelas cordas – técnica conhecida como slide. Essa foi só uma das contribuições para o desenvolvimento do recém-nascido blues. O estilo foi criado durante as colheitas pelos escravos americanos que juntaram os cânticos africanos com o gospel americano. Por ser reproduzido de forma barata, sem requintes como o jazz instrumental, o blues era popular nas vilas pobres e começou a se desenvolver rapidamente.

Johnson passou a se apresentar sozinho, aproveitando sua habilidade com o violão e sua técnica apurada. Ele tinha realmente o dom para a música e por isso despertou boatos sobre um possível pacto com o diabo, principalmente  após tornar-se melhor que seus ídolos.

Dizia-se na época – estória repetida até hoje – que Johnson havia encontrado com o Coisa Ruim numa encruzilhada, portando seu violão, numa noite de lua nova. À meia-noite, o Caramunhama apareceu em forma de homem e afinou o violão de Johnson, levando em troca sua alma. A partir daí sua música se tornou tão cativante que conquistava todos que a ouviam.

Diversas atitudes do maior bluesman de todos os tempos ajudaram a amplificar os bochichos ao mesmo tempo que amplificavam sua música. Com uma habilidade quase sobrenatural com o violão – de uma forma que conseguia fazer a base da música, os solos e a linha de baixo com os dedos da mão esquerda, até hoje algo raro para qualquer guitarrista renomado – ele costumava tocar de costas para o público, no intuito de esconder de seus rivais os acordes que criava para suas músicas. Para aqueles que não entendiam a importância dessa antipatia, ele tocava de costas para esconder os olhos, que se incendiavam quando ele executava seus números.

Sem receber qualquer reconhecimento pela sua arte, Johnson se arrastava por estados como Tennessee e Arkansas quando conseguiu uma oportunidade de gravar algumas de suas canções em 1936. Essas gravações rodaram o sul do país – e posteriormente atingiram o norte – chamando a atenção de outros músicos de blues que chegaram a dividir o palco com Robert Johnson, como os mestres Sonny Boy Williamson II, Elmore James e Howlin’ Wolf.

O estilo de Johnson influenciou fortemente o desenvolvimento do blues, a partir dele as músicas passaram a falar das lamúrias e aflições da vida que levavam os compositores. Uma dessas canções, Terraplane blues, chegou até os ouvidos de um – raro –  historiador da música negra americana ainda na década de 1930, que tentou encontrar com Johnson para levá-lo até o Carnegie Hall e apresentá-lo para o público branco. Mas a procura foi em vão pois, Robert Johnson havia falecido, segundo se supõe, no dia 16 de agosto de 1938.

Em seu lugar tocou Robert Lockwood Jr. Conhecido como Big Bill Broonzy – chamado de “júnior” por ser o único músico a ter tido aulas com Robert Johnson, que era seu padrasto. Big Bill Broonzy foi o primeiro a trocar o violão pela guitarra elétrica, influenciando o próprio Muddy Waters e outros guitarristas que eletrificaram o Delta Blues e criaram o subgênero Chicago Blues.

Como lenda viva que foi, Johnson não podia ter seu acerto de contas com o Demônio de forma menos esplendorosa do que a capacidade que havia recebido em troca de sua alma. O último acorde que realizou em vida foi o uivo que soltou no corredor de um hotel durante três dias enquanto engatinhava ao caminho da morte.

Reza a lenda que essa foi a forma do Capeta buscar a alma do homem que teria seu nome reconhecido apenas quase 50 anos depois da sua morte. Mas a história mais aceita é a de que como todo bom músico, seja amigo do demônio ou não, ele atraía o interesse feminino e costumava se relacionar com as mulheres “erradas”. Mesmo sendo casado pela segunda vez – sua primeira mulher, de 16 anos, morreu no parto – Johnson era um mulherengo e o marido de sua última conquista envenenou sua garrafa de bebida.

Como todo artista único, o nome de Johnson ainda carrega muito misticismo sempre que citado, mas o que não se pode negar é sua influência para a música que viria a se tornar o embrião do Rock n’ roll e de toda forma de música popular desenvolvida atualmente. Os maiores nomes do Rock n’ roll se renderam a magia do Johnson com o violão. E mesmo tendo apenas 29 músicas gravadas em apenas cinco dias e mais quatro músicas gravadas em mais de um take – que foram remasterizadas e lançadas em cd quase 60 anos depois – ele foi regravado por nomes como Led Zeppelin, The Who, Jimi Hendrix, Eric Clapton – que gravou um disco inteiro com canções de Johnson – e os Stones que existem unicamente por que queriam ser a melhor banda inglesa a tocar o blues de Chicago.

Entre as diversas regravações de suas músicas pode-se ouvir por exemplo, Sweet home Chicago, muito famosa com os Blues Brothers, ou Love in vain, regravada pelos Stones num dos primeiros discos e o clássico-pedrada Crossroads regravada pelo Cream de Eric Clapton que se tornou um dos maiores riffs e hinos da história do rock. Clapton ainda definiu o mestre: “Para mim, Robert Johnson é o maior músico de blues que já existiu. Eu nunca encontrei nada mais profundo e verdadeiro do que Robert Johnson. Sua música permanece como a maior tristeza que eu acho que você pode encontrar em uma voz humana”.

A história de Johnson continua a render outras estórias. O filme “Crossroads” (A encruzilhada) que já fez sucesso na Sessão da Tarde retrata um embate entre o guitarrista Steve Vai, o ator mirim de Karatê Kid e o demônio em torno da lenda de Johnson.

Se hoje as tristezas do ser humano podem ser cantadas e tornarem-se melodias agradáveis, tudo se deve a Robert Johnson. E já que Willie Dixon disse uma vez: “O Blues é a Raiz, o resto são frutos” Johnson com certeza pode ser considerado um lavrador de mão cheia, ao ter seguido a atividade de seus pais e semeado o estilo mais importante da música nos últimos séculos.

Para retratar a beleza demoníaca das músicas do King of Delta Blues, segue a letra que possivelmente confirma seu encontro com o Tinhoso:

Crossroads (Encruzilhada)

Fui até a descida da encruzilhada
e caí sobre meus joelhos
Eu fui até a descida da encruzilhada
e caí sobre meus joelhos
Perguntei para o Senhor lá de cima
“Tenha piedade agora, salve o pobre Bob
se achar que deve”
Yeeooo, mantenho-me na encruzilhada
Dando bandeira
ooo ooo eee
ninguém me viu e me conheceu, meu bem,
Todos passam próximo
Mantenho-me na encruzilhada, meu bem
ee eee eee Sol nascente indo embora
Eu acredito lá no fundo agora,
pobre Bob está afundando
Você pode correr, você pode correr
Diga-me amigo Willie Brown
Você pode correr, você pode correr
Diga-me amigo Willie Brown
Criei o Blues da Encruzilhada esta manhã Senhor,
meu bem, estou afundando.
Fui até a encruzilhada mamãe
olhei para o leste e oeste
Fui até a encruzilhada mamãe
olhei para o leste e oeste
“Senhor, eu não tinha alguma doce mulher
ooh bem, meu bem, estou aflito.

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Categorias: Atena, Lira de Apolo, Música

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