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Vidas Extraordinárias

Por Verônica Gonçalves

Vik Muniz é considerado um dos maiores artistas plásticos brasileiros. Tal reconhecimento se deve ao seu olhar estético sofisticado que transforma o inusitado em arte. Ele utiliza alimentos e materiais descartáveis para compor trabalhos originais e complexos.

Entre suas produções encontram-se algumas réplicas de Leonardo da Vinci e Monet, todas feitas com geleia, pasta de amendoim ou xarope de chocolate. O que é marcante em Muniz é que ele explora uma infinidade de produtos e efeitos artísticos. Em seu acervo, há uma série de fotografias tais como nuvens de fumaça desenhadas no céu por aviões e imagens em larga escala esculpidas na terra.

A escolha daquilo que vai usar para compor seus projetos não é acidental. Um exemplo é a série Sugar Children’ de 1996 em que ele usou o açúcar para criar um contraponto entre a doçura da infância e a amargura da vida adulta. Ele pensou nessa série depois de uma viagem pelo Caribe em que deparou com canaviais que utilizavam trabalho semiescravo.

Além de aproveitar tudo àquilo que é inusitado Muniz tem o sonho de acabar com o caráter elitista da arte. A relação antagônica entre popular e inteligente incomoda o artista, que quer cativar e surpreender seu público para expor suas ideias.

O documentário LIXO EXTRAORDINÁRIO

Como as inovações de Vik Muniz não tem limites, ele decidiu desenvolver um projeto social no maior aterro sanitário da América Latina. Localizado no Rio de Janeiro, o Jardim Gramacho recebe cerca de 7 mil toneladas de lixo por dia.

Depois de algumas visitas ao local o artista decidiu retratar alguns dos catadores de materiais recicláveis que trabalhavam lá. Ele ouviu e gravou suas histórias, tirou fotografias e escolheu aquelas mais intensas. O projeto consistia em aproveitar os materiais recicláveis para recriar as imagens dessas pessoas. Da mesma forma que as crianças de açúcar se transformavam em açúcar, os trabalhadores do aterro eram transformados em lixo. Nos dois casos essas pessoas estavam à margem da sociedade, sendo confundidas com esses elementos a priori sem importância.

Ao escolher materiais inusitados para compor suas obras, Muniz explora diversas possibilidades do fazer artístico. No filme fica muito clara sua visão de que a contemplação artística é um momento mágico porque é quando o espectador vislumbra aquilo que o artista quis transmitir, ou seja, o que era apenas um objeto passa a ganhar vida e significado.

Se por um lado é interessante saber como esse artista tem conduzido sua arte, por outro o uso de algumas fórmulas previsíveis tirou parte da força desse filme. Os diretores apostaram em depoimentos regados a choro e histórias difíceis embaladas por músicas que evocam emoções fáceis para criar a imagem de um herói.

Outro ponto incomodativo é que na intenção de tentar mostrar ao espectador “a verdade absoluta dos fatos”, foram forjados alguns diálogos. São conversas que deveriam parecer espontâneas, mas não driblam nem o espectador mais distraído. Elas se apresentam mais como um texto ensaiado e editado.

Do ponto de vista estético existem imagens impressionantes do aterro sanitário. Para dar a exata dimensão de como aqueles trabalhadores se misturam ao lixo, houve a inserção de fotos tiradas de longe. Dessa forma o espectador pode entender como a sociedade encara essas pessoas.  Além disso, as filmagens aéreas mostram toda a magnitude do Jardim Gramacho, com suas enormes montanhas de lixo saídas dos caminhões e a convivência diária das pessoas com os urubus.

Apesar de resvalar no piegas, à narrativa também permite ao espectador refletir sobre o modo de funcionamento capitalista. Tal sistema econômico criou grupos de indivíduos muito antagônicos. Enquanto alguns podem jogar livros Best-seller no lixão, outros só conseguem encontrar dignidade trabalhando nesse mesmo lixão.

Assim sendo, o filme Lixo Extraordinário tem seu valor por apresentar uma concepção de arte diferenciada da convencional, em que os objetos mais inesperados produzem efeitos estéticos maravilhosos. E por permitir mais uma amostra da sociedade excludente que os países capitalistas escolheram para si.

Saiba mais sobre o mundo da sétima arte aqui.

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Categorias: Atena, Cinema

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