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Literatura

Estudo em vermelho

Por Fernando Marques

Possuía carro numa época e numa região em que poucos podiam ter um. O privilégio não lhe saía de graça: os amigos cortejavam, bolinavam o veículo como se fosse um brinquedo novo. Se a inveja praticamente unânime o lisonjeava, não deixava de ser incômoda. Os vizinhos se pagavam da inveja pedindo-lhe favores e caronas constantes. Ele, prestativo, não se negava sequer a sair completamente de seu rumo para satisfazer um amigo, levá-lo em casa.

Não contava, porém, que chegassem ao desaforo de lhe pedir o carro emprestado. Parecia absurdo, assim como se lhe cobiçassem a namorada. Não que tivesse carro por prazer ou vaidade. Aliás, a caminhonete não era nova, nem bonita. Vivia dos fretes que fazia na velha Ford, cuja maior virtude era a de ser a única nos arredores.

Na dúvida, emprestou. Era assim: esperava que percebessem quando lhe pisavam o calo, quando solicitavam o impossível, quando invadiam seu território escasso. Julgava os outros por si: capaz de autocríticas tremendas, quase suicidas, imaginava que os demais pudessem pensar e proceder da mesma forma.

Emprestou – e não devia. O amigo desejava, quem sabe, impressionar mulheres imaginárias e, na sua irresponsabilidade de falso Fittipaldi, atropelou e matou uma pessoa. Ninguém viu. O motorista desastrado não parou, não voltou para socorrer a vítima, sequer pôde verificar, olhando para trás, se o homem havia sobrevivido ao choque. No seu desespero, abandonou o automóvel a menos de um quilômetro do local do acidente e fugiu, apavorado.

Carro e corpo seriam encontrados horas depois, na mesma noite. Até a polícia perceberia a relação óbvia entre um e outro. A vítima, homem jovem, solteiro, deixava irmão e mãe.

Foram achar o proprietário em casa, na sua modéstia de fretista, na sua humildade de trabalhador. A certeza era a de que ele havia atropelado o homem. Foi preso. Tirado da cama, confuso, prestou depoimento em que afirmava inocência. Tinha, no entanto, uma parte da culpa e sabia disso: emprestara o carro a um garoto sem habilitações de qualquer tipo, cedera o automóvel a um maluco, a um James Dean. Agora, a cidade o imaginava culpado. Não era – e como prová-lo? Fácil, dirão: bastaria denunciar o amigo, bastaria dizer a verdade. Assumiria a sua parte da falta, não toda a carga.

Na sua náusea, na sua vertigem de santo ou de aprendiz de santo, achava abominável a ideia de delatar o garoto, achava inominável a simples possibilidade de dizer a verdade, a bíblica verdade. “O culpado sou eu”, condenava-se, triturando as unhas.

Restava-lhe uma gota de sensatez e, afinal, os próprios sentimentos não o levariam tão longe. Se não esclarecia a história, deixando a fúria alheia (aquela era uma cidade pequena) sobre as costas do amigo, que talvez a merecesse, tampouco se devia incriminar, calando sobre a relativa inocência. A mania de santo, a presunção de ser perfeito não o tornavam de todo insensato: um último instinto o protegia de entregar-se. Formulou, então, a mentira benigna, conciliatória – disse ter sido roubado. Sim, a caminhonete fora vergonhosamente roubada no dia do atropelamento.

Não pôde provar a inocência, meses depois de iniciada a novela. Por outro lado, não puderam condená-lo, também por falta de provas. Foi declarado inocente por um juiz severo, grisalho, vindo de outra comarca especialmente para o caso. A sentença sairia depois de um julgamento arrastado, com o qual as estações de rádio fizeram a festa; alguns defenderam a féria vendendo pipocas e algodão doce nos arredores da sala vetusta. Voltou livre para casa e, no seu escrúpulo, sem haver delatado o compadre.

Mas uma lâmina aguçava seu fio. A mãe do atropelado, a quem ninguém convenceu de que fosse inocente, ele, o dono de um animal estranho, único nas redondezas, o carro – a mãe, com ódio paciente, induzia o filho que lhe restara a afiar a faca.

Um ano depois do episódio, o rapaz, irmão do morto que aniversariava, saiu em efeméride. Era a data. Não foi difícil descobrir o suposto autor do crime, de pé, em paz com a sua consciência, a pedir café num boteco. O rapaz limara a lâmina por duas, três, quatro horas diárias durante semanas, fanatizado pela ideia e pelo desejo de vingança. Matou-o pelas costas, enquanto conduzia, com a parcimônia que o caracterizava, a xícara à boca.

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