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Poder e sedução

A Tv e seus encantos

Por Lucas Marcelino

Todos os dias somos atacados por uma arma de destruição em massa. Alheia a censura, independente e poderosa, controlada por poucas mentes manipuladoras, onipresente, literalmente em todos os lugares. Com poder para destruir uma pessoa, um relacionamento, um país. Comunismo, radioatividade, igreja? Não. A televisão!

É incrível imaginar como uma caixa barulhenta se transformou hoje, com a tecnologia, em uma tela que em muitos lares já está chumbada nas paredes. E em muitas pessoas já está fixadas nas meninges.

Quando eu era criança, imaginava que o apresentador do Jornal Nacional, falava com as pessoas. Via minha mãe respondendo aos seus “Boa noites” e achava que ele via na tela das câmeras cada uma das mais de trinta, cinqüenta, cem milhões de pessoas que assistiam aquele programa. Como se ele pudesse enxergar as reações a cada noticia que dava.

Graças a impossibilidade de tal coisa, ele simplesmente lê um texto e adiciona seu carisma, sem se importar – ou mesmo se importando, já que ele não pode emitir opiniões – com o resultado, quase sempre catastrófico, que suas palavras e sua imagem geram nas pessoas.

Com essa idéia, infantil, eu tentava encontrar um lado humano nesse aparelho que nada mais é que a forma perfeita de usar a ciência – a física mais precisamente – para manipular emoções. Nenhuma outra invenção foi capaz de chegar a tal ponto. A televisão não foi criada para pessoas. Ela não é feita para pessoas. Eles a fazem para números.

IBOPE – Instituto brasileiro de opinião pública e estatística. Existiria nome mais apropriado para demonstrar o quão insignificante são as pessoas para a televisão? Talvez tirando o termo “pública”, mas aí perderia o pseudo-humanismo que move as ondas de radiofreqüência. É essa opinião de pessoas inexistentes que determina o prato-feito que será servido pra você sentado aí no sofá.

A arma mais poderosa já criada pelo homem. Inofensiva vista por fora. Uma arma desarmada, algo impensável. Invenção fantástica. Cada vez mais presente e mais aceita. Cada vez maior. Escrevo aqui com uma tela enorme de 29” do meu lado. E há quem invista num quase cinema de 42”. Existem telas de quase 70”, vendidas como status social. Colocadas na sala onde você recebe seu amigos. No quarto onde você descansa e sonha. Na cozinha onde você se alimenta. E até no banheiro onde você defeca – pelo menos aqui, enquanto você consome, já descarta ao mesmo tempo.

As outras armas de destruição em massa queiram ou não, foram capazes de supor e quando não, de forma vaga, lembrar algo útil. Um avanço tecnológico, um avanço social, uma possibilidade de salvação para a humanidade perdida.

A radioatividade proporcionou a bomba atômica, as armas nucleares. Ao mesmo tempo trouxe chance de cura para o câncer, o raio-x tão importante na medicina e outros tantos itens usados diariamente de forma positiva.

A igreja corrompeu os homens e dominou o mundo por muito tempo. Só que criou métodos, ideais e imagens que proporcionaram (e ainda o fazem) o bem, o amor pelo próximo e a solidariedade. Quantas brigas você já assistiu perante um crucifixo pendurado numa parede? Ou dentro de uma sinagoga com pessoas ajoelhadas demonstrando sua devoção e humildade?

O comunismo, sempre confundido com socialismo e corrompido pelo poder – que destrói qualquer projeto sagrado – foi e é responsável pelas maiores ditaduras, desrespeito aos direitos humanos e privação da liberdade. Mas diga de que outra forma você pode imaginar um mundo igualitário e livre da exploração humana. Seja utópico ou não, ainda não surgiu uma forma melhor de colocar as pessoas em um mesmo patamar social. A democracia é um rascunho da própria democracia, ela não existe como foi pensada. E tudo por causa dos próprios homens que manipulam e são manipulados inconscientemente.

E a televisão? O que se pode dizer sobre ela? Trouxe a informação para a massa, foi responsável por momentos de união, transmitiu emoções e sonhos. Sim. Mas foi sempre virtual, foi sempre com os outros, foi sempre “só acontece na TV”.

Tudo é manipulável, em tudo encontraremos a vontade do homem de dominar os outros, mas até hoje não encontramos forma melhor do que a televisão.

A música é terapia, a TV é aprisionamento.

O vídeo-game é descontração, a TV é submissão.

Ler um livro é uma viagem, assistir televisão é uma vadiagem.

O esporte é qualidade de vida, a TV é uma pseudo-morte.

Nós somos fracos, a TV é forte.

A televisão proporciona a vida que não tivemos, emoções que não sentimos – porque não vivemos. A televisão mostra a vida que não existe. Uma existência metafísica.

Desligue a televisão e vá viver!

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Categorias: Crônicas do Olimpo, Especial, Metalinguagem

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