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Sede de poder ou necessidade de sobrevivência?

Máfia mexicana se consagra na América Latina como importante produtora de cocaína

Por Verônica Gonçalves

Todo sistema econômico em que a exclusão é parte de sua essência estará sujeito à formação de grupos que dependam da ilegalidade para sobreviver. A magnitude dessas Organizações pode elevá-las a condição de máfias, ou seja, grupos bem estruturados e hierarquizados com ações em diversos lugares.

Embora o campo das ilegalidades permita uma série de atuações – tais como a pirataria, o contrabando de animais, a prostituição, os jogos de azar, a troca de jogadores de futebol, entre outros – a América Latina tem se consagrado como um polo do narcotráfico, sendo a cocaína a droga mais produzida. Esses grupos latino-americanos apresentam uma série de características comuns, entretanto há algumas particularidades que valem a pena ser mencionadas. O caso do México será trabalhado nesse texto.

Para entender a formação de uma máfia mexicana é preciso considerar dois fatores. O primeiro deles é que a condição de país subdesenvolvido evidencia o abismo entre as classes sociais mais favorecidas e as menos favorecidas, ou mais precisamente, os bem-sucedidos profissionalmente e malsucedidos profissionalmente. Para aqueles que estão à margem da sociedade o caminho é conseguir renda de outras formas. Assim sendo, o contrabando de qualquer espécie se torna um aumento de capital alcançável.

O segundo fator está atrelado à organização social dos Estados Unidos, país que recebeu imigrantes de todos os cantos do planeta. Palco de uma enorme diversidade cultural, o país se tornou mais famoso por sua intolerância do que pelo acolhimento ao diferente. Filmes como Crash- No limite, ou mesmo Escritores da Liberdade, por exemplo, demonstra muito claramente esse cenário hostil entre as diferentes populações (negros, chineses, hispânicos, entre outros). As diferentes etnias acabaram se fechando em comunidades que buscavam acolher seus semelhantes e estimular uma participação política e econômica significativa.

Se no campo das legalidades não havia possibilidades de engrandecimento profissional a saída foi recorrer a outros meios. A melhor forma de garantir alguma renda foi à extensão dos negócios iniciados no México.  Isso significou uma intensificação do contrabando e um investimento na produção e no tráfico de drogas. Na busca por melhores condições de vida surgiram grupos muito bem organizados e também algumas gangues que praticavam roubo e extorsão.

Com existências muitas vezes independentes, as gangues de rua e de presídio foram obrigadas a se unir na década de 1950 devido ao fortalecimento do sistema penal norte-americano. O excesso das prisões forçou uma aliança que garantiu a influência e o poder dos mexicanos. Mesmo com objetivos comuns essas “gangues não estão empenhadas em acumular lucros para distribuir entre os seus integrantes, como fazem em outras condições estruturais”, como afirma o sociólogo Martín Sánchez-Jankowski. Inclusive os cartéis de drogas competem pelos lucros e cometem chacinas bem assustadoras.

Hoje, juntamente com outros países latino-americanos como a Colômbia, a máfia mexicana está crescendo principalmente na Europa. Pela facilidade de entrada na Espanha devido ao idioma, o consumo de drogas nesse país cresceu muito entre 2000 e 2006. Se eram 6 mil quilogramas detectados em 2000, esse número chegou perto dos 50 mil quilogramas em 2006. O aumento no número de mexicanos presos em território espanhol também evidencia a popularidade da cocaína. Em 1998 foram dois presos mexicanos e em 2010 chegou a 320 presos.

Em resumo essas Organizações muito bem estruturadas podem representar a lei e a ordem em determinados setores da sociedade. Esse fenômeno difícil de ser combatido continuará existindo se as preocupações do Estado se detiverem mais no acúmulo de poder do que nas melhores condições de vida dos indivíduos.



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Categorias: América Latina, Crônicas do Olimpo, Especial, Internacional

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um comentário em “Sede de poder ou necessidade de sobrevivência?”

  1. 20 de fevereiro de 2011 às 1:09 #

    Ótima abordagem! Deixou-nos um ótimo panorama sobre o surgimento, o crescimento e o poder (e as possibilidades de aumento desse poder) dentro e fora do México.

    Apenas reiterando, esse cenário mexicano (e suas causas) pode ser identificado também em outros contextos. Apesar de suas particularidades, mostra mais semelhanças do que diferenças com as demais aparições no continente – comparando ao caso do Poder (ou, em outro termo: do Comando) na rota do tráfico Bolívia-Brasil-Europa, ou do próprio modelo de organização da liderança do tráfico nas diferentes regiões dentro do Brasil (o tráfico no RJ, por exemplo, não é o mesmo de SP).

    Talvez um estudo sobre o enfraquecimento do tráfico nas principais cidades colombianas seja uma forma de se pensar estratégias para diminuir a influência da máfia mexicana (enfraquecimento, não eliminação: é o caso de Bogotá, por exemplo, onde a solução contra o tráfico foi além da luta contra o poder ilegal e centralizou-se na educação – ou, como você disse, focou-se em melhores condições de vida aos cidadãos).

    Além de tudo há o problema da abordagem: essa máfia mexicana, erroneamente, vem sendo responsabilizada por “ondas” de violência, sem que ninguém reflita se, de fato, atingiu-se a crista (o topo) dessa pretensa onda. É um problema que vai além do noticiário cotidiano, pois tem suas bases na formação histórica e cultural mexicana. Desenvolve-se, ainda por cima, com problemas que tanto estamos acostumados a ver por aqui: concentração de renda e desigualdade social.

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