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A avó dos meus netos, o pai do novo jornalismo e a lei de Murphy

Por Elsa Villon

Sabe o mendigo sujo na fila da sopa? Imagina que na vez dele, a sopa acaba. Pense na grávida que queria “aquela” caixa de morangos que a velhinha da frente acabou de amassar e vai levar para fazer geléia. Pense na legião de fãs que comprou ingressos e não viu o Michael Jackson. Nos corintianos na final do Paulista, que madrugaram no Pacaembu e não conseguiram nada além de vídeos engraçados de pessoas embriagadas. Pense em todo mundo que algum dia quis muito alguma coisa e por causa da Lei de Murphy, não conseguiu.

Agora começo meu relato. Desde 2007 ouço aulas e aulas sobre o Novo Jornalismo, toda sua revolução, a Revista Realidade e todo o resto das influências americanas que fizeram toda a diferença na imprensa brasileira. Ela se resumia a um nome: Gay Talese.

Livros, aulas, apostilas, provas. Tudo citando esse tal que mudou a forma como eu vou trabalhar. Eis que em plena segunda, um ser de luz, vulgo Paula Franco, me manda uma mensagem via Twitter (alguém finalmente achou uma utilidade para o Twitter!): Gay Talese de grátis (sic) no MASP. Vamos?
Com toda certeza que sim, ainda mais às 19h30 e sendo do lado do meu trabalho. Os ingressos seriam distribuídos à partir das 18h30 e como levo apenas 15 minutos até lá e saio às 18h, isso estava resolvido.

Eis que ontem, às vésperas de sair do trabalho, eu olho no relógio com doce satisfação. Ele marcava 18h04 e eu estava no elevador, feliz por saber que veria essa lenda viva, o pai do novo jornalismo. De graça.
Cheguei na estação Trianon-Masp. Eu, completamente desorientada, questiono ao dono da banca, para que lado fica o MASP. “Na próxima esquina”, ele responde, apressado. Lá vou eu, camelando feliz e ignorando os dedos sendo espremidos pelas botas não laceadas que insistiam em beliscar todos os meus dedos de todos os meus pés (dois).

Estava em frente ao que parecia ser o MASP. Presumi por causa do número de pessoas em frente. A fila contornava toda a entrada e fazia uma curva para dentro, formando um labirinto. “Aqui é a fila para ver a palestra do Gay Talese?”, pergunto, na esperança de que a moça respondesse que não, era apenas distribuição gratuita de cachorros quentes vegetarianos. Mas o “é” dela me quebrou no meio e logo imaginei a probabilidade de ficar do lado de fora.

Enchi-me de otimismo, mesmo procurando inutilmente o ser de luz em algum ponto adiante na fila. Havia ligado para ela, mas como o metrô não tem sinal, não conseguiu me atender. E eu não sabia que ela estava no metrô, mas isso é indiferente. Uns 20 minutos após chegar na fila (mais precisamente 18h18), avisto o ser de luz quase caindo de boca na calçada para me achar. Sorte que fiz uma plaquinha escrito “Paula”, senão ela jamais me veria (momento de sarcasmo, pois a placa era minúscula).

Ficamos na fila, conversando sobre a vida, o Universo e tudo mais. Eu já tinha saído do labirinto porque a fila andou. Estava quase contornando a fila da reta final da fila (é, assim mesmo, complexo uma fila para pegar fila), quando um sujeito alto, com cara de contador simpático se aproximou e informou que até o momento todos os assentos estavam ocupados, depois dali, só entrariam mais 50 pessoas e mais ninguém.

Já estava lá de pé, não custava nada ficar mais um pouco. E assim foi. A fila continuou andando até eu ficar bem perto da faixa que limitava os seguranças e o contador simpático da escada que me levaria ao pai de um estilo jornalístico. De repente ela para. Faltava pouco, mantivemos nossos postos. Afinal, valia a espera. Cada bolha no pé, cada minuto aguardando, cada palavra de incentivo. Vale tudo.

Meia hora após a pausa dos 50 sortudos, a fila começa a se mexer. As pessoas da frente passam. Vou me aproximando da faixa. Estou quase entrando quando surge do além, do nada, do infinito, uma mão composta por um braço e um tronco trajando um terno azul Roberto Carlos que despedaça meus sonhos dizendo “Parou aqui”. Parou na minha vez! Não tinha uma pessoa na minha frente. Eu era a pessoa da frente.

Repleta de perplexidade, não consegui emitir nenhuma palavra. Indignada, o ser de luz diz que acabou é o caramba. Crio forças e solto que sou magra e caberia em qualquer espaço, por menor que fosse. E caso fosse preciso, ficaria no corredor, só ouvindo o Gay Talese falar. O segurança não se convence. Chega novamente o organizador do evento, vulgo contador simpático e diz que ninguém mais entraria, ele lamentava muito. Ninguém mais? Como assim? E eu? E a Paula? A Paula tinha que estar dentro, pelo menos pela inglória piada do Paula dentro. Mas virou Paula fora. Esperamos mais uns 10 minutos depois que os seguranças começaram a restringir a área. Eu ainda carregava um ínfimo fio de esperança. Doce ilusão. Na verdade, amarga.

Após uma hora e quarenta minutos em pé, na fila, prestes a construir a história que contaria para os meus netos (Meu querido, a sua avó viu uma palestra do Gay Talese… ele era tão fantástico), Murphy destruiu minhas chances. Desolada desse jeito, só uma coisa para completar meu “rolê paulistano”: Mc Donald´s. É, Av. Paulista + fila+ Mc Donald´s= Rolê Paulistano.

Elsa Vellon é leitora da Revista Pandora. Tem um texto legal e quer vê-lo aqui? Encaminhe para nossa redação: casting.pandora@gmail.com

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Categorias: Atena, Crônicas do Olimpo, Literatura

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