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Nobel de Literatura: arte nas crônicas ou política nos romances?

Por José Faro

Sempre me intrigou o fato de que Vargas Llosa ainda não tivesse recebido o Prêmio Nobel. Li boa parte de sua obra e alguns de seus livros – à semelhança de Astúrias e de García Marquez – me pareceram registros ficcionais precisos sobre o universo latinoamericano, carregados de uma simbologia oscilante entre o mítico e o político, todos eles merecedores dessa que é a maior distinção da literatura mundial. Evidentemente, não vou me dispor a questionar os critérios da Academia Sueca, até porque há outras lacunas entre os premiados e os membros do “juri” devem ter lá seus motivos para decidir sobre uns e outros.

Vargas Llosa

O que me chamou a atenção, portanto, não foi a concessão do prêmio, de alguma forma aguardado, mas sua justificativa: a escolha foi motivada pela “cartografia das estruturas de poder e afiadas imagens de resistência, rebelião e derrota do indivíduo” que marcam a obra do escritor peruano. Quer dizer, Llosa recebeu o Nobel não por qualquer experimentalismo estético ou expressivo, mas pela natureza essencial de sua produção literária, isto é, o foco dirigido àquela que tem sido invariavelmente a razão pela qual outros tantos Nobel de Literatura são concedidos: a produção de uma narrativa que busca entender e revelar questões humanas fundamentais do mundo contemporâneo. Nesse sentido, a obra de Llosa – segundo entendo – é carregada de uma significação universal que ultrapassa o episódico que acompanha os temas com os quais trabalhou em seus romances, versem eles sobre a Guerra de Canudos (em A Guerra do Fim do Mundo) ou sobre a República Dominicana de Trujillo (em A Festa do Bode). Esse é, na minha opinião, o reconhecimento de que estamos diante do vasto alcance político da Literatura produzida pelo peruano, de onde se desdobra – e se reconhece – seu mérito.Aliás, o próprio Llosa, na introdução que escreveu à antologia A cultura do Romance, organizada por Franco Moretti, revela esse seu compromisso ao afirmar que, no mundo moderno, o “conhecimento totalizador (…) do ser humano, hoje, encontra-se apenas no romance”, talvez mais do que nas Ciências Sociais ou nas Humanidades, descaracterizadas por seus especialismos e por embates metodológicos que se sobrepõem aos objetos de seus estudos. É nesse mesmo texto que o autor de Pantaleão e as Visitadoras afirma que a boa literatura é “sediciosa” e “alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade”. Tenho a impressão de que foram essas as sensações que tive ao término da leitura de cada livro de Llosa.

O Nobel de Literatura, por conta disso, sinaliza para uma premiação inescapavelmente política, mas não propriamente referida à crônica, às eventuais posições liberais do escritor, ao seu anti-chavismo ou o quer que seja, pois que são manifestações menores e circunstanciais no amplo quadro de sua produção artística. Confundir a obra de Llosa com isso seria o mesmo que confundir o aristocratismo de Tolstói com a qualidade literária de Guerra e Paz.
Procurei ler boa parte das matérias e entrevistas que foram publicadas sobre Llosa nos dias que se seguiram à notícia de sua premiação. E foi esse paradoxo apontado acima que percebi nos suplementos ou seções de Cultura que trataram do assunto: uma insistência descabida – e oportunista, se pensarmos no momento político brasileiro – em destacar um suposto ultraliberalismo de Llosa como sua virtude fundamental (enfoque no qual os estrevistadores não foram bem sucedidos, já que o próprio escritor relativiza essa lógica com argumentos que passaram despercebidos em diversos momentos) e que o qualificava mais como cronista do que como escritor. Ruim para o Jornalismo Cultural que se deixou levar por isso, perdendo uma grande oportunidade de produzir matérias de maior envergadura analítica no próprio território da Literatura; muito pior para os leitores que acabam não conseguindo distinguir uma coisa da outra.
 
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Categorias: Atena, Literatura

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