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Cultura: consumo ou experiência estética?

 

Por Verônica Gonçalves 

            O que é cultura?  O que ela representa na vida das pessoas? Como a população consome os chamados produtos culturais? Como investir em cultura? Esses e outros tantos questionamentos foram discutidos durante o seminário Como Investir em Cultura? no dia 21 de outubro de 2010 na Estação Pinacoteca (São Paulo).

        
O evento é parte integrante de uma pesquisa realizada por meio da parceria CPFL Energia, Datafolha, Instituto Getúlio Vargas e a consultoria J. Leiva Cultura & Esporte, que tem por objetivo a profissionalização do setor ligado a produção cultural. Como essa preocupação mais mercadológica começou na década de 1980, faltavam muitos dados que pudessem auxiliar as políticas públicas ligadas a esse assunto. Embora o IBGE já tivesse alguns estudos que analisassem alguns aspectos desse setor, o Brasil ainda não tinha uma pesquisa que entendesse o que as pessoas entendem por cultura e como elas consomem esses produtos.
A primeira parte do projeto foi uma pesquisa que contemplou 2414 entrevistas em 82 cidades do estado de São Paulo com pessoas a partir dos 12 anos. Essa etapa foi do dia 24 de agosto ao dia 20 de setembro de 2010. A segunda parte foi o debate do dia 21 de outubro com os dados apresentados sem a análise definitiva.  O SEMINÁRIO
 
PRIMEIRA MESA: O que é cultura? O que ela representa para as pessoas? Da arte ao entretenimento
Debatedores: Laís Bodanzky (cineasta), Teixeira Coelho (MASP) e Tales Ab’ Saber (psicanalista)
Mediação: Marcelo Araújo (Pinacoteca)
 
SEGUNDA MESA: Infraestrutura e acesso. Cultura nas pequenas, médias e grandes cidades
Debatedores: Mário Mazili (CPFL Energia), André Sturm (Secretaria do Estado e da Cultura) e Cristina Lins (IBGE)
Mediação: Robinson Borges (Valor Econômico)
TERCEIRAMESA: Economia da Cultura, informação e Indicadores
Debatedores: Gilberto Dimenstein (Folha de São Paulo), Eduardo Saron (Itaú Cultural) e Marcos Gonçalves (FGV)
Mediação: João Leiva (J.Leiva Cultura & Esporte)
 
QUARTA MESA: Hábitos Culturais. A importância da Educação
Debatedores: Denise Grinspum (Arte na Escola), Paulo Pélico (Apetesp) e Ricardo Szperling (Cinemark)
Mediação: Ana Pausa Sousa (Folha de São Paulo)
 
AS REFLEXÕES
           
A cultura é um conceito complexo que pode englobar desde a realização de atividades como ir ao cinema e ao teatro, até as ações cotidianas que marcam a identidade de um indivíduo ou de um povo. Além disso, ela possui ao menos duas dimensões importantes: uma é como produto de consumo e a outra é como criadora de uma consciência crítica. Mesmo que ela esteja cada vez mais subordinada aos interesses econômicos, essa dimensão libertadora da cultura nunca é desconsiderada nos debates. A idéia é que o acúmulo de capital cultural permite ao sujeito transitar por diferentes campos de conhecimento, tornando-se mais complexo cognitivamente e levando a uma maior articulação nos espaços sociais. (Alguns defensores desse pensamento até usam o termo evoluído)
A necessidade de uma “burocracia profissionalizante” em relação às políticas públicas ligadas ao segmento cultural ainda é muito recente no Brasil. O economista Marcos Gonçalves atribui essa mudança de pensamento a três fatores: a universalização dos direitos representada nesse caso como o acesso ao estudo, o aumento no poder de compra da classe C (nova classe média) e um incentivo familiar. Mesmo que a educação não seja de qualidade (o jornalista Gilberto Dimenstein reiterou que apenas 5% dos brasileiros saem do ensino médio com acúmulo de conhecimento coerente com o tempo que passaram estudando) a escola foi avaliada tanto pelos pais quanto pelos alunos como ponte para o contato com alguns produtos culturais (teatro especialmente).
Contudo essa relação educação/cultura está cheia de contradições. A primeira delas é a de que pesquisas recentes mostraram que o professor não está familiarizado com esse universo (a situação é mais grave no que se refere aos museus). Boa parte deles não tem o hábito de transitar por ele. A segunda é que o fato da escola promover esse intercâmbio eventual não tem estimulado os alunos a continuarem explorando esses novos mundos. Isso acontece porque a utilização dos produtos culturais é apenas de maneira didática, ou seja, um professor pode usar um filme que trate do nazismo para facilitar a compreensão desse tema, mas não consegue demonstrar que o trânsito por essas obras desenvolve uma mentalidade crítica. Tal consciência só ocorre nas pessoas que já tem uma bagagem cultural familiar.
Essa realidade levou a uma das questões mais importantes do debate: Será que os produtos desenvolvidos até agora tem boa qualidade ou as pessoas não se sentem atraídas por eles? Sendo que a maior preocupação do mercado hoje é com a emergência da classe C. Isso porque a indústria cultural é tradicionalmente voltada para as classes A/B, de modo que hoje vem se tentando pensar em algo que satisfaça os anseios de todas as camadas sociais.
Ao mesmo tempo há uma inquietação sobre a melhor forma de empregar o dinheiro público no setor cultural. Essa polêmica foi levantada pelo projeto do cartão Vale-Cultura (benefício de 50 reais que será dado àqueles que ganhem até cinco salários mínimos). A grande crítica ao projeto é a de que as pessoas não ampliariam sua consciência crítica, porque gastariam esse dinheiro com coisas que já sejam familiares. Ao invés de ir num concerto de música clássica, por exemplo, elas possivelmente prefeririam comprar um cd de alguma banda já conhecida.  Gilberto Dimenstein e André Sturm foram defensores no incentivo da diversidade de expressões culturais. A própria CPFL já teve uma experiência positiva nesse sentido. Ela investiu em apresentações de música erudita contemporânea que contava com um público de 15 pessoas nos primeiros anos e atingiu marcas próximas a 200 pessoas nos outros anos.
Os levantamentos realizados nos últimos 30 anos também apontaram uma carência de infraestrutura (centros culturais, cinemas, teatros, museus, entre outros).  Por mais que tenha havido mudanças significativas nesse cenário, muito ainda precisa ser feito para tingir um nível de excelência. E para piorar esse quadro Dimenstein também apontou uma falta de divulgação dos eventos que acontecem a preços populares, pelo menos na cidade de São Paulo. Tais fatos contribuem para uma insatisfação das pessoas no que diz respeito ao consumo cultural. Tudo isso é reflexo de um setor que cresceu por meio de crenças que não tinham um fundamento empírico. Quase não existia um parâmetro quantitativo para fazer a avaliação desse setor.
O fim do debate mostrou que ainda existem muito mais dúvidas do que certezas no que diz respeito às políticas culturais. Mesmo com o interesse crescente de diversos setores da sociedade, ainda hoje o Ministério da Cultura possui orçamento mais baixo de todos os outros, como expôs o Paulo Pélico. Resta acompanhar as outras discussões sobre o tema. 
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um comentário em “Cultura: consumo ou experiência estética?”

  1. 26 de outubro de 2010 às 18:59 #

    Olá,

    Meu nome é Ricardo, trabalho na Produção On-Line do Avesso, uma TV 2.0 que mostra os bastidores da comunicação. ( http://www.avesso.com.br).

    Fiz uma visita ao blog, parabéns pelo trabalho.

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    ____________________
    http://www.avesso.com.br

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