Anúncios

Treme-treme

São Vito será demolido em fevereiro

Implosão do edifício não resolverá os problemas do centro de São Paulo

 Adriano Lira

Treme, treme e vai cair. Após anos de indefinição o Edifício São Vito finalmente tem data para ser implodido: fevereiro de 2011. Localizado no Parque Dom Pedro, região central de São Paulo, o Treme-Treme, como também era conhecido o prédio, foi inaugurado em 1959 e está desabitado desde 2004, quando as últimas 140 famílias deixaram o local. A implosão é uma das medidas de revitalização da região, tomada por usuários de crack e moradores de rua. No lugar do prédio, deve ser construída uma praça de 5400 metros quadrados.

Com 26 andares e 624 apartamentos, o São Vito foi projetado para abrigar profissionais liberais e a classe média, mas atraiu a população mais heterogênea de São Paulo: migrantes nordestinos, imigrantes bolivianos, prostitutas e pessoas sem um salário fixo. Em seus tempos áureos, chegou a ter três mil habitantes. “Cheguei a dividir meu apartamento com quatro rapazes da minha cidade”, afirma Gilmário da Silva, encanador e antigo morador do prédio.

O apelido Treme-Treme, segundo Gilmário, não surgiu pela precariedade do prédio, mas pela bagunça que toda a heterogeneidade de tipos trazia. “O prédio é firme, foi construído com materiais resistentes. Mas aqui você via tanta bagunça e festanças que realmente tínhamos a impressão que o edifício tremia”. Apesar de tanta confusão, a união entre os vizinhos era uma das particularidades do prédio. “A grande maioria dos moradores era pobre. Como pobre adora uma festa e sempre se ajuda, posso dizer que este foi o melhor lugar em que vivi”, conta o encanador, que saiu do São Vito em 1999 e hoje mora em um prédio na Rua Santa Ifigênia, também no centro.

A precariedade sempre foi uma característica do prédio. Em 2002, 80% das instalações elétricas do prédio eram gambiarras e havia vários apartamentos divididos em dois, com o uso de divisórias. Apenas um dos três elevadores construídos funcionava na época, prestando serviços apenas até o 15° andar, o que ocasionava filas de até 30 minutos em horário de pico. Em alguns momentos, a coleta de lixo era suspensa, o que fazia com que os moradores jogassem os seus detritos no Rio Tamanduateí.

Quando houve a saída das 140 famílias restantes, em 2004, noa gestão de Marta Suplicy, os moradores ganharam um “cheque-despejo” de R$ 300, que seria pago mensalmente para auxiliar o pagamento dos alugueis. A intenção inicial era de reformar o edifício, revendendo os apartamentos, posteriormente, com prioridade de negociação dos antigos moradores. Quando José Serra assumiu a prefeitura, foi solicitado um empréstimo de US$ 6 milhões, que foi negado. Finalmente, na gestão de Gilberto Kassab, foi criado o projeto atual, de uma praça integrada ao Parque Dom Pedro.
Insatisfeito com a decisão, o defensor público Carlos Henrique Loureiro elaborou uma ação civil pública contra a demolição do São Vito e de seu vizinho Mercúrio, desocupado no ano passado. “O cheque-despejo é uma falta de respeito. Em qual local de São Paulo há alugueis custando R$ 300? Apenas em outros prédios, também degradados, do centro de São Paulo. Com o déficit habitacional gigantesco que temos em São Paulo, é inadmissível destruir dois prédios para construir uma praça”, alega.

Também é discutível se a praça é a melhor construção após a demolição da estrutura. “O São Vito são obras incompatíveis com a escala que deve ter o parque. Além do mais, não existem mais moradores naquela região. Quem iria visitar a praça?”, declara Fernanda Caldarelli, arquiteta. A segurança da região também é um fator crucial para a nova obra. “Os usuários de drogas e mendigos, que hoje invadiram o São Vito, simplesmente passariam a frequentar a praça. E quem se atreveria a freqüentar uma praça dessas?”, questiona o defensor Loureiro.

O que fica aparente é que a demolição do Treme-Treme e do Mercúrio não resolverá os problemas da região. A criação da praça pode atrair os mesmos indivíduos que perambulam pelas ruas do centro e se abrigam nos edifícios. As pessoas despejadas pela prefeitura provavelmente continuam em habitações precárias, não muito distantes dali. O Treme-Treme pode finalmente cair, mas, ao que tudo indica, isso não levantará o centro.
Anúncios

Tags:, ,

Categorias: Hades

Pandora nas redes sociais

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

um comentário em “Treme-treme”

  1. Tania
    29 de junho de 2011 às 21:51 #

    deveria virar um centro empresarial, com consultorios médicos , salas comerciais, enfim um grande centro com estacionamento.. o problema todo é virar uma crackolandia, irá espantar todos os frequentadores da 25 de março, mercadão, enfim…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: