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Brincadeira séria

Érica Perazza

Foi durante a Idade Média que as feiras e praças públicas viraram ponto de encontro de artistas que preambulavam pelas estradas: os saltimbancos. Esses artistas que se expressavam nas formas mais variadas – acrobacia, equilibrismo, salto, ilusionismo, mímica, ventríloqua, música etc. – exibiam-se ao ar livre para qualquer plateia.

Desde então, o tom sério da sociedade tem sido “combatido” pelo riso. Através do tempo, artistas buscavam burlar a rigidez social. O meio burlesco marcado pela contradição e ambiguidade, influenciou a lógica do circo.

O palhaço de circo possui técnicas para trabalhar na lona diferente do palhaço de teatro. E mais diferente ainda na rua onde o artista possui apenas aquele instante apertado para dar seu show acrobático. Hoje o circo tem uma penetrabilidade muito maior e não deixa mais a cidade como antigamente. Está espalhado nas esquinas, tentando esticar um sorrizinho dos cosmopolitas cinzentos. E o palhaço se estabelece (como os próprios profissionais se definem) como  aquele que se entrega aos seus defeitos, ressalta o pior, mas faz uma piada, perdendo, mas ganhando o riso.

“O palhaço tem o dever de ser sincero e falar o que pensa”. É o que afirma Eduardo Chagas, 21, que faz parte do grupo Esparatrapos existente desde 2006. Composto por 17 palhaços, os atores levam referências do Doutores da Alegria a Charles Chaplin para dentro de hospitais, fazendo palhaçada para crianças e adultos.

Também engajado em causas sociais, inclusive no sertão do Piauí, Eduardo quer levar a frente projetos que possam expandir o papel do clown. “Temos uma conduta na qual não falamos nada sobre vertentes políticas, religião e futebol, mas é importante discutir sobre política em nosso país”. Chagas menciona o livro Palhaço Bomba ( 2009, Parlapatões, Patifes & Paspalhões) o qual o fundador dos Parlapatões, Hugo Possolo discorre sátiras políticas, pensamentos sobre o ofício teatral, questionamentos sobre políticas culturais e ironias sobre a mídia. Ainda, fala de levar o palhaço para as ruas. “O cotidiano de nossa cidade necessita disso”, acredita. E por isso foi uma das aproximadamente duzentas pessoas que marcaram presença na manifestação a favor de artistas de rua realizada no dia 20 de dezembro do ano passado, na Avenida Paulista, região central de São Paulo. A Prefeitura nega, mas artistas têm sido proibidos de apresentar-se nas ruas devido à Operação Delegada. A fiscalização denuncia à polícia os comerciantes ambulantes em situação irregular. Os organizadores da passeata crêem que essa ação é apenas (mais) uma desculpa do prefeito Kassab para retirrar o comércio ilegal das ruas. “Mas o artista não vende nada pirata, e ele recebe doação de quem quiser dar”, indigna-se Eduardo.

Deveria então, o Sr. prefeito retirar todos que pedem esmola e mais, os famosos “flanelinhas” que cobram indevidamente estacionamento de quem deixa o carro na esquina. Já não está incluso nos impostos ridículos e quase inúteis que pagamos?

Fazer uma lavagem na cidade, mas levar o cenário miserável para dentro das escolas e de moradias dignas é uma coisa. Tirar a cultura viva, a identidade da cidade, é outra coisa. Nem um pouco abstrata ou engraçada.

Para mais informações

http://www.Esparatrapo.com.br

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Doutores da Alegria atigem a maioridade

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Categorias: Atena, Saúde, Teatro

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