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Censura às avessas…

Por José Salvador Faro

Li no site de O Globo uma notícia curiosa: segundo orientação do MEC, O livro de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho, vai continuar sendo usado em sala de aula…. A manifestação do ministério vem a propósito de uma recomendação feita pelo Conselho Nacional da Educação para que a obra fosse retirada das escolas, fato que desencadeou uma justificada onda de protestos. Para acomodar a situação, Caçadas de Pedrinho chegará aos alunos (e aos professores) acompanhado de “uma explicação sobre o contexto em que foi escrito”. O objetivo é evitar que as abordagens racistas de Lobato sejam aprendidas ao pé da letra pelos estudantes.
Penso que tanto a recomendação do CNE quanto a tal nota explicativa exigida pelo MEC são duas manifestações de uma censura às avessas e uma inadmissível intromissão do Estado na liberdade de criação e de fruição da obra de arte. Aplicadas com rigor a todo o conjunto da produção literária que povoa o ensino em todos os níveis, ambas as restrições – a do Conselho e a do próprio MEC – seria preciso fazer, logo de cara, uma releitura de todo o romantismo de Alencar, de Macedo; e a todo o realismo de Machado; sem falar em obras universais como as de Stendhal, Zola, Dickens etc, já que, sem exceção, todas traduzem conceitos de natureza ético-política próprios da conjuntura cultural em que foram criadas. Imagino o que aconteceria com A cabana do pai Tomás; com a Bíblia então…
Não vejo no CNE nem muito menos no MEC competência intelectual para decisões dessa natureza. E o que é pior: imaginar que a leitura da obra de Lobato (feita de forma analítica como eu suponho que ocorra nas escolas com essa e com todas as obras de todos os autores de todas as épocas) possa se contrapor ao avanço que a sociedade brasileira registra no campo da legitimidade cultural, política e jurídica das relações raciais é subemestimar o próprio processo educacional, enventualmente o próprio amadurecimento experimentado pela sociedade brasileira.

Acho que não precisamos disso, ou ninguém entendeu a reprovação geral que as manifestações de preconceito no twitter ocorridas nesta semana receberam?
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Em tempo: depois de postado o comentário, lembrei de O mercador de Veneza, de William Shakespeare. Lá pelas tantas, já diante do Doge que vai presidir o direito que Shylock, um judeu, reivindica de cobrar o naco de carne que lhe é devido, o personagem Antonio diz: “Por obséquio, refleti que tratais com um judeu. (…) o que pode ser mais duro do que um coração judeu?”.

Ocorreria a alguém censurar Shakespeare como anti-semita? E no entanto, O mercador de Veneza é uma obra prima da literatura universal, entendido no seu tempo e fora dele como um retrato da cobiça versus a Justiça, apesar da marca que pesa sobre Shylock.

Confira esse e outros posts aqui

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Categorias: Atena, Educação e História, Literatura

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um comentário em “Censura às avessas…”

  1. Eduardo Aguilar
    9 de novembro de 2010 às 12:31 #

    Não vamos distorcer os fatos:

    Dos comentários de uma leitora do blog do Luis Nassif:

    “Reconhecendo o importante lugar clássico da obra de Monteiro Lobato, especificamente do livro “Caçadas de Pedrinho”, e não querendo incorrer em nenhum tipo de “patrulha”, mas sendo coerente com todos os avanços da legislação educacional brasileira, o Parecer discute o tema e apresenta sugestões e orientações ao MEC, à editora e ao campo da formação de professores. Uma delas é a de que a editora em questão (e outras que publiquem obras de igual teor) tome o mesmo cuidado ético em relação à temática étnico-racial, como o já adotado em relação à temática ambiental, ou seja, no caso de o livro ser publicado, que nele seja incluída uma nota de esclarecimento e contextualização da obra de Monteiro Lobato, explicitando não somente o valor literário da mesma, mas, também, as análises críticas que apontam e discutem a presença dos estereótipos raciais no livro em questão.”
    “O Parecer sugere, ainda, que o processo da formação de professores da educação básica inclua o estudo crítico sobre o assunto. Em momento algum o CNE julga ou menospreza os professores. O CNE sabe muito bem que os clássicos são produtos da sua época. Porém, também sabe o quanto o imaginário social brasileiro alimenta, até hoje, noções e visões estereotipadas sobre o Negro e a África e o quanto ainda persiste entre nós a desigualdade racial. Tudo isso tem sido insistentemente apontado pelas pesquisas acadêmicas, pesquisas oficiais e pela própria mídia. Nesse sentido, banalizar a importância do debate político sobre o tema, desviando o relevante posicionamento do CNE para uma questão de censura é, no mínimo, uma atitude inescrupulosa. A decisão do CNE é pública e está aberta para o conhecimento de toda a sociedade. Entretanto, que isso seja feito de maneira séria, responsável, ética e respeitosa. É importante que os leitores da Folha acessem o portal do MEC (http://www.facebook.com/l/4d400;portal.mec.gov.br/cne) e leiam o parecer na íntegra. Com a leitura poderão facilmente comprovar que a Folha distorceu o Parecer do Conselho Nacional de Educação.”

    Penso que em casos como esse, aqueles que se posicionam rapidamente alegando haver censura, me parecem pessoas acríticas, dispostas a taxar qualquer atitude do governo atual com essa pecha autoritária. Convém ler melhor os textos originais e não se deixar levar pela versão da imprensa, esta sim, mais disposta a censurar através da manipulação e desinformação.

    Não acho que exista uma versão da verdade, minha ou de outros, acredito mais na construção da dúvida, por isso, acho que é preciso dar espaço para todos os ângulos de uma notícia.

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