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Música na telinha

Arte em conteúdo

Por Lucas Marcelino

Sente em frente à televisão.

Agora tampe os ouvidos e assista. Depois, tampe os olhos e escute. Qual sensação foi mais agradável?

É, nem todo mundo nota, mas a televisão é extremamente dependente da música, até porque mesmo tendo revolucionado o mundo com a transmissão de imagem, não deixa de ser basicamente uma evolução do rádio.

Os primeiros artistas, as primeiras transmissões e os primeiros programas da televisão são adaptações do que já era produzido no rádio, passando a contar com imagem e com uma nova linguagem, o que não afastou da televisão a necessidade de contar com a música na sua programação.

Não há quem não reconheça através de uma vinheta ou uma trilha sonora algum programa que marcou época. Até mesmo um produto pode ser lembrado quando se ouve aquela música simples, curta e pegajosa – os chamados jingles.

No início do funcionamento das primeiras emissoras de televisão, os programas eram todos ao vivo. A programação, que rolava apenas em algumas horas do dia, era tomada por teleteatros e programas derivados do rádio, além de contar com as mais famosas vozes que agora podiam ser “visualizadas”. Uma das artistas mais famosas a sair do rádio e literalmente aparecer na televisão foi a apresentadora Hebe, que até hoje distribui selinhos por aí.

Em todo o mundo, diversos programas com temáticas musicais surgiram nesses sessenta anos de televisão. E muita polêmica também surgiu com isso. A começar por Elvis Presley que teve a parte de baixo de seu corpo censurada e só podia ser filmado da cintura pra cima em repreensão ao seu jeito de dançar considerado ofensivo e do demônio – como se houvesse lugar melhor para aparecer possuído pelo demônio.

Um dos programas mais famosos da televisão americana – Ed Sullivan Show, que serviu de modelo para o Programa do Jô – também teve momentos polêmicos como quando Jim Morrison, vocalista do The Doors, concordou em trocar uma palavra de uma das músicas do conjunto para evitar o contexto sexual e poder participar do programa. Mas na hora do show, gravado ao vivo na época, ele cantou a letra original, irritando o lendário apresentador e provocando mais uma das suas grandes polêmicas.

A fórmula dos programas musicais muda constantemente, sempre buscando inovação e diminuindo a qualidade – o que não é exclusividade dos musicais. Primeiro foram as apresentações de artistas consagrados, depois vieram os shows de calouros que chegaram a consagrar alguns artistas. Passaram os especiais de fim de semana com as bandas do momento e chegaram os programas que acompanham o dia de trabalho de bandas reveladas e ainda no topo, sem deixar de invadir a intimidade de alguns artistas. Surgiram os quizes musicais e acabaram em concursos onde a interpretação quase sempre torna a música incompreensível. O que se pode dizer é que a música na televisão se tornou – sem trocadilhos – comercial, e perdeu potencial.

No Brasil as fórmulas dos programas musicais não diferenciam muito dos outros países, na verdade são geralmente cópias de programas de sucesso. Mas essa história já foi bem diferente.

No início da televisão brasileira, havia programas – todos ao vivo – onde se faziam números musicais com artistas renomados no rádio. Em seguida vieram os grandes festivais de música, principalmente na Rede Record, onde artistas escreviam suas canções e possivelmente seu nome na história. Esses programas revelaram grandes nomes da música popular e momentos históricos, onde o país chegou ao ponto de se dividir a favor de um ou outro finalista.

Após esses festivais surgiram os programas musicais comandados por aqueles faziam mais sucesso nessas competições. Roberto e Erasmo Carlos comandavam a gangue da Jovem Guarda, com gravações que não perdiam em nada para os grandes shows atuais quando o assunto é tietagem. Chico Buarque e Nara Leão também ganharam um programa e foram tão mal por serem muito tímidos que ficaram conhecidos como os “desanimadores de auditório”. Elis Regina também teve seu programa.

Quem sabia realmente animar um auditório era Wilson Simonal. Além da qualidade vocal e do sucesso como compositor e intérprete, durante os intervalos do programa que tinha na TV ele entretia o público com números irreverentes, como quando manteve a platéia cantando por mais de trinta minutos a música “Meu limão, meu limoeiro” – que possui apenas uma estrofe – em diferentes tons e intercalando entre a vez dos homens e das mulheres.

Wilson Simonal não foi o único artista relacionado à música que parou na televisão. Diversos cronistas, apresentadores, músicos, repórteres, etc… trocaram ou acumularam seus fãs auditivos pelos visuais, como o ex-galã e cantor Ronnie Von ou o produtor e historiador Nelson Motta.

Nos últimos anos a televisão vem explorando a música de formas diferentes e irritantes. Além das trilhas de novelas – geralmente de mau gosto e baixa qualidade – os programas que apresentavam perspectivas interessantes na música são cancelados após pouco tempo de vida, como o “Manos e Minas” da Tv Cultura que trazia a público a cultura musical negra ou o “Som Brasil” e o “Por toda minha vida” na Rede Globo, que retratam a carreira de grandes músicos e embora no primeiro caso já tenha anos de gravação, continuam jogados para as madrugadas de sábado uma vez por mês, praticamente sem divulgação.

Sobram hoje, para quem gosta de música, a alternativa entre reservar os poucos horários onde são apresentados musicais interessantes em emissoras menos vendidas ao Ibope ou assistir a números de imenso mau gosto nos já saturados programas dominicais de auditório, onde tudo é liberado, até mesmo os Mamonas Assassinas cantarem palavrões que eu lembro de ter apanhado ao dizer pela primeira vez próximo dos meus pais ou os bondes de funk carioca apresentarem suas cachorras seminuas.

Se fizéssemos um concurso de calouros com todos os programas da televisão brasileira, nem mesmo os musicais mereceriam a vitória. É triste, mas é melhor ouvir certas coisas do que ser surdo. Ou não.

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Categorias: Atena, Especial, Música, Metalinguagem

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