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Domingo

Por José Salvador Faro

Há alguns anos tive minha atenção chamada para uma foto publicada
com destaque na primeira página de quase todos os grandes jornais
brasileiros. Estava lá em Londres, desfilando em carro aberto, ao lado da
rainha Elizabeth, o líder sul-africano Nelson Mandela. A imagem me tocou
particularmente porque, na mesma época, ganhava fôlego na universidade
uma tosca e estéril discussão sobre a possibilidade de que a História tivesse,
com o fim do socialismo, deixado de existir. O formulador dessa hipótese,
um funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, munia-se
de uma dose formidável de argumentos para comprovar que, com a vitória de seu país sobre a União Soviética, ao final dos anos 80, o projeto humano
da construção social havia sido concluído, não restando mais as contradições fundamentais que tinham servido de impulso revolucionário por tantos anos seguidos. Fukuyama: esse era o nome do diplomata que defendia aqueleque seria um dos principais axiomas do neoliberalismo: o fim da História.

Ora, a imagem de Nelson Mandela desfilando pelas ruas de Londres e
sendo aplaudido por multidões de ingleses, dizia justamente o contrário. A
História não só não tinha acabado como estava ali, aceleradíssima, naquela
cena repleta de simbologia: o negro sul-africano, dirigente político de uma
sociedade marcada pela segregação, ao lado da fina-flor do império branco
e colonial, fazendo brilhar sua presença pela conquista da vitória sobre a
opressão, inaugurando aos olhos de todos uma era cheia de graça para
aqueles que haviam sido vitimados pelo apartheid, pela exploração ampliada
do homem pelo homem, que é como eu costumo definir o racismo. Não é à
toa que Mandela é um dos dirigentes políticos mais importantes da história
contemporânea; ele é a própria encarnação de um processo que não tem
fim. E o que é mais animador: não tem fim e que segue, inexoravelmente,
o sentido de uma teimosia – a teimosia da justiça social. Pode demorar
muito, pode demorar mais que um século, pode ser desanimador observar
o tempo e o quanto ele tarda para que as coisas fiquem em seus devidos
lugares, mas é inevitável que algum dia, de alguma forma, aberta ou
disfarçadamente, ele – o tempo – cobre o seu preço daqueles que insistem
em ir no sentido contrário. Se Fukuyama viu a mesma foto que eu vi,
certamente deve ter ficado decepcionado com sua tese.

Pois bem, por que tudo isso? Porque daqui a alguns dias, no domingo, o
mesmo domingo que meus avós diziam ser um dia que “pede cachimbo”,
uma dia letárgico, de missa e de vestido novo, de sapato engraxado, de
brilhantina no cabelo e de banho tomado, vamos assistir a um desses

momentos únicos para todos nós, brasileiros. Eu não sei quem será eleito,
mas me deixa orgulhoso esse caminho percorrido por nossa sociedade.
Reclamamos tanto dela, temos um tal vezo em apontar seus vícios, essa
suposta alienação sempre presente no nosso povo, que somos capazes de
deixar escapar a observação, tão sutil quanto profunda, de que estamos
às vésperas de um feito considerável, qual seja o de uma população
secularmente espoliada assumir um pouco mais em suas mãos o seu
destino, a sua história. Observem que não estou falando de coisa pequena.
Estou me referindo a milhões de votos, um contingente de eleitores superior
à população da esmagadora maioria dos países. Uma verdadeira “enchente
amazônica, uma explosão atlântica”, como disse certa vez o Chico Buarque
numa de suas melhores criações poéticas. E nem estou falando de uma
manifestação popular secundária. Ouso mesmo afirmar que as eleições de
domingo colocam nosso país no núcleo principal da política internacional
e podem até representar uma grande compensação para toda a reação
conservadora em que o mundo tem vivido nos últimos 30 anos.

Tudo isso, num breve, único e prosaico domingo.

Se vocês me permitem a liberdade, faço uma sugestão: aproveitem o dia.
Votem cedo e saiam pela cidade; respirem fundo e procurem perceber
na fisionomia da massa o meio sorriso de festa que durante muito tempo
pensávamos ser possível apenas no carnaval e no futebol. É um enigma que
os anos da ditadura militar não conseguiram decifrar, que as oligarquias de
dentro e de fora do país desprezaram, que os tecnocratas pensavam que
fosse consumo.

Não era nada disso. Era apenas a história sendo contida e represada.
Tomara que dê tudo certo.

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Categorias: Política Internacional, Política Nacional

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