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Sérgio Porto

Lalau e o retrato sacana do Rio dos anos 60

Por Juliane Freitas

Quem assistiu ao seriado “As Cariocas”, exibido no final de 2009, na Rede Globo. Pode não saber, mas conhece um pouquinho de Sérgio Porto.

A obra homônima que inspirou a série global foi publicada em 1967, ano anterior a sua morte. No prefácio, (nada menos que) Jorge Amado comenta entusiasmado o futuro como novelista do autor, que não se concretizou.

Sérgio morreu de “infarto e trabalho”, segundo seu amigo Paulo Mendes Campos, aos 45 anos de idade. Exatamente hoje completaria 88 anos de vida.

Famoso por suas crônicas humoradamente realistas, era um boêmio carioca típico dos anos 60. No entanto, ao contrário do estereótipo que a boemia carrega, Sérgio Porto era pai de família e muito trabalhador, revezando-se entre programas de TV, rádio e jornais.

Nascido Sérgio Marcos Rangel Porto, na capital fluminense em 11 de janeiro de 1923, passou a vida nas areias de Copacabana, bairro onde nasceu. Foi goleiro de futebol de praia e bancário, antes de se dedicar inteiramente à carreira literária e jornalística.

Mas o escritor fez sucesso mesmo foi com seu heterônimo: Stanislaw Ponte Preta.

A idéia surgiu de outro personagem, de Oswald de Andrade, chamado Serafim Ponte Grande, que deu pano para um livro inteiro do escritor, conhecido por criar e alimentar o modernismo brasileiro. A obra, bastante urbana, fala da cidade de São Paulo, berço do movimento modernista. O protagonista é um burguês paulistano,  despejado por Oswald com um humor ácido e crítico à sociedade das primeiras décadas do século XX.

Porém, o Ponte de Sérgio Porto foi crescendo à revelia de sua própria imaginação- e que baita imaginação ele tinha! Com o tempo, Stanislaw foi ganhando personalidade e até família. Uma bem carioca. Tia Zulmira, Rosamundo, Primo Altamirando…

Stanislaw ficou conhecido como cronista do jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer, extinto em 1991, com a coluna “Certinhas do Lalau”, que elegia as mulheres mais belas do Brasil, entre elas muitas vedetes.

Revolucionou o humor com o seu FEBEAPÁ, Festival de Besteira Que Assola o País, onde forjava notícias ao estilo do atual “Sensacionalista” [www.sensacionalista.com.br], criticando principalmente a ditadura militar, é claro, sem perder a piada.

Também compôs o famoso “Samba do Croulo Doido”, interpretado pelo Quarteto em Cy.

Ouça na versão de Wilson Simonal.

Mas ao contrário do que se pode pensar, Stan – como o chamava Jorge Amado – e Sérgio Porto se davam muito bem. Um não diminuía o brilho do outro. Na verdade, Stanislaw Ponte Preta foi só um nome que Sérgio inventou para um lado brincalhão de sua própria personalidade. Foi por meio desse heterônimo, nunca um codinome, que reproduziu seu olhar atento e observador de jornalista, sempre com muito humor e muita ponta de verdade.

Bibliografia:

Stanislaw Ponte Preta– Tia Zulmira e Eu – Editora do Autor, 1961

– Primo Altamirando e Elas – Editora do Autor, 1962

– Rosamundo e os Outros – Editora do Autor, 1963

– Garoto Linha Dura – Editora do Autor, 1964

– FEBEAPÁ1 (Primeiro Festival de Besteira Que Assola o País), Editora do Autor, 1966

– FEBEAPÁ2 (Segundo Festival de Besteira Que Assola o Pais), Editora Sabiá, 1967

– Na Terra do Crioulo Doido – FEBEAPÁ3 – A Máquina de Fazer Doido – Editora Sabiá, 1968

Sérgio Porto– A Casa Demolida – Editora do Autor/1963(Reedição ampliada e revista de O Homem ao Lado Livraria. José Olympio Editores)

– As Cariocas – Editora Civilização Brasileira, 1967


Alguns textos do autor ainda podem ser encontrados em coletâneas:

O melhor de Stanislaw: crônicas escolhidas, José Olympio Editora

A revista do Lalau – Editora Agir

Para Gostar de Ler. Volume 13 – Histórias Divertidas – Vários Autores – Ática

Pra entender um pouquinho mais sobre Sérgio Porto, leia sua autobiografia, escrita quando tinha 40 anos de idade. Depois, corra à biblioteca mais próxima de você.

“Auto-retrato do artista quando não tão jovem”

“ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.

OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.

PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.

QUALIDADES PARADOXAIS: Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.

PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.

ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.

PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.

SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente qualquer pai-de-santo é um simples cético.

TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não tão boa quanto pensa.

MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).

ORGULHO SECRETO: Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.

Assinado, Sérgio Porto, agosto de 1963.

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Categorias: Atena, Especial, Literatura

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