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Problemas sem fim

A volta de Baby Doc é apenas mais um dos inúmeros problemas enfrentados pelo Haiti

Soraia Alves

 

Há um ditado que diz “desgraça pouca é bobagem”, e esse parece ser o termo que melhor descreve a situação do Haiti. Um ano após o trágico terremoto que deixou mais de 300.000 mortos, o país enfrenta uma epidemia de cólera com mais de 160 mil doentes e cerca de 4.000 vítimas fatais. Fora o caos nas áreas da saúde e infra-estrutura, a ilha do pacífico ainda passa por uma complicada situação política, e convive com as promessas nunca cumpridas da comunidade internacional.

Em meio a tantos problemas, o país foi surpreendido com a volta de um antigo ditador que, agora, promete ajudar na reconstrução do país. Jean-Claude Duvalier, mais conhecido como Baby Doc, 59, retornou ao Haiti no dia 16 de janeiro, depois de 25 anos de exílio na França.

Respondendo na justiça por acusações de corrupção, tortura e crimes contra a humanidade, Baby Doc não parece preocupado com sua situação, muito menos ensaiou qualquer tipo de pedido de desculpas por seus atos à população haitiana, ao contrário, garante que nunca foi um tirano, que é o responsável por introduzir a democracia no país e que sua saída do poder em 1986 acorreu de forma voluntária. “Quando eles falam de mim como um tirano, me fazem rir. Me dá a impressão que as pessoas sofrem de amnésia, eles esqueceram o jeito que eu deixei o Haiti, como eu o deixei voluntariamente. Não houve revolução naquele tempo”, disse Duvalier em recente entrevista a rede Univision. O professor Márcio Francisco Martins confirma que não houve de fato uma revolução, e explica: “Uma revolução não ocorreu porque ele (Baby Doc) saiu antes do país e porque El Salvador sufocava essa revolução com suas forças armadas. Ele saiu antes que a situação, que já era insustentável e de total desaprovação populacional, ficasse ainda pior”.

Duvalier assumiu o controle do Haiti após a morte de seu pai, François Duvalier, conhecido como Papa Doc, que também comandava o país através de um regime baseado no terror. “Quando seu pai morre em 1971, Baby Doc com 19 anos assume o poder e governa por quinze anos seguindo a mesma linha do pai, com uma guarda pessoal que implantava o terror chamada ‘Tontons Macoutes’, que significa bichos papões. Com essa guarda era possível instalar um governo corrupto sem nenhum problema com a opinião interna ou os opositores”, diz Márcio. O professor também ressalta que nessa época, ditaduras na América Latina eram comuns. “Vivíamos no contexto da Guerra Fria e existia o apoio dos Estados Unidos para manter o socialismo longe da América”. Mesmo assim, a situação do Haiti extrapolou os padrões “toleráveis” da época e a opinião pública ficou contra Baby Doc, que então fugiu para a França e se instalou num castelo de uma área nobre de Paris.

Baby Doc garante que fugiu sem dinheiro algum do Haiti, mas não explica como conseguiu uma conta de milhares de dólares na Suíça. Há poucos dias o governo suíço pediu o confisco de seus bens, apoiados em uma nova lei que entrou em vigor no último dia 01. Os bens de Duvalier já estavam bloqueados, e agora a nova lei permite que o dinheiro seja devolvido à população lesada. Estima-se que a fortuna de Duvalier nos cofres suíços é de 6,3 bilhões de dólares.

Sem permissão apara deixar o Haiti, Baby Doc vê os escombros de seu país em meio a uma conturbada disputa presidencial, garante que vai usar seu dinheiro para ajudar na reconstrução do país e espera que “a justiça seja feita” em seu caso. A comunidade internacional não vê com bons olhos sua volta repentina. Seria possível um ditador voltar ao poder? Para o professor Márcio, sim. “Essa é a hora perfeita para que Baby Doc volte ao poder. O grande problema no Haiti é a falta de um governo centralizado, já que até a sede do governo caiu com o terremoto. E ainda existem pessoas que o apóiam. Ele quer o poder volta e pode conseguir. Ele é um ditador e como todo ditador, um tremendo cara de pau”.

É como diz o ditado: Desgraça pouca é bogabem.

 

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Categorias: América Latina, Hermes, Internacional

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