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Dossiê Petróleo

Ouro Negro

A matéria orgânica presente na política e na indústria

por Lucas Marcelino

Petróleo. O combustível perfeito para alimentar as maiores ambições de uma nação abençoada por Deus e amaldiçoada por alguns homens maliciosos. Mas o que é e o que pode de fato fazer o petróleo?

O Brasil faz festa banhado em petróleo desde 2006, quando ele se tornou o maior amigo do governo brasileiro e a maior benção para um país em desenvolvimento. Com a descoberta do pré-sal no litoral brasileiro, o mundo passou a valorizar o Brasil e até os nativos passaram a sentir mais orgulho da nação, enquanto que os ambientalistas passaram a ter mais uma dor de cabeça. E isso é só o início do poder deste líquido, que está presente da indústria automobilística até a indústria cosmética.

A origem do petróleo não é mistério pra ninguém. Sua professora de ciências  pregava aos quatro cantos a formação do petróleo através de matéria orgânica acumulada entre o manto e a crosta terrestre. Todavia, existe uma frente na ciência (são inúmeras frentes existentes, talvez pra evitar que cheguemos a conhecer algo ao fundo) que defende uma origem inorgânica do petróleo.

O mais aceitado é que o petróleo surgiu pela decomposição de matéria orgânica depositada no interior da Terra, por meio da longínqua existência desse planeta onde se viu – ou imagina-se – quedas de meteoros, eras glaciais e outros acidentes sem grandes proporções. Cada um desses acidentes teria provocado a morte de inúmeros seres vivos, que teriam sido soterrados por outras camadas de terra (leia-se diversos elementos químicos). Esses restos mortais teriam dado origem a principal rocha geradora de petróleo, o querogênio, formada de sedimentos ricos em matéria orgânica a alta temperatura e pressão. Com o aumento da temperatura, esse querogênio sofreria uma quebra de suas moléculas, gerando óleo e gás que migrariam até bolsões conhecidos como rochas reservatório, que são permeáveis e permitem a passagem do líquido. Sobre ela existe a rocha selante que detém sua caminhada subterrânea. Estes locais seriam os atuais campos de extração que podem unir ou dividir uma nação e que seriam limitados, proporcionando também a quebra de bolsas de valores.

A teoria opositora mais difundida – proposta por Berthelot e Mendeleiev – diz que o petróleo tem uma origem inorgânica – não formada por seres-vivos e sim por um material primordial acumulado numa parte mais profunda da Terra, o manto. O principal material primordial do petróleo é o metano, muito encontrado não só nos gases das vacas, mas também no interior da Terra e que pode formar outros hidrocarbonetos (compostos que possuem apenas hidrogênio e carbono na sua composição química). Além do mais, os hidrocarbonetos presentes no petróleo seriam formados pela reação da água com carbetos metálicos (hidrólise) que causaria a quebra dessas moléculas.

Essa teoria existe desde o século XIX, mas foi “modernizada” pelo geólogo russo Nikolai Alexandrovitch Kudryavtsev na década de 50. Por meio de uma análise geológica dos arenitos betuminosos – solo com características arenosas e grande mistura de hidrocarbonetos – do Canadá, ele concluiu que nenhuma rocha-geradora poderia produzir o volume de hidrocarbonetos existentes ali, sugerindo que eles viriam de áreas mais profundas da Terra como o manto terrestre, sem contato com carbono orgânico. Sendo assim, o petróleo não seria mais limitado, pois o carbono e o hidrogênio estão entre os compostos mais abundantes no universo, sendo encontrados inclusive na forma de hidrocarbonetos em outros planetas. E a rápida formação dos reservatórios não condiz com a lenta formação orgânica. Experimentalmente, nenhum óleo obtido de forma orgânica em laboratório, tem composição parecida com o petróleo cru.

Seja qual for a origem o petróleo é composto por inúmeros tipos de hidrocarbonetos, que se misturam formando um líquido oleoso e inflamável, que de nada serve na sua forma bruta, exceto para “pegar fogo”. Aqui saímos das eras e estudos geológicos para as eras e estudos sociais e históricos.

O primeiro indício de utilização de petróleo foi obtido no Oriente Médio, onde ele foi descoberto através de vazamentos para a superfície. O betume era usado para pavimentar estradas – uma espécie de tataravô do asfalto – e para vedar grandes construções. O processo de refino foi criado em 1850. Nele os diversos compostos são separados por aquecimento (craqueamento), onde os vapores de óleos mais leves como a gasolina e o diesel tendem a alcançar temperaturas mais leves que óleos pesados como os lubrificantes e são recolhidos por tubulações para reservatórios. O Azerbaijão era o principal produtor na época, em seguida a abertura de poços se espalhou por todo o mundo. No Brasil, o primeiro poço foi perfurado no interior de São Paulo, com o resultado mais esperado – nada de petróleo. A primeira refinaria brasileira utilizava petróleo importado de outros países sul-americanos. Após a segunda guerra mundial, junto com o sentimento nacionalista, surgiu grande movimentação para nacionalização do petróleo brasileiro, que praticamente nem existia, sendo formada por Getúlio Vargas a Petrobras – atual quarta maior empresa do mundo. Na década de 70 a Petrobras passou a procurar petróleo em alto mar, seguindo a indicação de que o petróleo está depositado em pontos de encontro entre a crosta e o manto terrestre, como os limites entre as placas tectônicas. Por isso não foram encontradas grandes quantidades de petróleo em solo brasileiro, que está no meio da placa sul-americana.

Como você não acessou um site de química ou geologia, vamos nos desvencilhar dos substantivos assustadores dessas duas ciências para alguns mais difundidos como: economia, política e guerra.

O petróleo não é somente um dos produtos mais importantes que o homem retira da natureza, na verdade chega a ser mais importante que a própria natureza e o próprio homem. Desde a sua descoberta, ele foi responsável por crises que causaram desemprego e guerras que causaram e causam mortes e disputas territoriais na África, no Oriente Médio e até nas Ilhas Malvinas. Vai me dizer que você acreditou nas armas bélicas do Sadam Hussein, que só o Bush viu?

A economia há anos varia de humor conforme se banha em petróleo. Existe um grande emaranhado de ligações entre os países produtores, consumidores, importadores e exportadores, que dificilmente estão em equilíbrio com duas dessas situações. Os Estados Unidos são os maiores consumidores e o terceiro maior produtor, acumulando a função de maior importador para suprir suas necessidades. Já o Irã é o quarto maior produtor, exportador e apenas o 13º consumidor. O que gera temores quando a relação nunca amável entre os dois cai a níveis próximos de uma separação total de bens.

Ainda nesse contexto, a política é uma das armas mais usadas para acalmar ânimos. Desde a criação de oleodutos e gasodutos para transportes entre países que podem gerar crises como a que ocorreu entre Brasil e Bolívia, até situações mais complexas como a criação de organizações entre países, há grande envolvimento do petróleo nesse meio.

A OPEP é a maior organização em torno do petróleo e reúne os maiores países produtores – 16 países, exceto os EUA e seus aliados. Pelo menos duas vezes ao ano ou quando eles acham conveniente, é feita uma reunião para determinar a quantidade e o valor dos barris que serão produzidos por esses países. Quem pode mais, produz mais. Em casos de crise eles se reúnem – foram três vezes em 2008 – para decidir novas quantidades de produção, preço e até possíveis embargos para alguns países. No Brasil há uma discussão ferrenha entre os estados que compõem a faixa do pré-sal desde que o governo decidiu por um novo marco regulatório, onde todos os estados receberiam uma parte do lucro obtido com a exploração do pré-sal, o que causou a ira dos estados produtores, demonstrando que não é só internacionalmente que a guerra existe. Você que é brasileiro, informe-se melhor por aqui.

Ah, a natureza. Essa seja talvez a que mais sofra com o petróleo. A exploração causa danos ao ecossistema – nem é preciso citar o desastre americano com a BP – o transporte pode sofrer com acidentes e vazamentos, o refino é feito em ambientes com enormes potenciais de explosão e poluição ambiental (na maioria dos casos provocam problemas na tireóide dos moradores vizinhos) e a própria utilização é indicada como maior culpada do efeito estufa. Ainda existe a suspeita de que o deslocamento de grandes quantidades de petróleo pode causar terremotos e a vaporização do metano em alto mar produz colunas deste gás que tornam a água e o ar menos densos, podendo provocar acidentes aéreos e naufrágios.

Gostaria de ter escrito esse último parágrafo em várias línguas, pois parece que somente nós, pobres rapazes latino-americanos, temos o dever, a importância e o conhecimento sobre a ecologia.

Pois bem. Talvez você não tenha o mínimo interesse pela química, não seja um geólogo – e quantos são? –, não tenha seu emprego atrelado à economia, não esteja almejando uma candidatura política pelo PV, nem queira se tornar um Napoleão. Mas por mais que você não sofra com a chuva de ácido sulfúrico ou com banhos de óleo, ainda assim é importante ficar atento a felicidade jorrada em cada poço perfurado. Pois dela vem ventos prósperos, mas que podem carregar nosso dinheiro e trazer nuvens negras e infernais como o petróleo fervente que se esconde sobre nossos pés.

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Categorias: Ciência e Tecnologia

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3 Comentários em “Dossiê Petróleo”

  1. Josiah
    14 de outubro de 2010 às 21:47 #

    Com efeito, o petróleo não é oriundo de fósseis. Petróleo e gás natural são materiais primordiais (hidrocarbonetos) que sofrem transformação desde nebulosas, na formação de planetas, satélites, entre outros. É um combustível mineral abundante na Terra e tem, portanto, origem abiótica embora possa sofrer contaminação por microorganismos que dele se alimenta e os quais morrem em meio aos hidrocarbonetos.

    É importante ter em mente o que frisou Sir Fred Hoyle:

    “The suggestion that petroleum might have arisen from some transformation of squashed fish or biological detritus is surely the silliest notion to have been entertained by substantial numbers of persons over an extended period of time.” – Fred Hoyle.

    ou seja:

    “A sugestão de que o petróleo poderia ter surgido de alguma transformação de peixes esmagados ou detritos biológicos é certamente a mais tola noção que tem sido sustentada por um substancial número de pessoas durante um largo período de tempo”

  2. Josetti
    1 de março de 2011 às 16:02 #

    Apesar de estarmos no século XXI ainda persistem muitas idéias arcaicas, entre elas a de que o petróleo pudesse ser oriundo de detritos biológicos. Pensar deste modo equivale afirmar que moscas são originárias de carne em putrefação ou larvas nascem no interior de certas frutas como a goiaba, isto é, raciocinar como nos moldes da geração espontânea. Isso decorre do fato que a geologia ser refém de seus dogmas e teorias “a priori”.

    Para resumir:
    “Geology is the prisoner of several dogmas that have had widespread influence on the development of scientific thought.” — William R. Corliss, 1975

    “It is a singular and notable fact that, while most other branches of science have emancipated themselves from the trammels of metaphysical reasoning, the science of geology still remains imprisoned in ‘a priori’ theories.” — Sir Henry H. Howorth, 1895

  3. 26 de setembro de 2011 às 15:56 #

    ACHEI BEEM INTERESSANTE POIS VISA QE O PETROLEO É MUITO IMPORTAMTE PARA AGENTE!

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