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Problemas sociais e violência são a grande marca do cinema nacional nos últimos dez anos

por Soraia Alves


Cartaz do filme Tropa de Elite 2

Os anos 2000 começaram com um Rodrigo Santoro arrancando elogios dos mais variados críticos de cinema em O Bicho de Sete Cabeças. Em 2010, Wagner Moura impressiona novamente com o agora Coronel Nascimento, em Tropa de Elite 2, a grande estreia nacional do ano. Um panorama dos últimos dez anos do cinema brasileiro mostra as características que vêm marcando os filmes nacionais e revela que embora com exceções, retratar a sociedade brasileira e todos os seus conflitos urbanos e sociais tem sido a grande inspiração das produções nacionais.

A emergência do cinema moderno brasileiro está intrinsecamente ligada ao Rio de Janeiro, especialmente às favelas cariocas, e inserida num contexto em que retratar a sociedade e suas mazelas aparece quase como uma forma de justificar ou de obter a aceitação da população para  a situação atual. O morro virou lugar de gravações e seus moradores vão de coadjuvantes à produtores, que não deixam de cair na tentação do mercado cinematográfico e acabam realizando produções que visam não somente o mercado convencional, mas também os grandes festivais. Não é de se estranhar que Cinco vezes favela- Agora por nós mesmos tenha chegado à Cannes, no mais importante festival de cinema da atualiadade.

A busca por referências de diretores internacionais acaba apresentando uma curiosa safra de filmes nacionais que dialogam com o diretor americano Quentin Tarantino: produções que tentam chegar ao limite da perfeição de alguns elementos em meio a uma linguagem que absorve o telescpectador, causando-lhe prazer mesmo que as cenas sejam repletas de violência. O melhoramento técnico obtido pelas produções brasileiras nos últimos anos alcançou as normas internacionais, claro que para as produtoras comerciais, majoritariamente situadas no circuito Rio-São Paulo e que contam com investimentos particulares de grandes grupos e empresas. Os dependetes de investimentos da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura, por sua vez, disputam verbas que além de insuficientes são tão aleatórias que comprometem o andamento das gravações.

A presença crescente do crime organizado serve como a deixa necessária para produções recheadas de perseguições, esquemas de invasão, tiroteios, etc. Um retrato da guerrilha urbana que infelizmente é uma grande realidade para a maioria daqueles que assistem aos filmes como produto final. O clássico “polícia e ladrão” continua fazendo sucesso em meio ao público que prefere o estilo ação e aventura, mas para os que preferem gêneros como o drama, por exemplo, há sempre o recurso do “baseado em fatos reais” como em Meu nome não é Johnny (2008), que ajuda a comover quem assiste à histórias de vidas sendo desgraçadas pelas drogas, violência, corrupção.

Cena do filme Cidade de Deus

Cidade de Deus (2002), O invasor (2002), Ôninus 174 (2002), Prisioneiro da grade de ferro (2003) e Carandiru (2003) são alguns dos filmes que dialogam entre si na busca por mostrar a violência urbana atual, e a grande questão a ser discutida é se essa representação ajuda a fixar uma imagem de marginal ao favelado, reforçando sua posição de excluído da sociedade ao invés de incluí-lo. O cineasta e filósofo francês Guy Debord define esse retrato da realidade contemporânea como a representação de uma sociedade do espetáculo, cheia de personagens esteriotipadas. Identifica-se um certo voyeurismo sociológico e uma mitificação sobre o que se passa na sociedade. Até mesmo Tropa de Elite (2007) transformou o Bope em um mito, uma espécie de Liga da Justiça.

Documentários como Falcão, meninos do tráfico (2006), produzido por MV Bill e Celso Athayde, trazem o realismo  por trás de rostos escondidos e vozes disfarçadas que relatam a verdade nua e crua de suas vidas. Não são personagens, não são esteriótipos. São figuras que continuarão com a mesma rotina, os mesmos hábitos, crimes, perigos e problemas que relatam com naturalidade. Em um de seus artigos,  Esther Hamburger, professora do Departamento de Cinema, Rádio e Tv da ECA-USP  e autora do livro O Brasil antenado, a sociedade da novela, afirma que “Falcão se coloca como elo nessa espécie de cadeia de interlocuções diretas e indiretas, desiguais e distorcidas e expressa um debate em torno da adequação da representação midiática da periferia”.

A década 2000 do cinema brasileiro ficou marcada pela representação de uma sociedade cheia de problemas e desigualdes sociais. Com esteriótipos ou não, o retrato de uma vida urbana que sofre com a violência crescente lota as salas de cinema, onde os telespectadores se dividem em dois grupos distintos: o grupo daqueles que já conhecem de perto as histórias apresentadas, e aqueles que ainda se perguntam se aquilo que viram nas telas é realmente possível na vida real. Bom seria se tudo fosse apenas ficção.

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Categorias: Atena, Cinema

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