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Augusto dos Anjos

Por Lucas Marcelino

Os felizes nunca compreenderão a beleza dos mistérios, nem o mistério das belezas. A única força criadora e redentora é a dor.

Essa verdade já foi muito divulgada pelo mundo das artes. Quantos artistas não precisaram ou buscaram definhar em vida para estimular a criatividade e criar obras inigualáveis em qualidade e sensibilidade.

Se Vinicius de Moraes precisava ser triste para fazer sambas, Augusto dos Anjos precisava ser triste, precisava sofrer para viver.

Augusto dos Anjos enxergava o homem, a existência, a alma, como nada. Sem valor e sem importância. Seus versos são carregados de expressões declinantes tomadas pelo pessimismo de uma existência desventurada. Diversas vezes buscou na ciência evolutiva material para explanar seu pesar sobre a existência humana, como num soneto dedicado a um germe:

 

Antes o nada, oh! Gérmen, que ainda haveres

De atingir, como gérmen de outros seres,

Ao supremo infortúnio de ser alma!

 

Tentou explicitar ao máximo a infelicidade de Ser. Promoveu o desejo infindável de anular sua existência. Não por menos é conhecido como o poeta da tristeza, da amargura:

 

Torne, Dr., esta tesoura, e…corte

Minha singularíssima pessoa

 

Andava pelos cômodos da casa gesticulando e monologando, com a consciência mergulhada na obra que estava criando. Escrevia sempre assim. Repetia os versos até que estivesse o poema por completo e só então trespassava para o papel. Muitas vezes escrevia os sonetos pelo último terceto.

Era assim que preparava para o mundo os poemas que reuniu em seu único livro “Eu”, cujo título mostra um egocentrismo protetor, parece querer afirmar que o próprio ator sofre das piores sortes do mundo. Tenta assim mostrar como pode ser melancólica e infeliz a vida, trazendo para si as dores, colocando-se como único azarado, sem personagens humanos além de si próprio. E assim transformou-se em um dos poetas mais originais da língua portuguesa, esquecido durante muito tempo, venerado hoje em dia.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884, em Engenho do Pau D’Arco na Paraíba. Seu pai, que era bacharel, foi quem o alfabetizou. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano – onde ficou conhecido pela saúde frágil e por ser hipocondríaco e nervoso. Foi lá também que conheceu Santos Neto – a quem dedicou um poema e Órrisis Soares – avô de Jô Soares que se tornou o maior difusor de sua obra. Partiu para Recife, onde se matriculou e formou-se em direito em 1907, mas nunca chegou a exercer a profissão.

Em 1904 publicou no jornal “O commercio” da Paraíba, onde trabalhava desde 1901, o soneto Vandalismo, um dos mais aclamados da sua obra:

 

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

A partir de 1908 passou a trabalhar como professor no Liceu Paraibano, mesmo colégio onde havia estudado, seguindo assim a vida acadêmica em detrimento da carreira de advogado. Casou-se com Ester Fialho em 4 de julho de 1910 e passou a morar no Rio de Janeiro.

Lecionou Geografia na Escola Normal, como professor interino, e também no colégio Pedro II. Foi nomeado diretor do grupo escolar Ribeiro Junqueira, em Leolpoldina, Minas Gerais, para onde mudou-se e faleceu no mesmo ano de 1914, no dia 12 de novembro.

Augusto dos Anjos teve motivos para ser tão rude e desesperançoso nos seus versos. Muitas das suas inspirações vieram de fatos tristes. Nem mesmo seus dois filhos puderam afastá-lo da melancolia. A morte de seu pai em 1905 alimenta três sonetos: “A meu pai doente”, “A meu pai morto”, “Ao sétimo dia do seu falecimento”. Publicados seis dias após a morte. Seu primeiro filho, natimorto em 1911, inspirou o soneto sem título – conhecido pelo seu primeiro verso: “Agregado infeliz de sangue e cal”

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!…

Ah! Possas tu dormir feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!

Aos vários amigos que perdeu em vida, dedicava versos em homenagens póstumas, muitas delas reunidas no seu único livro, “Eu”, com a primeira impressão de 1000 exemplares, custeada por seu irmão ao preço de 550.000 réis. Em 1920 o livro foi republicado pela primeira vez da forma como é conhecido hoje – “Eu e outras poesias” – com o acréscimo de algumas poesias que não estavam no original.

