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Literatura

Hilário e o neoliberalismo do amor

Por Fernando Marques

Os leitores certamente conhecem as expressões neoliberalismo e neoliberal. Para os eternos do contra – esse pessoal que insiste em achar que as coisas podiam ser melhores –, neoliberalismo é o regime do vale-tudo, do levar vantagem sempre, da banalíssima lei de Gérson. O reino da indiferença pela sorte do próximo. Neoliberal é, portanto, o adepto desse estado de coisas.

Mas os leitores provavelmente não conhecem o Hilário. Podem acreditar: falta-lhes conhecer o Hilário. Ah, o Hilário! Sujeito fértil em ideias, dado a tiradas, a frases de efeito, a considerações originais. A respeito de si próprio, costuma dizer:

Meu nome é apenas um acidente. Sou um homem sério.

Inclinado a teorizar sobre tudo, Hilário outro dia chegou perto dos amigos – estávamos no bar – com mais uma de suas teses. Dessa vez, no entanto, vinha triste. Estranhamos. Jamais o vemos triste, pelo contrário, só o encontramos radiante. Por que a tristeza, Hilário?

Estamos vivendo a era do neoliberalismo amoroso – respondeu, profundíssimo, as sobrancelhas contritas.

Neoliberalismo do amor? Exato, exato, insistiu o Hilário. Adivinhamos o que lhe passava pela cabeça de cabelos curtos e ideias fartas. Ele havia percebido que certo egoísmo começava a fincar sua bandeira também no território dos beijos e abraços. É isso mesmo, Hilário?

É.

Surpresa unânime: Hilário, lacônico. Hilário, conciso! Hilário, incapaz de se derramar em frases longas, coladas umas às outras como carros de Fórmula 1. Olhem que havia sido convidado a falar; autorizado pelo grupo, ainda assim silenciava. Percebemos que algo não andava bem. E, naquele momento, pudemos notar o quanto prezamos o amigo.

Um de nós, médico, chegou a querer medir-lhe a pressão e a temperatura. Instrumentos clínicos saltaram sobre a mesa, vindos do nada. Outros, sem juízo, quiseram obrigá-lo a beber e se ofereceram para pagar as doses de uísque, desde que genuinamente nacional. Até um dos parceiros, perspicaz, entender tudo:

Hilário está apaixonado – disse, taxativo.

Pior. As paixões do Hilário – no plural – vinham sendo frustradas pelo que ele chama de neoliberalismo amoroso. Nesse novo salve-se quem puder do afeto e do sexo, Hilário vinha sendo o assalariado, o prestador de serviços, o desempregado. Exagero? Talvez. Fala, Hilário, conta, Hilário, desabafa, rapaz. A essa altura, o homem era vítima da mais espetacular das compaixões, coletiva, sólida, exigente e brutal. Fala!

Hilário, vejam vocês, falou. Disse que sua última namorada havia terminado o romance com ele por telefone:

Por telefone! – dizia, aos guinchos. Chorava. E se assoava na toalha.

Quisemos saber por que razão acontecera término tão sumário, tão indelicado, tão avesso a sentimentos civilizados (se é que os sentimentos um dia poderão ser, de fato, civilizados). Mas ele não nos ouvia. Estava tomado pelo demônio da catarse, da descarga emocional, do desabafo:

Duas semanas depois, conheci uma garota. Uma moça, sei lá. Bonita. Inteligente. Mestrado em ciência política. Sensível, carinhosa… – as lágrimas o impediam de continuar.

Fala, Hilário! – a plateia de amigos começava a mostrar impaciência. Ele, com medo de perder a atenção de seu público, a essa altura numeroso – garçons e transeuntes já se aglomeravam em volta da mesa –, continuou:

Conheci a tal garota num bar da Asa Sul. Aquele, onde me cortaram a conta. Conversamos por duas horas no bar, depois fomos a uma festa. Foram quatro horas de conversa. Quatro horas de relógio – bufava, suplicando crédito. Alguém, menos sutil, berrou: “E daí?”.

Fui ao banheiro. Ansioso, voltei logo.

E então? – a plateia não respirava, resfolegava em uníssono. Hilário:

Foi embora sem se despedir e…

Diante de nós, tínhamos um grande ator, senhor da arte das pausas, uma espécie de Paulo Autran sem palco e sem bilheteria. Completou:

Com outro. Foi embora com outro sem se despedir de mim. Outro que ela havia conhecido naquele momento.

Quisemos provas. Como assim, naquele momento? Não era o marido, o namorado, o amante?

Não, não era. E tenho certeza disso porque fui eu que o apresentei a ela.

Silêncio. Podia-se tocar o silêncio com a ponta dos dedos. Até os carros, na rua em frente, pareciam mudos de espanto. Para Hilário, tudo se resumia a um fato social muito simples e muito sério: o neoliberalismo amoroso.

Cada vez ligamos menos para os outros. A dor dos outros nos dá sono – garantia, arriscando-se a nos cansar com as queixas patéticas.

Não quisemos questionar sua autoridade em tais assuntos. Afinal, ele perdera a namorada por telefone e, 15 dias depois, conhecera uma garota que o havia maltratado. Era um mártir, um mártir do amor. Ou melhor, do desamor, da frivolidade, da alegre perversidade moderna.

Saímos antes que o dono do bar resolvesse cobrar couvert artístico. Em meio a muxoxos e tapinhas no ombro, pagamos a conta. A dele não, a nossa.

F.M.

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