Se hoje o autor ainda provoca certa repugnância, o que se podia esperar de uma época ainda mergulhada nas tradições e nas crenças religiosas? O livro foi recebido pela crítica com grande impacto e principalmente com muita estranheza que ia da repulsa ao entusiasmo pela inovação. Não é difícil imaginar porque o livro e o poeta foram por tanto tempo subestimados, já que na quinta estrofe do primeiro poema do livro – Monólogo de uma sombra, Augusto dos Anjos regurgita com força todas as ânsias do seu penar:

Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…

 

Augusto dos Anjos chocou a sociedade da época, conseguiu ser repudiado por todos. Os versos parnasianos e simbolistas não agradavam aos que seguiam por estas vertentes. Quando o modernismo dominou a literatura brasileira, seus poemas extremamente modernos e vanguardistas não receberam a atenção merecida. Olavo Bilac ao ouvir seus versos por meio de um dos seus poucos fãs teria dito o seguinte: “É este o seu grande poeta? Fez bem em ter morrido”. Ninguém sentia encanto pelo desencanto do poeta com a vida e assim se perdia a chance de saborear a originalidade de poemas como Contrastes:

 

As alegrias juntam-se as tristezas

E o carpinteiro que fabrica as mesas

Faz também os caixões do cemitério

 

A poesia de Augusto dos Anjos surpreende pela incursão de termos científicos que nunca haviam possuído acepção poética e pelo vocabulário rebuscado oriundo da experiência acadêmica. Rimas formadas com nomes de doenças e microorganismos nocivos, com descrições horripilantes de atividades médicas entre outros assuntos asquerosos tomam lugar das tradicionais estrofes reverenciando o amor:

 

O amor, poeta, é como a cana azeda.

A toda boca que o não prova engana.

Amor inclusive é coisa que pouco aparece na poesia de Augusto dos Anjos, talvez uma ou duas vezes em todo o livro:

Sobre histórias de amor o interrogar-me

É vão, é inútil, é improfícuo, em suma

Não sou capaz de amar mulher alguma

Nem há mulher talvez capaz de amar-me

Os títulos de seus poemas são como representantes que vêm à frente espalhando o terror que está por chegar aos olhos do leitor. Psicologia de um vencido, O deus-verme, O caixão fantástico, Súplica num túmulo, entre outros, selecionam os leitores mais corajosos e afastam os mais conservadores. Augusto dos Anjos fez uma poesia paradoxal – escrita para poucos, mas que deve ser lida por todos. Sua poesia é difícil de ser digerida, é fácil de ser descartada e obrigatória como uma vitamina rara, que em falta pode levar-nos para o submundo dos vermes cantado pelo autor. Assim, o poeta conseguiu alcançar o status que determinou para sua existência no poema “O meu nirvana”:

Gozo o prazer, que os anos não carcomem

De haver trocado minha forma de homem

Pela imortalidade das idéias!

 

Ainda há quem renuncie a ter um exemplar de “Eu” na biblioteca, ou quem tampe os ouvidos para seus versos crus, mas não há quem possa negar a importância do Poeta da Amargura para nossa literatura – embora continue fora dos vestibulares e concursos no país – e principalmente não há quem negue sua habilidade para realizar o propósito que impôs para sua vida: Provo que a mais alta expressão da dor/ consiste essencialmente na alegria. E mesmo que seja mórbido, sujo, incompreensivo às vezes, Augusto dos Anjos produziu versos de beleza exuberante, seu mais famoso poema – Versos íntimos – culmina em uma das mais perfeitas reuniões de versos – que falam de amor, enquanto atacam o amor:

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 

Para conhecer mais:

http://www.fortunecity.com/victorian/bolsover/236/index.htm

http://www.memorialaugustodosanjos.com/index.html

 

Para ler seus poemas (na internet)

http://www.revista.agulha.nom.br/augusto.html

 

Obs: São essenciais na obra de Augusto dos Anjos alguns poemas que eu tomo a liberdade de indicar. “O morcego”, “Psicologia de um vencido”, “A idéia”, “Budismo moderno”, “Idealismo”, “Último credo”, “Asa de corvo”, “O martírio do artista”. “Duas estrofes”, “Contrates”, “Versos de amor”, “Vandalismo”, “Versos íntimos”, “Vencedor”, “Poema negro”, “O meu nirvana”, “A um gérmen”, entre outros.

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